Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Sangue frio e emoção

Por Victor Gentilli em 20/07/1997 na edição 26

Um pedaço de avião explode no ar, abre um rombo na fuselagem e, mesmo assim, não há fogo, não há perda de combustível, não há perda de um único instrumento de comando, a aeronave prossegue sua rota durante infindáveis 12 minutos. Nas condições possíveis, as comissárias conseguem controlar o pânico. Aliás, nestes 12 minutos, pedaços da fuselagem ficam presos na turbina direita. O avião pousa sem problemas. Dos 55 passageiros, 54 sobrevivem. Menos de uma dezena de feridos, nenhum com gravidade. Indispensável especular sobre falha estrutural. Indispensável igualmente destacar méritos estruturais na aeronave.

Este mesmo acidente, há um ano atrás, teria uma cobertura completamente diferente. Os jornais destacariam a morte de um passageiro ejetado a 2.400 metros de altura, dariam voz aos passageiros sobreviventes mostrando que após o pouso não foram retirados da aeronave rapidamente, mostrariam o descaso da companhia no atendimento aos feridos. Mas mostrariam também que o avião seguiu de Suzano até o aeroporto de Congonhas sem grandes problemas e o pouso de emergência foi um sucesso. Os procedimentos de pouso são, como mostrou o Jornal do Brasil, os mais arriscados. Estatísticas mostram que este é o momento em que ocorrem a maioria dos acidentes. Nos doze minutos em que o avião voou com um buraco na fuselagem, o trem de pouso foi acionado – e funcionou; os flaps foram acionados – e funcionaram. Uma série de outros comandos que os não iniciados em aviação desconhecem foram acionados – e todos funcionaram.

Este observador não sabe, porque a imprensa não contou, se o vento estava favorável ou não (pouso e decolagem de aeronaves devem obrigatoriamente ser contra o vento). Os indícios mostram que sim. Com o vento favorável, o pouso em Congonhas foi simples. O procedimento de aproximação não implica fazer curvas fechadas. Se o vento não fosse favorável, o avião teria de fazer aquela curva em baixa altitude que todo passageiro conhece bem, sem buraco na fuselagem. Aliás, somente neste caso valeria a especulação sobre a possibilidade de pouso em Cumbica, aeroporto muito mais próximo de Suzano.

A cobertura do acidente com o vôo 283 da TAM exibiu um certo mal-estar na relação entre a empresa e os jornais, especialmente nos dois primeiros dias. A impressão geral é que todos os jornais e telejornais – raríssimas exceções – estavam com prevenção contra a TAM, pelo fato de ter ocorrido um segundo acidente, pouco mais de oito meses daquele terrível vôo 402.

Pela observação dos jornais e dos telejornais, fica ostensivo que responsabilidade de jornalista – na visão do próprio jornalista – é muito menor do que responsabilidade de dono de companhia aérea e de comandante de avião. É verdade que acidentes jornalísticos não provocam danos tão extensivos, ostensivos e evidentes. Os jornais só são estridentes para o pecado dos outros.

Escrevendo no calor da hora, os jornais exibiram sua emoção e não mantiveram o sangue frio. Atributos que os jornalistas esperam dos comandantes de aeronaves e de companhias aéreas e leitores esperam dos profissionais que produzem os seus jornais.

A TAM, como qualquer instituição, pessoa ou empresa, deve ser responsabilizada pelos seus eventuais erros ou deslizes. Este observatório chamou a atenção, na edição passada, para o fato de que os jornais omitiram o movimento das “viúvas do 402” na cobertura da escolha, pela revista Exame, da TAM como a empresa do ano entre as maiores e melhores. Se os jornais e revistas erraram nesta omissão, nada justifica que não mantivessem o sangue frio ao noticiar este novo acidente.

Até mesmo o competente professor Paulo Sérgio Pinheiro, que vem fazendo um trabalho belíssimo no seu Núcleo de Estudos da Violência, da USP, escorregou, como se pode ver em carta publicada pela Folha de S.Paulo, onde vincula o acidente do 283 com o descaso da empresa diante das “viúvas do 402”.

A maioria dos passageiros do vôo 283 eram capixabas. O avião passou a noite anterior ao acidente em Vitória. Possivelmente, os bancos ejetados foram ocupados por passageiros no vôo anterior. Os dramas humanos dos sobreviventes envolviam pessoas próximas dos capixabas. Muitos eram conhecidos dos jornalistas.

O telejornal Tribuna Notícias, da Rede Tribuna, no dia do acidente, entrevistou ao vivo, pelo celular, um dos sobreviventes. Foi o único.

No dia seguinte, os jornais relataram os dramas dos sobreviventes com o destaque diferenciado que um jornal local precisava dar. Mas a impressão é que os jornais poderiam ir mais fundo.

Ninguém se lembrou de procurar os ocupantes do vôo da véspera.

Mas todos estavam mais preocupados em saber se, já no dia seguinte, o aeroporto estava diferente. Não estava.

Dois dias depois estava, mas os jornais acharam pouco. Tudo indica que semana que vem vai ser tudo esquecido.

Para os jornais, interessa apenas o imediato, imediatamente. Perenidade é coisa para os outros.

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