Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Ser informado é ser livre

Por lgarcia em 05/07/1998 na edição 48

Dois institutos fundamentais para a construção da cidadania se estabelecem em um terreno perigoso e conflitante, principalmente quando seu tutor é o governo brasileiro. Dignos de se comportarem como verdadeiros parceiros – aproveitando a onda das fusões no mercado financeiro – em prol de uma geração mais informada e esclarecida, capaz de reflexão e ação, preferem não perceber os malefícios que causam um ao outro. Eis o terreno em que a televisão e a educação criam profundas raízes.

Basta percorrer por alguns minutos, qualquer dia da semana, a programação dos canais abertos. É um espetáculo de aberrações, racismo explícito, apologia a pornografia e manifestações do ditador “mercado”. O pavor de todo telespectador minimamente consciente são os domingos. Com exceção da culturalíssima e tão pouco expressiva TV Cultura, as demais emissoras perseguem incessantemente os formatos mais banais e medíocres, nos quais é expressamente proibido qualquer sinal de vida inteligente e uso de raciocínio. O ato de pensar pode conduzir o telespectador à troca imediata de canal, diria Silvio Santos (24 horas no ar aos domingos, revezando com seu discípulo Gugu), agraciado com o título honoris causa nessa categoria.

Paralelamente, como se comporta o governo? Na posição de conivente, pois é do governo a autoridade de concessão dos canais abertos. Estes por sua vez têm por responsabilidade garantir o exercício da cidadania através de programações de cunho informativo e entretenimento de qualidade. O conceito entretenimento pode ser traduzido por mediocridade, quando personalidades sem qualquer preparo intelectual e até mesmo psicológico assumem posições de verdadeiros “xerifes” da classe excluída.

Cito mais um fenômeno da banalidade da TV brasileira, Ratinho, do programa Ratinho Livre da Rede Record, um tipo que enriquece a cada dia graças ao país subdesenvolvido em que se apresenta. O nível educacional é cada vez tão baixo que sequer permite ao povo discernir quanto às funções, autoridades e responsabilidades dos órgãos governamentais. É a tradução que podemos fazer do programa do Ratinho, um programa mascarado em esfera pública em que os representantes mais ilustres da classe excluída reclamam seus direitos, manifestam suas angústias e sonhos de cidadãos e até expõem de maneira agressiva problemas sexuais, como se o apresentador tivesse poder legítimo para resolvê-los.

Será que o sucesso desse tipo de programa pode ser atribuído à abrupta redução do discernimento e da educação no Brasil? Toda a estrutura do programa – índice de audiência e abrangência – poderiam funcionar como sérios canais de reivindicação popular, se o enfoque das discussões fossem os problemas que o Brasil necessita perceber com urgência, como a ausência de representatividade política no país, a fragilidade econômica ao qual o trabalhador brasileiro está exposto, e por aí seguimos. Quem assiste às novelas e aos anúncios dos patrocinadores da Copa se esquece que o Brasil lidera o ranking dos países mais miseráveis do planeta. Segundo dados da ONU, a América Latina detém 40% da miséria mundial. Entenda-se miséria como impossibilidade de se alimentar todos os dias.

O ministro da Educação Paulo Renato orgulha-se do salto qualitativo do ensino básico e médio. Uma escola primária de Campinas, interior de São Paulo, levou alunos da sétima série (minha irmã de 11 anos inclusive) para uma visita ao Memorial da América Latina e ao Museu do Ipiranga em São Paulo. O trânsito não permitiu que o passeio fosse totalmente cumprido. Ao invés de optarem por parques como o Ibirapuera, o Masp ou os inúmeros centros culturais da cidade, a professora preferiu levar os alunos para conhecerem o Shopping Eldorado. Se a ausência de discernimento está presente nos responsáveis diretos pela educação das futuras gerações, o que esperar do governo, nosso tutor por escolha popular?

Se é válida a nova teoria televisiva que diz ser o público quem determina a programação, é tarde, mais ainda vale a pena socorrer o brasileiro da alienante overdose televisiva, que também cria dependência, acaba com qualquer capacidade de raciocínio e provoca alterações no comportamento. Vigaristas como Xuxa, Ratinho, Faustão, Gugu, Silvio Santos e tantos outros aplicam diariamente golpes baixos no telespectador, fazem fortunas às custas da ignorância do povo brasileiro sob o manto de um demagogo instituto intitulado “liberdade de expressão”, a máscara do “mercado”. Se há realmente liberdade de expressão, por que o Congresso pretende extrair da controversa Lei de Impressa o delito de opinião aos jornalistas? É o retrocesso da democracia. Por décadas o governo se empenha em anular a capacidade de reflexão por intermédio de um ensino insuficiente e de sua conivência e consentimento junto aos seus pares no Congresso Nacional. Quantos deputados, prefeitos e vereadores são proprietários de veículos de comunicação? Quantos usufruem de seus veículos para darem pelo menos o último sopro de vida à sufocada cidadania?

O governo FHC contrai empréstimos junto ao Banco Mundial para financiar a educação. Em contrapartida, o temível financista traça projetos e métodos educacionais que o dependente Brasil assume (por lógica) adotar. Pode estar certo, leitor, são projetos futuristas, visando preparar gerações a aceitarem estrangeiras imposições ideológicas, sem questionamentos.

Por isso não me custa repetir, ser informado é ser livre. Quem detém informação tem capacidade de raciocínio, discernimento e poder de escolha. É através da informação que se resgata a cidadania. O cidadão escolhe, participa e opina e esses verbos não podem ser praticados na primeira pessoa, na pessoa do cidadão, se o mesmo não raciocina. Através dos atuais padrões da televisão e da educação isso não será possível. Reage Brasil!

Cibele Buoro, jornalista e mestranda em Ciência Política da Unicamp


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