Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > HISTÓRIAS DA DITADURA

Setenta dias tensos e intensos

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

HISTÓRIAS DA DITADURA

Victor Gentilli



Cale-se ? a saga de Vanucchi Leme, a USP como aldeia gaulesa, o show proibido de Gilberto Gil, de Caio Túlio Costa, 350pp., Editora A Girafa, São Paulo, 2003; <
www.agirafa.com.br
>; R$ 43,00



Os setenta dias foram tensos e intensos. A ditadura estava no auge do seu prestígio e a oposição, enfraquecida e sem alternativas. A luta armada, que segmentos da esquerda defenderam para combater o regime, praticamente já se encerrara (com a exceção da guerrilha do Araguaia, organizada pelo PCdoB), mas as organizações que a patrocinaram, frágeis e diminutas, ainda tentavam se manter.

Caio Túlio Costa narra, com detalhes e emoção, o período que se inicia com a prisão seguida de morte de Alexandre Vanucchi Leme, estudante da Geologia da USP, e segue até o show de Gilberto Gil na Escola Politécnica, setenta dias depois.

Alexandre Vanucchi era militante da ALN (Ação Libertadora Nacional), mas tinha vida legal e atuava do precário movimento estudantil da época. Não participou de nenhuma ação armada. A ALN foi criada por Carlos Marighella, como dissidência do Partido Comunista Brasileiro, e buscou organização própria em 1967. Foi parceira da Dissidência da Guanabara no seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, em setembro de 1969. Marighela foi morto em dezembro de 1969 e Joaquim Câmara Ferreira (conhecido como Toledo), preso e assassinado em 1970. Mas a organização manteve-se, debilitada, até 1974.

Diálogo com estudantes

A morte de Alexandre Vanuchi, como bem percebeu Caio Túlio, provocou, de fato, a primeira manifestação pública de massas contra o regime. O então cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, celebrou a missa de sétimo dia do militante. Cerca de três mil estudantes participaram da celebração na Catedral da Sé, no centro de São Paulo. Outros milhares ficaram presos ou foram detidos nas inúmeras blitzes realizadas pela repressão para impedir o acesso à catedral.

Ao contrário de todos os demais presos e assassinados políticos que participaram da luta armada, Alexandre tinha vida legal, fora o primeiro colocado no vestibular para Geologia, era estimado e querido pelos colegas. O regime, como de costume com todas as mortes de militantes do período, forjou um "atropelamento" e enterrou o estudante como indigente. Pouco mais de dois anos depois, em 25 de outubro de 1975, morria em circunstâncias semelhantes o jornalista Vladimir Herzog. Com Herzog, forjou-se um "suicídio" e igualmente houve um ato que mobilizou multidões na Catedral da Sé. Como Herzog era de origem judaica, não houve missa, mas um culto ecumênico.

Também estudante, mas com vida clandestina, Ronaldo Mouth Queiroz foi preso e assassinado poucas semanas após a morte de Alexandre Vanucchi Leme. Quase um ano e meio antes de sua prisão e morte, Mouth Queiroz abandonou o curso de Geologia e optou pela militância integral na ALN. Não era mais aluno da USP. Era ex-aluno. Os estudantes nada puderam fazer para denunciar seu assassinato. Denunciar a prisão de um estudante era possível. Um "terrorista" não podia ter sua prisão denunciada até porque vivia clandestinamente.

Uma das grandes virtudes do livro de Caio Túlio é a recuperação dos últimos movimentos em vida de Ronaldo Mouth e o que se pôde saber de sua prisão e morte.

O livro Cale-se é de leitura apaixonada e fluente. A leitura é fácil mas a compreensão talvez seja difícil para quem não tenha maiores informações sobre o período. Caio Túlio sequer se preocupa em lembrar que o ditador de plantão em 1973 era o general Emílio Garrastazu Médici, ou em esclarecer detalhes sobre como as coisas funcionavam naquela ditadura, no Brasil do início dos anos 1970.

Este observador leu de fio a pavio com gosto e tristeza, mas na posição privilegiada de quem esteve na catedral, emocionou-se com Sérgio Ricardo cantando Calabouço, viu e viveu toda a tensão do período e também esteve no show de Gil, embora a memória há anos registrasse que o espetáculo fora no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina e no início da tarde. Memórias falham. O show foi no auditório da Poli e no final da tarde.

Mas memórias registram bem. As músicas apresentadas, a primeira vez que a canção Cálice foi cantada em público (fora censurada dias antes, quando do evento Phono 73, uma tentativa de reviver os velhos festivais de música dos finais dos anos 1960), até mesmo os comentários de Gil sobre sua própria música e o diálogo com os estudantes. Momentos intensos permanecem na memória.

Contribuição à historiografia

Caio Túlio Costa escreve com paixão. E, para quem viveu aqueles dias, revivê-los num livro não poderia ser algo desapaixonado. Assim, embora acerte ao apontar a missa como a primeira manifestação popular de combate ao regime, certamente exagera ao considerar aqueles 70 dias como o momento de inflexão em que a oposição abandona definitivamente a luta armada e opta pela luta aberta e legal. Poucos meses depois daqueles setenta dias, Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho fariam a memorável campanha pela anticandidatura oposicionista que daria vigor ao único partido de oposição, o MDB. Uma análise minuciosa do período mostrará que, mesmo os setores chamados de "autênticos" do então MDB, questionavam a opção de uma anticandidatura ? que entendiam como uma forma de "legitimar a ditadura". Já em 1974, quase dois anos depois, ainda havia no movimento estudantil quem batalhasse pelo voto nulo, rejeitando a opção do voto no MDB.

Antes de Caio Túlio, é o próprio autor de Cale-se quem aponta, o brasilianista Kenneth P. Serbin, em seu livro Diálogos na sombra", editado em 2001, já apontara a missa de Alexandre Vanucchi como a primeira grande manifestação de massa contra a ditadura. Todos os demais registros históricos indicam o culto ecumênico por Vladimir Herzog, em outubro em 1975, como a primeira manifestação.

O autor de Cale-se recorda que, ainda em 1972, os estudantes da USP realizam um plebiscito sobre o ensino pago nas universidades públicas. Noventa e cinco por cento dos estudantes votam contra. Caio Túlio vai registrar o voto do então ministro da Educação Jarbas Passarinho quando da edição do Ato Institucional n? 5, em dezembro de 1968, mas deixa de referir as declarações de Passarinho sobre o plebiscito: "Aquela movimento contra o ensino pago (…) não era mais do que uma aliança entre os ricos e os comunistas". Os ricos eram os que tinham acesso ao ensino superior público da Universidade de São Paulo e os comunistas eram os subversivos que desejavam derrubar o regime. As anotações, aqui, são da memória do observador, mas certamente há quem tenha documentação e os próprios jornais da época certamente reproduziram as declarações do ministro.

É verdade que o grupo que esteve à frente da organização da missa na Catedral da Sé e do show de Gilberto Gil já tinham uma outra visão das alternativas de combate à ditadura, mas daí a ver, naquele período, "o" ponto de inflexão entre a luta armada e ação de massas vai uma boa distância.

De toda forma, a obra recupera com precisão e reconstrói aqueles dramáticos setenta dias. Caio Túlio consegue recuperar a fita do show de Gil e ouve depoimentos de quase todos os estudantes que estiveram à frente daqueles acontecimentos.

A história contemporânea do Brasil, registre-se, tem sido contada por jornalistas. Fernando Moraes, Paulo Markun, Mario Sergio Conti, Villas Boas Correa, Carlos Chagas, William Waack, agora Caio Túlio Costa, e tantos outros têm oferecido uma contribuição inestimável à historiografia brasileira.

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