Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > A intenção era olhar pelo buraco da fechadura, voyeurismo no melhor estilo Casa dos Artistas, para embarcar no cotidiano de uma relação conjugal entre duas mulheres onde o "homem" é mãe de um filho de 8 anos e nunca teve papas na língua para confidenciar suas experiências como "macho".

Semanários entram firme no voyeurismo de verão

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

CÁSSIA ELLER NA
CASA DOS ARTISTAS

A temporada de retrospectos e balanços do ano ainda não havia acabado e começou outra ? a da irresponsabilidade estival. Com um intervalo de três dias, morre numa clínica do Rio, onde fora internada às pressas, a roqueira famosa, homossexual e, numa penitenciária de São Paulo, onde aguardava julgamento, de infecção generalizada, um dos bandidos mais célebres da estação ? o seqüestrador de Patrícia Abravanel e de seu pai, Sílvio Santos.

Qual o prato mais apetitoso para os semanários de escândalo?

Funcionou um acoplamento entre preconceitos, morbidez e as leis de marketing premiando a morte da roqueira. Antes de qualquer exame médico-legal conclusivo, jornalões e jornalecos já estavam interpretando a causa mortis e acrescentando por sua conta e risco outro ingrediente explosivo ? suspeita de overdose.

Com a tácita autorização da imprensa diária, nossos desvairados hebdomadários (produzidos em São Paulo) não hesitaram e lançaram-se na produção do primeiro barulho do ano antes mesmo que os termômetros autorizassem o início da saison de leviandades. Por que razão desprezaram a repentina e misteriosa morte do seqüestrador Fernando Dutra Pinto ? que todos sabiam estar marcado para morrer ?, ocorrida a poucos quilômetros das redações, e preferiram explorar a morte também misteriosa, mas a 500 quilômetros de distância, da cantora Cássia Eller?

Roqueira debochada, lésbica assumida e drogada confessa é prato cheio em qualquer época do ano. Mas quando se prenuncia a temporada dos recessos, férias, praias, musas, bundas e carnaval o caso precisa ser devidamente esquentado. Como o couro dos pandeiros.

Não prevaleceu na cobertura a aflição moralista, a preocupação com eventual erro médico ou o legítimo sobressalto com o aumento no consumo de drogas no mundo das artes e da mídia. Ao contrário, nas tabelas e infográficos usados para dar um cunho científico à matéria ressaltou-se a "sensação de prazer", a desinibição ou o relaxamento que oferecem os diferentes tóxicos (Veja, págs. 76-77).

A intenção era olhar pelo buraco da fechadura, voyeurismo no melhor estilo Casa dos Artistas, para embarcar no cotidiano de uma relação conjugal entre duas mulheres onde o "homem" é mãe de um filho de 8 anos e nunca teve papas na língua para confidenciar suas experiências como "macho".

Veja (associada à gravadora do último CD da falecida), com mais recursos para produzir em menos de uma semana (com um réveillon pelo meio) uma grande matéria de capa, deu ao assunto 8 páginas. Com base num laudo preliminar do Instituto Médico Legal, sem contraprovas conclusivas, assume que ela morreu de overdose e estamos conversados. A capa é rigorosamente enganosa: "Drogas ? Mais uma Vítima ? A polícia suspeita que um coquetel de drogas, álcool e remédios matou a cantora que havia dois anos lutava para se livrar da dependência etc. etc."

À estranha morte do seqüestrador no presídio dedicou página e meia. O cara ia morrer mesmo, preferiram a Caras macabra.

Desobrigados de fazer barulho com Cássia Eller (veja abaixo), Época dedicou à sua morte quarto páginas com uma chamada bombástica na capa revivendo a velha ficção da "testemunha-chave". No texto, esta preciosidade em matéria de apuração jornalística:


Analisando os sintomas apresentados por Cássia pouco antes da internação ? como desorientação, dores na cabeça e no estômago ?, seis especialistas consultados por Época acreditam no consumo de álcool como uma possibilidade mais realista que o uso de cocaína.


Quem são estes especialistas não se sabe, quais os elementos utilizados para concluir que não foi cocaína, mas álcool, isso também não foi revelado ao distinto público.

O importante não é o fato, mas a versão ? essa era a regra de ouro do nosso jornalismo político nos anos 50 e 60, durante a vigência do Sindicato da Mentira; essa continua sendo a máxima do nosso jornalismo semanal.

Como sempre, o "hebdô" mais açodado foi IstoÉ. Repetiu a mesma técnica do "embrulha e manda" empregado nos últimos anos para a divulgação de fitas e grampos. Do pai de Cássia, a revista obteve a irresponsável declaração de que não deveria ser descartada a hipótese de homicídio e com esta maluquice armou o velho circo.

Ninguém reparou ? salvo o Estado de S.Paulo ? que a mera divulgação da hipótese significa uma tácita acusação a duas pessoas presumivelmente inocentes que, implicadas num hipotético triângulo amoroso, são imediatamente convertidas em suspeitas ou culpadas.

O que está acontecendo no jornalismo brasileiro é que nada acontece. E ninguém reclama.

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