Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > gritaria

Sandra Soares

Por lgarcia em 14/02/2001 na edição 108

QUALIDADE NA TV


ratinho jornalista

"Ratinho vai se vestir de jornalista", copyright O Estado de S. Paulo, 10/02/01

"O apresentador, que renovou seu contrato com o SBT até 2004, fala em ter mais notícia e menos briga de casal no seu programa. Ele diz que a intenção é ‘explicar o Brasil aos brasileiros’

Noventa por cento de informação e diversão e 10% ‘dessas coisas de que o povo gosta: brigas entre marido e mulher e testes de DNA’. Assim Ratinho define a nova fórmula de seu programa – que, embora continue com o mesmo nome, irá sofrer mudanças na linha editorial.

Ao renovar seu contrato com o SBT até 2004, o apresentador avisou: quer que o Programa do Ratinho invista cada vez mais em jornalismo.

‘Vamos aumentar a equipe de jornalistas. Quero usar o horário nobre para abordar temas mais relevantes para a população, como o desperdício de dinheiro público’, diz, deixando claro que a mudança não significa um mea culpa diante das críticas que sempre recebeu da imprensa, especialmente depois que pôs no ar cenas de uma criança sendo torturada: ‘Não me arrependo de nada do que já fiz na tevê’.

No camarim do SBT, enquanto se entregava aos cuidados de um maquiador e cabeleireiro, Ratinho falou sobre as modificações do programa ao JT, minutos antes de subir no palco da atração. Leia trechos da entrevista:

Por que impor nova linha editorial ao programa? Para aumentar o Ibope?

Não tem nada a ver com isso. Quase sempre somos vice-líderes do horário das 21 h, só perdemos para a novela da Globo. É que eu quero que o programa seja mais importante do que ele é. Acho que tenho a função de ajudar o Brasil a melhorar, e para fazer isso tenho que levar informação às pessoas.

Então o Ratinho vai se tornar menos polêmico?

De jeito nenhum! Eu procuro chamar a atenção em tudo que faço. As pessoas chamam isso de sensacionalismo, mas para mim é manchete popular, um recurso para chamar a atenção do público. Tudo pode ser polêmico. Mas cada polêmica tem seu valor. A briga entre marido e mulher só serve para aumentar a audiência. Ela vai continuar no programa, mas ao lado de assuntos mais importantes, jornalísticos.

Você fala em incrementar o jornalismo. Como será isso na prática?

De imediato vamos instalar um computador no palco e falar das notícias que aparecerem na Internet. E mais tarde vamos aumentar o número de matérias. O povo ouve falar do Lalau mas não sabe direito o que ele fez. Eu vou explicar as coisas com uma linguagem que o Jornal Nacional não fala. Qualquer noticiário fala no máximo para 30% da população e o resto do País não entende nada. A imprensa ainda não percebeu que meu programa serve para levar notícias a um público que não tem acesso a elas.

Você se sente perseguido pela imprensa?

Não digo que ela me persiga, mas também não digo que dê moleza para mim. Nunca vi um elogio ao meu programa. O engraçado é que a Folha de S.Paulo me criticava por ser sensacionalista e mantinha o Notícias Populares; a Veja me criticou por mostrar gente doente e botou o Cazuza na capa todo desfigurado por causa da Aids! Todo mundo esconde o próprio rabo e mete o pau no do outro, não é? Assim fica fácil.

Você é criticado também por educadores. Recentemente a psicóloga Paula Gomide, da Universidade Federal do Paraná, publicou um estudo em que defende que você é um mau exemplo para as crianças, que tendem a copiar seu comportamento exaltado e a tentar resolver as coisas na base do grito. O que você acha disso?

Isso é uma imbecilidade! Coisa de pseudointelectual que sai por aí dizendo coisas num ‘achismo’ total. A formação está dentro da família. A televisão não interfere no comportamento das pessoas da maneira que dizem.

Mas se a televisão influencia a moda – o que um personagem de novela veste é copiado nas ruas -, não é natural que interfira também no comportamento?

Não concordo. Acho que a televisão influencia a moda mas não muda comportamentos. Acho que ela influencia na liberalização de costumes, mas esbarra num limite que é o da família.

Você também está caindo no ‘achismo’…

Os fatos mostram o que eu digo. Você já viu o que fazem Tom e Jerry? E o Pica-Pau então? O Pica-Pau é maldoso pra caramba! Ele dá soco e pontapé para todo lado. As crianças assistem a esses desenhos e nem por isso saem por aí fazendo igual. Elas vêem um índio quase pelado na novela Uga Uga e não saem sem roupa pela rua.

Então você nunca leva em consideração as críticas que recebe?

Tem gente que ainda me critica por levar gente doente ao programa… Eu fazia isso há três anos, quando trabalhava na Record! Acho que quem me critica não me assiste. Se assistisse, veria que agora as brigas são uma parte mínima do meu programa. E que eu tenho colocado minha turma (os assistentes de palco) para brigar entre si, num clima de brincadeira.

Por que você decidiu deixar de mostrar pessoas doentes?

Nós chegamos à conclusão de que seria impossível internar todas as pessoas que procuram o programa. Tem gente que tem doenças graves, incuráveis, então não adianta botar essa pessoa na televisão sabendo que ela não vai ficar boa. Se eu fizesse isso estaria usando a doença da pessoa só para ganhar audiência. O problema é que a maior parte das pessoas sofre é de falta de informação, vem a São Paulo para se tratar e não sabe onde se internar. Por isso o mais importante é ensinar o que se deve fazer.

A que você atribui o seu sucesso?

Eu sou a cara da maioria do povo brasileiro. Já fui
palhaço de circo, fiz teatro mambembe, minha escola é
essa. Por isso estou investindo mais no humor no meu programa.
A turma quer que eu seja como o Gugu e o Faustão, mas
sou diferente. Eles só tomam água mineral; eu
bebo cachaça. Sou simples. E é por isso que o
povo gosta de mim."

 

"Críticos falam sobre os planos do apresentador", copyright O Estado de S. Paulo, 10/02/01

"Ratinho jornalista? Veja o que jornalistas e críticos de televisão pensam sobre isso:

Eugênio Bucci, autor do livro Ética na Imprensa (Cia das Letras): ‘As notícias realmente precisam ser mais bem explicadas. A tevê valoriza mais o espetáculo do que o conteúdo. Mas é no mínimo esdrúxulo que o Ratinho se proponha a resolver o problema da desinformação do povo. Ele costuma exagerar o sentimento de raiva diante dos crimes que noticia, confundindo justiça com vingança. O programa dele nunca foi uma excelência em matéria de informação. Muitas vezes é até desinformador.’

Gabriel Priolli, diretor da TV PUC: ‘Vejo com grande alegria que o Ratinho está se sensibilizando e procurando se reposicionar. Não vejo problemas no estilo de apresentação dele, e sim no conteúdo do programa. Ninguém espera que ele se transforme no Bóris Casoy, mas também ninguém quer que ele seja o rei da baixaria. O inaceitável é a exploração da miséria humana.’

Carlos Alberto Di Franco, professor de ética jornalística e articulista de `O Estado de S. Paulo’: ‘A credibilidade é o maior princípio do jornalismo.

A mistura de notícias e entretenimento a compromete. Aliás, isso é algo que vem acontecendo na imprensa de uma maneira geral: uma confusão entre assuntos jornalísticos e o `show da vida’. Não só a televisão vem adotando essa linha esquizofrênica. Jornais e revistas também, em vários países. Mas pesquisas internacionais vêm mostrando que essa é uma fórmula falida. Num primeiro momento ela fez com que as vendas crescessem; agora estão caindo’.

Alberto Dines, apresentador do programa `Observatório da Imprensa’: ‘Isso é uma calhordice! O Ratinho sempre quis legitimar seu programa como jornalístico numa tentativa de ter credibilidade. Ao divulgar essas mudanças ele está simplesmente insistindo numa mesma tecla. Ele não tem moralidade para apresentar notícias.’

Ivan Angelo, crítico de tevê do `JT’: ‘Qual será a qualidade
desse produto jornalístico? Duvido que qualquer coisa
que venha do Ratinho tenha qualidade. As notícias, reinterpretadas
por ele, tendem a ser dramatizadas com propósitos popularescos.’"

 

gritaria

"A cultura dos decibéis", copyright Valor Econômico, 9 a 11/02/01

"Uma das vantagens dos canais por assinatura é que você, além de conhecer a Lisa Kudrow e a Courtney Cox, fica sabendo que a gritaria não é requisito obrigatório das emissões televisivas. Repetindo: gritar não está no DNA da TV. Tente mudar, a esmo, do Ratinho para o Larry King, do noticioso da Record para o telejornal da Deutsche Welle, navegue a seu gosto e risco e, com a possível exceção da dramática e operística RAI Internacional, não haverá uma única emissora em todo o mundo que se dirija à audiência como tivesse à sua frente uma platéia de deficientes auditivos.

Mas o que há de errado com os decibéis a mais? – pode-se perguntar, na lembrança de que, afinal, o próprio Brasil nasceu de um heróico brado retumbante, se bem que em margens plácidas. Rigorosamente nada a objetar. Trata-se apenas de flagrar, por inócuo que seja, um dos atributos de ouro do caráter nacional – traço filogenético de resto tão arraigado no cotidiano que precisa vir o universo inteiro em nosso resgate, no visor de umas tantas polegadas, para dizer que, no fundo, no fundo, ninguém carece de tamanha barulheira em seus ouvidos.

Guardem um minuto de silêncio, por favor – e observem. O Brasil está sempre uma oitava acima, pelo menos. Gritam locutores de telejornal, mesmo os que se fazem de ‘cool’. Termina ‘Os Maias’, em sua cadência sussurrante de ‘adagietto’, e olha que nos chega, tardiamente, no ‘Jornal da Globo’, a Ana Paula Padrão, em sobressalto espantado e obviamente incompatível com sua beleza serena de dama pré-rafaelita. Será que o déficit de atenção do telespectador anda tão grande que se faz necessário o alarido, que só esperneando é que alguém enfim há de perceber a presença da luminosa jornalista?

Gritam, em especial, os animadores de auditório. Grita, é claro, o auditório. Com seu peitoral de barítono, esgoela o Faustão, no vício de quem tentava outrora dar graça ao futebol de campo. E, mais do que ninguém, gritam, aliás, uivam, os narradores esportivos, reverberando seus goooooolllss intermináveis, como se a imagem não bastasse (comparando-se com a locução de uma dupla britânica no ESPN Internacional, fica ainda mais intrigante a emoção dos narradores canarinhos quando a partida é jogada entre, digamos, o Ipswich e o Middleborough, os ingleses sendo muito mais comedidos em relação às próprias façanhas futebolísticas).

A televisão brasileira é filha do rádio e de sua estridência eufórica. Embora cinqüentona, velhusca o suficiente para já ter aprendido, continua sendo. É um berreiro de manhã à noite, dos shows de baixinhos aos debates dos graúdos, cacofonia alimentada pela convicção alardeada de que felicidade faz (e traz) barulho. A TV, mais uma vez, espelha a nação. Impossível exprimir satisfação sem estrépito, é o que pensa o país. Na plenitude dos pulmões desbandeirados, explodem simultaneamente, na tela e fora dela, o pagode, o axé, o discurso do político, o pregão dos camelôs, os anúncios do Ponto Frio Bonzão. A buzina ressoa no túnel. Até nas missas – algumas com cobertura ao vivo – já se grita.

É como se um alto-falante estivesse sempre ligado, reiterando aos brados os clichês da índole nacional alegre e franca. Mas a cultura do urro e do berro tem válvula de escape simples para os que preferem cultivar uma alegria de viver íntima e silenciosa: o botão ‘off’. A propósito, preparem os tímpanos: vem aí, ao vivo e em cores, o carnaval."

 

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