Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ISRAEL vs. SÍRIA

Segundas preguiçosas. E Mondays também

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

ISRAEL vs. SÍRIA

Douglas McMillan (*)

É comum ler que os jornais brasileiros saem esquálidos nas segundas-feiras. Equipe menor e dias geralmente quietos contribuem para uma edição meia-bomba, ainda saindo da cama do fim de semana para a agitação dos dias úteis. Precisa acontecer algum fato internacional importante no domingo para mostrar que lá fora é quase igual.

Na segunda-feira (6/10), os jornais todos abriram suas páginas internacionais com a notícia de que Israel atacou a Síria ? "pela primeira vez em 30 anos", fizeram questão de ressaltar. Era uma resposta ao atentado da Jihad Islâmica que matou 20 e tantos em pleno Yom Kippur. Mas faltou uma detalhezinho fundamental: o que diabos foi atacado?

O New York Times soltou um burocrático "Israel bombardeou o que chamou de acampamento terrorista palestino"; o Washington Post se limitou a chamar o lugar de "suposto campo de treinamento". Na região, o Daily Star, do Líbano, não conseguiu nada de primeira mão, assim como o geralmente ótimo israelense Haaretz, que apenas ouviu dizer de fonte em Beirute que o lugar pertencia à Frente Popular de Libertação da Palestina. O Guardian, entre um ressono e um pigarro, tascou aspas na afirmação israelense de que o lugar era uma "base terrorista", e se deu por satisfeito. O renomado correspondente do Independent, Robert Fisk, preferiu dizer que isso ia incendiar a região, tudo por culpa dos Estados Unidos, e deixar o dilema quieto para o correspondente em Israel não resolver.

Tudo isso, é bom ressaltar, aconteceu a apenas duas horas de carro de Beirute e Tel Aviv.

Justiça à AP

O pobre do leitor teve que escolher entre o que afirmava o governo israelense ("era uma base terrorista, provamos isso mostrando um vídeo de oito meses atrás de uma TV iraniana que não mostra muita coisa"), o que garantiam os terroristas da Jihad Islâmica ("não temos bases na Síria") e o que o governo sírio dizia ("era um campo de refugiados palestinos"). Escolha difícil, sob todos os ângulos. Como se revoltar com mais uma do governo israelense sem informação? Como defendê-lo? Como julgar o que foi dito no Conselho de Segurança da ONU, no mesmo dia, ou por Bush, na segunda-feira?

Não houve uma boa alma capaz de pegar um carro, cruzar a fronteira e ver que peste de lugar era esse, já que não dá para ser correspondente internacional dentro da Síria? Menos que isso: a UNRWA, agência da ONU que cuida dos palestinos, e o Alto Comissariado para Refugiados têm prédios enormes em Beirute, cheios de fontes que provavelmente sabem de memória se a poeirenta localidade de Ein Saheb abriga bin ladens, refugiados ou cabritos. É impossível alguém no Líbano não conhecer pelo menos 10 sírios e acabar chegando à informação. Não é nenhum lugar secreto, guardado por cães. As pessoas vão fazer piquenique nessa encosta. Ou iam, agora que chove míssil por lá.

Finalmente, justiça seja feita: a Associated Press produziu reportagem detalhada sobre o que era o local. Esteve no lugar, fez fotos, conversou com gente. Provou, basicamente, que não é impossível fazer jornalismo aos domingos. O que nem é muito.

(*) Jornalista

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A reportagem da AP

Um close do local atingido

Uma foto que mostra o prédio pequeno, cercado de montanhas

Uma visão geral do lugar. Pouco provável que seja um campo de refugiados

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