Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > DUAS MEDIDAS

Senador ou camaleão?

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

DUAS MEDIDAS

José Antonio Palhano (*)

O senador Almeida Lima (PDT-SE) é um fenômeno. Conseguiu emplacar duas das mais importantes e críveis colunas políticas da imprensa nacional navegando numa ambigüidade de fazer inveja à política do PT pós-poder.

E isto tudo em pleno domingão (26/10) do Globo. Aos fatos:

Para Tereza Cruvinel, o homem bem faz por merecer o epíteto, no caso altamente desmerecedor das suas funções parlamentares, de Rolando Lero, o inesquecível personagem do recém-falecido ator Rogério Cardoso, que, segundo ela, ganhou dos próprios pares. Tereza é taxativa: "Tem senador que não sabe o lugar em que foi posto pelo povo". Andou desperdiçando o aurífero tempo dos seus pares apenas para esnobar uma frente de trabalho para dar emprego a nordestinos sem renda (sic).

Folheie-se o mesmíssimo Globo do domingão e lá está, no alto da coluna de Elio Gaspari, o nosso homem de Aracaju. Inimaginável paradoxo, e em centimetragem digna de um latifúndio jornalístico, o nobre senador é defendido com unhas e dentes ? coisa rara de acontecer naquele espaço, de praxe ocupado justamente por cobranças, interpelações e denúncias dirigidas à classe política nacional. Segundo Gaspari, ele foi vítima de inaudita truculência do líder do governo na casa, Tião Viana (PT-AC).

Bem diferente de um Ronaldo Lero da vida, Almeida Lima fez da tribuna cabeludíssimas e audiovisuais denúncias contra o prefeito petista de Aracaju, Marcelo Deda. Resumindo, o outrora severo e moralista deputado Deda teria torrado 462 mil reais em serviços de corte de grama e jardinagem em 23 postos de saúde da cidade, bagatela correspondente a 3,5% do que a prefeitura recebe mensalmente para cuidar da saúde da patuléia (sic).

Encontro de contas

Como não dá nem para pensar em fazer pouco, falar mal ou duvidar de Tereza Cruvinel ou de Elio Gaspari, sobra-nos uma monumental encrenca interpretativa: quem é, afinal, este senador Almeida Lima? Uma esfinge da caatinga, só agora revelada ao distinto público graças à ofuscante ribalta do proscênio senatorial? Uma assombração política, debochada e exemplarmente gozadora, baixada em plenário para curtir com a cara dos ilustres e sisudos coleguinhas? Ou um agente da CIA, ali infiltrado pelo impensável hominídeo George Bush, incomodado que anda com nossos atrevimentos diplomáticos, na torpe e imperialista intenção de desmoralizar nossa tenra democracia perante o planeta globalizado?

Observe-se que este nosso cavalar engasgamento cresce em gravidade na proporção direta do prestígio das duas colunas citadas. De onde somos obrigados a rever alguns dos nossos conceitos a respeito do Senado. Pelo jeito, dali emanam muitos mais mistérios do que ousa nossa vã imaginação. Ou, muitíssimo pior ainda, os senhores senadores alcançaram um tal grau de adaptação à atribulada e arriscada vida que levam que acabaram por atingir a suprema e inviolável instância, sonho dourado da classe, a partir da qual a dissimulação plena os absolve antecipadamente de todo e qualquer julgamento por parte do distinto público externo (aí incluída a imprensa especializada), revogadas as disposições em contrário.

Como num passe de mágica, e em tempo recorde, teriam decifrado (ou delegado uma procuração a quem de direito) o código genético dos camaleões e assumido suas funções biológicas, de defesa por excelência. Assim, doravante turbinam uma grandeza suas já potentes imunidades parlamentares, de tal maneira que se torna absolutamente impossível acusá-los ou mesmo produzir qualquer juízo de valor a seu respeito.

Brincadeiras à parte, tanto O Globo como nós leitores, e mais ainda Tereza e Gaspari, estamos a merecer um oportuno e indispensável encontro de contas relativo ao episódio, pelo menos em favor do bom jornalismo. Afinal, trata-se de apurar se os feitos do senador sergipano em plenário são relevantes ? circunstância a partir da qual o prefeito de Aracaju tem muito que se explicar ? ou se, ao contrário, o distinto faz por merecer o apelido de Rolando Lero, a ponto mesmo de incorporá-lo ao seu nome de batismo.

(*) Jornalista e médico

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