Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > BRASIL vs. EUA

Samba, mulata e futebol

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

BRASIL vs. EUA

Márcio Fernandes (*)

E depois ainda reclamamos, via imprensa, que somos o país do samba, da mulher pelada e do futebol, aquela visão típica que os estrangeiros têm de nós. A mesma imprensa que acaba colaborando para que essa imagem se forme e se consolide cada vez mais, aqui e acolá. Pois essa é uma conclusão passível de ser tirada depois que se lê um texto como o que saiu no Estado de S.Paulo (15/1), com o título "Carnaval antecipado no saguão de aeroporto surpreende turistas".

Não bastasse a trapalhada de iniciar o fichamento de turistas americanos em aeroportos sem o mínimo de infra-estrutura necessária, o governo federal parece estar apoiando uma iniciativa patética, no sentido de minimizar o fato de americanos terem de sujar os dedos para deixar impressões digitais. É que a reportagem em questão indicava que, desde a semana passada, turistas daquele país têm sido recebidos no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, por integrantes de um grupo de samba e por passistas. O kit de boas-vindas incluía uma camiseta e um pingente. A espetacular idéia nasceu sob os auspícios da prefeitura e do governo do estado do Rio de Janeiro, mais entidades do turismo, e ainda conta com o apoio da União, já que realizada em área sob jurisdição federal ? isto é, o aeroporto.

Assim escreveu a redatora Carolina Iskandarian, do Estadão: "Em alguns momentos, os músicos cessavam os batuques e gritavam welcome ? bem-vindo, em inglês". Mais adiante: "O oftalmologista Jeff Blustin, de 52 anos, sabia que seria identificado, mas se surpreendeu com a recepção. ?É uma forma de conhecer mais o País?". Bingo. Precisa fazer algo mais para reforçar nossa imagem tríade ? de que aqui só há Carnaval, mulata e bola no pé o ano todo?

Voz ativa

O que mais impressiona é uma trapalhada após a outra. Em um momento, um juiz federal decide que tem de fichar os americanos, com base no princípio da reciprocidade. A iniciativa, bastante interessante, é seguida de um começo confuso de atividades, fazendo com que os turistas fiquem horas em filas para que tal identificação ocorra. No momento seguinte, um piloto da companhia American Airlines desembarca em Guarulhos (São Paulo), faz um gesto obsceno diante das câmeras e é preso pela Polícia Federal. Aí aparece um procurador da República e diz que por 36 mil reais (a título de multa) é possível liberar o cidadão, como aconteceu na quarta-feira (14/1). A American paga o valor e Dale Hersh, o piloto, é solto. Alguém acredita que essa história vá adiante, resultando em processo e mesmo condenação?

Para completar o circo, o assessor internacional da presidência da República Marco Aurélio Garcia tratou o caso da detenção como um "incidente menor", embora tenha envolvido a própria assessoria, o Ministério do Turismo, a Polícia Federal, a Procuradoria da República, o consulado americano em São Paulo, uma das maiores companhias aéreas do planeta, o Ministério da Justiça e o Palácio do Planalto. Pensem se não tivesse sido um "incidente menor" quem teria sido chamado. Os americanos teriam trazido a SWAT e o Departamento de Estado. Do lado verde-amarelo, sabe lá quem.

E a imprensa? Fez o de sempre ? um papel raso. Meramente noticiou tudo, sem questionar nem ao menos a validade de colocar sambistas no setor de desembarque de um aeroporto internacional. E depois o presidente da República vai ao exterior dizendo que o Brasil precisa ter voz ativa no novo cenário global e ser respeitado. Então, tá.

(*) Jornalista e professor universitário no Paraná

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