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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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Sandro Guidalli

Por lgarcia em 16/10/2002 na edição 194

ELEIÇÕES 2002

“Os grandes mitos da Imprensa (I)”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 8/10/02

“O jornalista brasileiro trabalha, reflete e conversa nos botequins, baseado em mitos formados recentemente ou não e que representam de certa maneira o pensamento hegemônico da imprensa mundial nos dias de hoje. Num país limitado editorialmente como o Brasil, estes mitos têm a força da verdade absoluta e todos aqueles que ousam duvidar da sua validade costumam ser tratados como lunáticos e cultuadores de ?teorias conspiratórias?, entre outros adjetivos.

Fiz uma pequena lista com aqueles que considero ser alguns dos maiores no âmbito nacional e outra, a partir da visão que o jornalista tem do mundo em geral. Poderiam ser dez, vinte ou quarenta elencos, tão fantástica é a mitologia da imprensa brasileira. Começando com os mitos locais, faço abaixo um rápido comentário para explicar um pouco de cada um deles:

1. A oposição ao regime militar no Brasil sonhava com a Democracia

Este mito é um dos mais recorrentes na imprensa. É comum ler reportagens e matérias sobre fatos e histórias do regime militar em que seus opositores são tratados como vítimas inocentes que apenas buscavam reintroduzir a Democracia perdida com a queda de Jango em 1964. Ele sofreram nos ?porões?, tiveram seus direitos cassados e foram exilados.

O que o mito esconde é muito simples. A maioria das ?vitimas? do regime, ao contrário do que conta a mídia, era composta por sanguinários guerrilheiros de orientação marxista, financiados por Moscou, Cuba e China com o objetivo de transformar o Brasil numa ditadura socialista, muito mais dura do que aquela que tentavam derrubar. Este mito está tão entranhado nos jornalistas que já virou ?verdade? incontestável nas redações. Ai de quem dele duvidar.

2. Os donos dos jornais impedem que a imprensa seja verdadeiramente livre

Recentemente, e até involuntariamente, o veterano jornalista e diretor de redação da revista Época, Paulo Moreira Leite, disse aqui mesmo neste portal que os Marinho decidiram há muito tempo isolar os negócios do jornalismo. O fato é que há muito tempo mesmo que as redações são comandadas totalmente por jornalistas de confiança dos empresários, muito mais preocupados com o andamento financeiro do seu empreendimento do que com a linha editorial adotada pelo seu jornal ou revista.

São nos aquários, entre colegas com cargos de chefia, que se decidem o tratamento e o tom político das reportagens mais importantes. Este mito também tem grande força porque costuma ser usado para justificar a abertura de mais espaço ainda para o pensamento esquerdista que atualmente já controla com mão-de-ferro os grandes jornais e revistas. Ele também tem suas variantes. Uma delas diz que a ?direita? é majoritária na condução editorial das publicações, ou seja, é algo mesmo patético.

3. A imprensa brasileira é pluralista, isenta e democrática

Muitos jornalistas, alguns da maneira mais cínica do mundo, cultuam este mito diariamente ao mesmo tempo em que fazem exatamente o contrário daquilo que dizem adorar. A grande maioria da massa editorial nas grandes publicações é fermentada por jornalistas de esquerda que dominam as redações e determinam a ocupação dos espaços. Praticamente fora da agenda de fontes dos repórteres, liberais e conservadores são tolerados nas páginas de opinião, utilizadas justamente para simular a suposta pluralidade dominante.

Mesmo assim, o número de analistas e articulistas de esquerda presente nos jornais é tão maior que o de seus opositores ideológicos que chega a constituir-se um deboche a afirmação de que todos os lados têm seu espaço garantido na imprensa. Apenas para citar alguns dos onipresentes ?pensadores? predominates, lembro sem esforço de Emir Sader, Leonardo Boff, Frei Betto, Leandro Konder, Marilena Chauí, Márcio Moreira Alves entre outros adoradores de Karl Marx. A presença eventual de um Olavo de Carvalho entre eles serve para o que já mencionei: forjar a pluralidade de opiniões. Apenas isso.

4. Os candidatos à Presidência são tratados com imparcialidade

Este é um mito sazonal, pois sua força está vinculada ao calendário eleitoral. Entre ano e sai ano é a mesma conversa mole, a velha história para boi dormir. Se nas eleições passadas o maior beneficiado pelo mito foi Fernando Henrique Cardoso, este ano é até covardia. Lula ganhou as melhores imagens, as melhores legendas, o melhor perfil, foi paparicado nas colunas, bajulado em artigos, em comentários, nos fóruns do leitores, nas reportagens especiais, por toda a parte.

Numa reportagem de O Globo, por conta do encontro entre o candidato do PT e artistas que reuniram-se para declarar o voto nele numa churrascaria do Rio, os repórteres que assinaram o texto chegaram a dizer que todos ali estavam ?bêbados de emoção?. Lula e o PT também foram poupados durante toda a campanha. Nenhuma investigação mais aprofundada sobre suas relações com Fidel, Chávez e as Farc. Nenhuma sondagem sobre a verdadeira face do candidato, transformado no Lula Paz e Amor apenas para ganhar a eleição. Nenhuma insistência sobre o esquema na prefeitura de Santo André. Tenho comigo tantos exemplos que dariam para preencher uns 500 artigos desta coluna.

Na semana que vem: a mitologia na visão de mundo dos jornalistas brasileiros.”

“Lula e a Cavalaria Vermelha”, copyright Jornal do Brasil, 13/10/02

“Isaac Babel, escritor russo de ascendência judaica, mostrou nos contos de A Cavalaria Vermelha o processo de transformação de pessoas pobres em líderes solares. Os intelectuais que rodeiam Lula poderiam ler esse livro para entender melhor o companheiro. Por que oferecer-lhe o caríssimo vinho Romanée Conti na celebração da passagem para o segundo turno?

Em nível sério, entretanto, como é de seu feitio, comentando as eleições presidenciais, um antropólogo discorreu sobre os significados de Lula e de Silva. O apelido indica sempre intimidade? A pobreza está simbolizada indelevelmente em sobrenome tão comum?

Vamos à saudável controvérsia, única via possível nessas horas, com a devida licença, ?que licença eu peço?, como requer quase ordenando o célebre personagem Zé Bebelo, de João Guimarães Rosa. Com efeito, o deputado jagunço solicita julgamento civilizado das acusações que lhe pesam sobre o nome, ainda que em tribunal hostil instalado no sertão, onde aparecem vestes, falas e gestos nada litúrgicos.

É também para isso que escrevemos. Para darmos direito ao contraditório. É uma delícia ler Roberto DaMatta. É desses autores com café no bule. Sempre encontra um ponto de vista imaginoso, novo, construído à luz de sólida formação e exercício docente, incluindo a pesquisa.

Penso, porém, que no caso do ?Lula? e do ?Silva?, talvez pelo espaço exíguo, deixou inconcluso o comentário. ?O foco na pessoa tem sido, talvez, o maior achado da campanha. Acima de tudo pelo nome sintético que sugere igualdade e intimidade (Lula) e a pobreza, simbolizada indelevelmente pelo sobrenome (Silva)?. Será? Então, Nhonhô, Ioiô, Nhô, Siô, Siozinho etc, sínteses de uso vasto e complexo nas ancestralidades nacionais, revelam intimidade? E Gegê, JK e Jango serão marcas semelhantes? E Sinhozinho Malta, de Roque Santeiro, não seria outro contra-exemplo?

Repleta de sutis complexidades é também a questão do ?Silva?. Ayrton Senna da Silva extirpou o último sobrenome, mesmo depois de, sempre vitorioso em Silverstone, ter levado os jornalistas a mudarem a denominação do circuito inglês para ?Silvastone?. Quis evitar o sinal subalterno? É ainda mais controverso atribuir fumos imanentes de pobreza ao sobrenome ?Silva?. Alberto Dines, em sua obra sobre Antônio José da Silva, o Judeu, aliás referência indispensável ao autor estudado, deixa claro que o Silva designa outro estado, conceito de resto presente em expressões já cristalizadas na própria língua portuguesa, de que são exemplos ?vivinho da silva?, ?doidinho da silva? etc. Nesses casos, o adjetivo vem no diminutivo, antecedendo e reforçando a ênfase.

Silva é marca de legitimidade, não de pobreza. Lula nunca trouxe a marca indelével da pobreza no sobrenome. Era pobre quando migrou do rural para o urbano, hoje não é mais. Seu trabalho também mudou. Dos tornos para os turnos, agora o mais decisivo de sua vida. Ascendeu socialmente pelo trabalho, também diferenciado depois que passou à política.

O antropólogo testavilhou no apelido (Lula) e tropeçou no sobrenome (Silva). Na lista telefônica de nossas metrópoles vê-se que os Silva têm menos telefones do que os Cury (esses sob as grafias de Kuri, Curi, Khoury etc). Isso não autoriza entretanto a conclusão de que os primeiros sejam pobres, e os segundos — ricos. A cavalaria vermelha viaja por outras veredas.”

“Eles estão de volta”, copyright Folha de S. Paulo, 14/10/02

“Lula e Serra terão, a partir de hoje, cinco horas e meia decisivas na TV para o desfecho da disputa pela Presidência. É o tempo exato, entre horário eleitoral e comerciais, com que conta o tucano para reverter sua desvantagem nas pesquisas, e o petista, para não deixar que isso ocorra.

O último levantamento do Datafolha, publicado ontem, apontou o candidato do PT com 58% do total de votos, contra 32% do presidenciável do PSDB. Assim, a grande questão agora será perceber a reação do eleitorado aos próximos 12 dias de propaganda política. Para dar as últimas cartadas, cada um terá, no rádio e na televisão, quatro horas de horário eleitoral e uma hora e meia de inserções. Folga, nem no domingo.

O tempo dos candidatos passa a ser igual: duas edições diárias de dez minutos para cada um no rádio e na TV (veja quadro com horário nesta página). Em relação ao primeiro turno, Serra terá quase o dobro do tempo semanal (antes, tinha duas edições de dez minutos e 23 segundos cada uma, três vezes por semana). Já Lula, que contava com blocos de cinco minutos e 19 segundos, vai ter a duração de sua exposição praticamente multiplicada por quatro.

Somam-se a isso mais sete minutos e 30 segundos diários de comerciais para cada candidato, que serão exibidos durante a programação normal das emissoras.

A ?maratona?, no rádio e na televisão, vai até dia 25, sexta-feira -dois dias antes da votação-, quando deve ocorrer o último debate presidencial, na TV Globo.

Em uma eleição já marcada pela superexposição na mídia -na TV, os candidatos participaram de três debates e de praticamente todos os programas jornalísticos e ?talk shows?-, os coordenadores das duas campanhas tentam elaborar estratégias para atrair -e convencer- o telespectador/eleitor nesta reta final.

Pelo menos nos primeiros dias, a continuação da ?novela eleitoral? deverá lembrar os últimos ?capítulos? do primeiro turno, quando Serra forçou a polarização com Lula, que respondeu aos ataques tentando sair o mínimo da embalagem ?paz e amor?.

Outra época

Será o primeiro enfrentamento em segundo turno desde 89, quando Collor levou ao horário eleitoral o depoimento de Miriam Cordeiro, antiga namorada de Lula, dizendo que o petista havia pedido que ela abortasse durante a gravidez de sua filha, Lurian.

Os últimos momentos da campanha deste ano, no entanto, pouco deverão ter de semelhança com a disputa de 89, na opinião dos próprios coordenadores das duas campanhas e de marqueteiros consultados pela Folha.

Para Chico Santa Rita, 63, marqueteiro de Collor na eleição de 89, o eleitorado mudou e não teria hoje o mesmo olhar que teve do ?caso Lurian?. ?Hoje, algo assim seria visto com desconfiança pelo eleitorado. Àquela época, aceitava-se melhor uma campanha agressiva. Hoje, o eleitor, amadurecido ao longo desses anos, não parece disposto a assistir na televisão uma campanha violenta.?

Ele acredita que o eleitor tenha aprendido ?os códigos do marketing político?. ?Hoje, ele não confunde mais o horário eleitoral com novela ou jornalismo. Mesmo os menos instruídos sabem reconhecer os interesses do marketing político?, diz Santa Rita.

O sociólogo e jornalista Chico Malfitani, 51, marqueteiro de Luiza Erundina na disputa pela Prefeitura de SP em 1988 e 2000, afirma que ?a disputa de 89 e a de hoje são completamente diferentes?.

?Os candidatos atuais têm mais conteúdo e a campanha tem um outro nível. Ataques pessoais não fazem mais efeito, e podem prejudicar quem ataca?, diz Malfitani.

Emoção

O tom dos programas, na opinião de Malfitani, tende a ser mais emocional no segundo turno. Seria o único modo de não ?cansar? o eleitor nos dez minutos que dura cada uma das duas edições diárias da propaganda eleitoral.

?Para segurar esse tempo na TV, é necessário usar emoção, em cima da racionalidade. É preciso fazer as pessoas pensarem, sim, mas através da emoção, usando música e outras coisas. Senão, fica cansativo para quem assiste.?

O ibope do horário eleitoral, na opinião dos marqueteiros, deve subir nesses derradeiros 12 dias. ?Além do fato de a disputa ser mais acirrada e, por isso, chamar a atenção, a qualidade dos programas é melhor do que no primeiro turno. Sem as outras candidaturas, o horário fica menos poluído e mais atraente para o eleitor?, afirma Chico Santa Rita.

?A audiência deve ser grande. As pessoas não vão querer perder o último capítulo desta novela, a final do campeonato, ainda mais em uma eleição histórica como esta?, diz Chico Malfitani.

Programação

O horário eleitoral que começa hoje é bem diferente do que foi ao ar no primeiro turno. Desta vez, saem os candidatos a deputado e senador -e, em alguns Estados, também quem concorria para governador. Só aparece quem está disputando o segundo turno.

Primeiro, os presidenciáveis. Lula e Serra abrem a propaganda política todos os dias (hoje começa com o petista, amanhã, com o tucano, e assim sucessivamente). Em seguida, é a vez dos candidatos aos governos estaduais. Portanto, os Estados onde a disputa terminou no primeiro turno terão 20 minutos a menos em cada bloco do horário eleitoral gratuito.

Nesses locais, as emissoras de televisão terão de fazer malabarismos na programação para tapar os dois ?buracos? diários.

A TV Globo irá exibir uma segunda edição do ?Jornal Hoje? (à tarde) e do ?Jornal Nacional? (à noite), principalmente com reportagens mais ?frias?, sobre comportamento, por exemplo.

A Record leva ao ar, à noite, o seriado ?Seinfeld?. No SBT, novelas mudam de horário: ?Cúmplices de um Regaste? começa às 20h (onde tem segundo turno, às 19h40), e ?Marisol?, às 20h50 (nos outros Estados, às 20h10, continuando após as 21h10).

Na Bandeirantes, o ?Sob Controle? terá dois inícios: às 20h50 e às 21h10. A Rede TV! apresentará resumo da novela ?Betty, a Feia?.

No Estado de São Paulo, serão exibidas as propagandas dos candidatos ao governo, Geraldo Alckmin (PSDB) e José Genoino (PT). Ou seja, mais dez minutos de ?canja? para Serra e Lula.”

***

“Campanha no rádio deve ser mais agressiva”, copyright Folha de S. Paulo, 14/10/02

“A estratégia adotada pelo PT e pelo PSDB no primeiro turno eleitoral de reservar para o programa de rádio as ironias e críticas mais pesadas aos adversários deverá ser reforçada a partir de amanhã.

As duas campanhas estudavam, na semana passada, ampliar o espaço de crítica dos programas.

O PSDB volta com o caricato âncora Tony Show da Paraíba, que não teve ?papas na língua? para alfinetar os adversários de José Serra no primeiro turno.

Quem deverá ter mais espaço na propaganda tucana é o Beto 45, analista político fictício. Interpretado por Ruy Rodrigues, sócio do marqueteiro Nizan Guanaes, o personagem entrava no ar exclusivamente para ataques ácidos. Agora, só com a mira no petista, deve ter mais tempo no ar. O embate virá embalado por um tom popular e bem-humorado.

No caso do PT, a propaganda no rádio deve ter seu conteúdo mais ?casado? com o da TV do que no primeiro turno. Para isso, Duda Mendonça, marqueteiro da campanha petista, decidiu dar à direção do programa de rádio uma sala dentro de sua produtora. Antes, toda a equipe ficava em um estúdio em outro lugar da cidade.

O tom crítico deve subir também. O quadro ?Mudanças Brasil?, usado principalmente para satirizar o governo, foi muito bem avaliado pela coordenação da campanha e deve ganhar espaço. O programa, que terá praticamente o dobro do tempo, deverá estrear novos quadros e um deles pode ser reservado apenas para o confronto com José Serra.”

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