Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > NA PARADA GAY

Sempre a mesma diversidade

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

FOLHA NA PARADA GAY

Isabel Rebelo Roque (*)

"Diversidade. Foi isso que se viu na 6? edição da Parada do Orgulho Gay, ontem, em São Paulo." Assim começa a matéria da Folha de S.Paulo de 3 de junho (primeira página do caderno Cotidiano) sobre o evento. Só que "diversidade" é o que menos se pode ver nas imagens estampadas na página. Ao centro, a foto maior mostra a velha equação: silhuetas de rapazes sarados + bandeira do arco-íris + é claro, ao fundo, uma das torres da Paulista. Será que já não vimos algo assim na cobertura do ano passado? Em torno dessa imagem ? de uma criatividade abissal ?, uma moldura com diversas poses de drags, a primeira delas parecendo um andróide perdido num set de filmagem.

A essa altura estamos, desesperadamente, procurando a tal diversidade definida no Aurélio ("4. Filos. Multiplicidade de coisas diversas"). Cadê as imagens das principais homenageadas deste ano, as mulheres? Notem que não uso o termo "lésbicas", primeiro porque, não obstante sua origem nobre (Lesbos, a ilha grega), ele não é nada simpático ? para mim, bem-entendido ? do ponto de vista fonético. Segundo, porque se tornou mais do que enfadonho rotular tanto as pessoas. A velha sigla "GLS" (gays, lésbicas e simpatizantes) já não é suficiente. Agora temos "GLBT" (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). Ou seja, o "S" de simpatizantes ? que de resto representam um significativo contingente a engrossar as paradas ? foi para o espaço. E tanto esforço alfabético para quê? Para, ao fim e ao cabo, vermo-nos diante de uma página de jornal que mostra imagens de uma uniformidade assustadora. Além de pôr alguns de nós para pensar no interesse que pode estar por trás dessa talvez deliberada uniformidade no que choca: a visão das drags ? a diferença no seu mais alto grau ?, que nos atira a quilômetros de distância de qualquer possibilidade de identificação.

Onde, nas fotos, estão os "casais de namorados ? homossexuais e heterossexuais ?, pessoas fantasiadas, aposentados, curiosos com máquinas fotográficas e crianças [que] formavam o heterogêneo público de participantes e espectadores"? Só o que podemos ver, no jornal, são as "pessoas fantasiadas", a reforçar a característica carnavalização do evento, que cresce a cada ano.

E a matéria continua, agora reportando que a trilha sonora teve "de Xuxa a Donna Summer, passando pela música eletrônica". Sempre me deu tratos à bola a fórmula "de ?pontinhos? a ?pontinhos?". O que exatamente existe nesse imenso vácuo entre Xuxa e Donna Summer, "passando" por música eletrônica? Jobim? Village People? Gershwin? Zezé di Camargo e Luciano? Oh, desespero!

E prossegue: "As lésbicas, homenageadas desta edição [da parada], foram o destaque da festa". Sem comentários…

Mais adiante, a equipe (formada por três jornalistas) demonstra um desconhecimento algo preocupante do que tem aparecido na mídia sobre assuntos relacionados ao tema da parada. Ao relatar as vaias recebidas pela apresentadora Luciana Gimenez, o recurso utilizado é o velho diz-que: "Segundo Roberto de Jesus [presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT], ela teria humilhado lésbicas em seu programa ?Superpop?, na Rede TV!". Ora, a esta altura do campeonato até a Sacha, filha da Xuxa, já deve estar sabendo do incidente envolvendo um casal de mulheres que foi submetido a horripilantes constrangimentos no dito programa. [ver remissão abaixo] A coisa gerou até um processo movido pelas ofendidas. A expressão "teria humilhado lésbicas" deixa um incômodo rastro de incerteza, de coisa alguma. Mais uma vez nos pomos, alguns de nós, a pensar: desinformação pura e simples ou…?

Alhos, bugalhos e nicotina

E, para terminar, a informação "tranqüilizadora": "Um show do grupo ?As Frenéticas? encerrou a parada, na praça da República (centro). Não houve confusão, mas policiais tiveram de conter casais ?mais empolgados? no final do evento". O que, exatamente, a equipe quer dizer com "mais empolgados"? Mais empolgados beijando-se? Mais empolgados desnudando-se mutuamente? Mais empolgados praticando felattio em praça pública? Nós, que lemos a Folha e que não vimos a parada, ficamos sem saber. E, não se engane, leitor, trata-se de uma questão fundamental, de caráter ético, e não moral. Porque, se se trata de casais homossexuais "mais empolgados", que se sentem no direito de fazer sexo em público, eles estão cometendo atentado ao pudor ? tanto quanto estariam casais heterossexuais. Mas, se a dita empolgação se limita a uma mera e compreensível troca de beijos na boca, por que a necessidade de contenção pela polícia? Ah, entendi… Então quer dizer que, nos limites da "passarela", ainda que sob o olhar de aposentados e crianças, tudo bem. Afinal, é-carnaval-não-me-diga-mais-quem-é-você. Mas, fora e depois dali, tudo volta à normalidade da discriminação, da repulsa, da exclusão.

Aliás, o relato de um amigo que participou da parada é bem exemplificativo. Ao dirigir-se ao McDonald?s da Barão de Itapetininga, deparou com a reprovação e o mal-estar estampados nos rostos dos freqüentadores porque, em uma das mesas, havia um casal de homens recém-chegados da parada se beijando.

Que tipo de conquista obtém um evento como a parada do orgulho gay? Um dia de façamos-de-conta-que-vocês-têm-os-mesmos-direitos-que-nós-a-externar-a-afetividade? O que acontece depois que a música pára e a polícia entra em estado de alerta, ainda que com certa complacência? Matérias como a da Folha não acrescentam nada a essa discussão social que vai muito além das paradas e seus carros alegóricos. Não dão margem ? nem querem dar ? a qualquer reflexão mais profunda. O que é pior, acabam por reforçar visões enviesadas do que seja praticar respeito ao outro, como a do leitor Wellington Farias, que escreveu na última edição do Observatório, defendendo-se da ofensa de Boris Casoy aos fumantes: "Veja só: prefiro ser fumante a ser homossexual que não fuma. Mas nem por isso desrespeito os homossexuais. Respeito a todos e não ouso chamá-los de burro" [remissão abaixo].

Conscientemente ou não, ao se misturarem alhos com bugalhos e nicotina com opção sexual, ficou lavrado o desrespeito.

(*) Editora de livros didáticos

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