Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Serra, o genérico

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

ELEIÇÕES 2002

Gilson Caroni Filho (*)

Nestes tempos em que a análise política se divorciou dos seus conceitos clássicos, a leitura de proeminentes pensadores dos anos 60/70 pode ser de grande valia para quem quer entender a conjuntura atual. Definir o perfil ideológico dos principais atores e as clivagens político-partidárias que nos orientam em ano eleitoral é tarefa detetivesca, tal a fluidez de conceitos, categorias e discursos. Requer da mídia especializada atenção redobrada tanto para informar com isenção como para prestar os serviços de encomenda de sempre.

Com o lema "nada contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade", o ministro José Serra anunciou, em cerimônia restrita a tucanos e alguns jornalistas, sua candidatura à Presidência da República. Será o candidato da social-democracia brasileira ? e aí começa o problema. Há um partido social-democrata no Brasil? Tal formação guarda alguma relação com suas congêneres européias? A resposta parece negativa independentemente da angulação que escolhamos.

No plano econômico, os filhos do cisma entre socialistas e comunistas praticavam um modelo no qual, embora a acumulação fosse realizada pela iniciativa privada, em sociedade ou não com empresas públicas, uma tributação progressiva gravava parte da mais-valia acumulada, direcionando-a para setores pouco rentáveis ao grande capital: educação, saúde pública, transportes, saneamento e previdência. Não esquecendo que a fração dominante da burguesia naquele período era a produtiva, bem distinta da configuração rentista atual.

No campo das políticas públicas havia a forte existência de subsídio aos desempregados, apoio ao trabalhador aposentado e o freio institucional ao livre fluxo do capital. Por ameaçar a coesão social com sérios riscos de anomia, a lógica do lucro era submetida a uma triagem prevista na institucionalidade do regime político.

Até aqui, alguma semelhança com o modelo brasileiro? Aqueles que, em Bad-Godesberg (1959), romperam em definitivo com a luta de classes assinariam um modelo que, segundo o Mapa da Fome elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, leva à indigência 29% da população? Coonestariam a regressividade tributária que onera mais pessoas físicas que grandes corporações e bancos? Com seu apreço a Keynes, levariam oito anos para dar ao trabalhador um rendimento médio de R$ 350, enquanto decuplicam os lucros do setor financeiro? A versão tupiniquim teve nesses indicadores as premissas para o êxito de sua estabilidade macroeconômica. Bernstein se revira no túmulo. De tanto rir.

Mas não paremos por aqui. Segundo Wanderley Guilherme dos Santos, conceituado cientista político, "não há social-democracia sem a afirmação de um parlamento forte, soberano, capaz de efetivamente legislar" (A proposta social democrata, org. Hélio Jaguaribe, José Olympio, Rio, 1989). Nesse ponto podemos trabalhar com a memória recente: sai fortalecida a instância representativa que vê o destino de emendas orçamentárias ser decidido pelas conveniências da aprovação de uma emenda constitucional de interesse do Executivo? E o abuso de medidas provisórias? E a inexistência de relações estreitas entre movimento social e representação partidária?

São algumas indagações que a imprensa deve fazer ante a afoiteza de aceitar um rótulo fácil. Sem contar o açodamento ortográfico. No Jornal do Brasil de 20/1, a palavra era grafada ora como sendo "socialdemocrata", ora social-democrata. O irônico é que talvez a forma não-hifenizada dê mais conta do fenômeno por ser tão inexistente quanto ele.

Mesmo princípio ativo

Francisco Weffort, atual ministro da Cultura, na mesma publicação se pronunciava sobre o tema: "Quando se fala de social-democracia fala-se de um padrão histórico determinado de organização político-partidária e de regime político, numa certa época, num determinado período histórico na Europa (…) em que os partidos social-democratas chegaram ao poder apoiado em organizações sindicais de trabalhadores". Alguém reconhece aqui o PSDB ou mesmo a realidade em que ele surge? Em suma, a social-democracia no Brasil guardaria a mesma licenciosidade que o liberalismo. São idéias fora do lugar.

Ora, como definir então a candidatura José Serra? Chamá-la social-democrata como quer o colunismo chapa-branca de plantão é prova de desconhecimento histórico. A "direita da esquerda" alemã do século passado não guarda qualquer relação com a esquerda da direita da base governista. Há quem vá afirmar que a social-democracia contemporâacirc;nea reza a mesma cartilha do tucanato. Matou o welfare state e foi ao cinema com o neoliberalismo. Tudo bem. Tal constatação só reforçaria que a tentativa de clonagem foi exitosa, mas o clone brasileiro, tal como a ovelha Dolly, já nasceu envelhecido.

Populista Serra também não seria. Quer pelo modelo que representa, quer pela total ausência de carisma que o faça prescindir de instâncias de intermediação. Esse termo é outro de uso indiscriminado pela grande imprensa sem exceção. Qualquer governante que não se submeta aos ditames da globalização financeira é imediatamente tachado de populista. Chegaram a adotar o termo "populismo cambial", o que nos levou a visualizar uma unidade monetária a incendiar multidões com seu fetiche reluzente. Interessante não haver adjetivação aos "bem-apreciados" pelas agências de classificação de risco. Teríamos grosso modo dois tipos de político: os populistas e os pró-rentistas. É apenas uma sugestão aos editores que, invertendo Pirandello, mais parecem autores à procura de um personagem que não existe nestas plagas: um social-democrata.

Se Roseana, a bela, nos foi apresentada como a representante de uma direita renovada, com possibilidades de ser percebida como cerveja de marca conhecida, por que não dar a Serra, o antipático, um lugar no espectro político? Como diferenciação ideológica não pode ser estabelecida por passado distante ou idiossincrasias que se prestam apenas ao anedótico, sugerimos definir a candidatura Serra a partir de sua área de atuação: o Ministério da Saúde. Assim, Roseana seria o nome comercial do projeto continuísta da direita, ao passo que Serra seria o "genérico" da mesma empreitada. Talvez haja pequenas diferenças de gosto e formato, mas o princípio ativo é o mesmo e os efeitos colaterais também. Fica como sugestão de pauta.

(*) Professor de Sociologia da Facha-Rio

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