Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > MULHERES APAIXONADAS

Shakespeare desapaixonado

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

MULHERES APAIXONADAS

Andréa Lima (*)

Na história da telenovela brasileira nunca a questão da homossexualidade foi abordada de modo mais "aberto", mais "explícito", sem muitas reticências, sem muitas entrelinhas, sem aquele "toque sutil" dos(as) autores(as) que colocam o tema na tela da TV, mas de forma velada, nas surdinas, em cenas secundárias, impregnadas de interrogações e evasivas. Eis o mérito de Manoel Carlos, que "deixou" as personagens Clara e Rafaela seguirem seu romance na trama, sem precisar "assassinar", "explodir" um shopping com as amantes dentro ou inventar um amor entre Clara e Rodrigo.

Mas faltava algo… O autor colocou no ar diversos diálogos conflitantes entre as garotas lésbicas e a mãe de Clara, e ainda ataques homofóbicos de Paulinha, que não só agrediam as personagens como milhares de mulheres que se amam, neste país, e vivem em permanente estado de coerção, violência e desrespeito por causa da sua orientação sexual.

Na sexta-feira (10/10), no último "ato" da novela, Manoel Carlos banalizou o mérito de ter incluído o tema da homossexualidade em sua trama, deixando-se levar por uma característica peculiar de seu trabalho: ele "ouve" a opinião pública e a mídia. Aproveitando as cenas de Romeu e Julieta, falseou a realidade, entronizou o preconceito, coroou a homofobia. O Shakespeare de Manoel Carlos foi frio, pálido, insosso, quase invisível. Uma das maiores histórias de amor da literatura universal foi usada para mascarar uma necessidade do indivíduo, da alma e de algo tão próprio da obra do gênio inglês: o amor.

Público "sensível"

O beijo sem gosto foi dado para aliviar a consciência do autor da novela, que se preocupou em não "chocar" a opinião pública, que não queria ver duas mulheres apaixonadas se beijando intensamente. Manoel Carlos preferiu vestir Rafaela de Romeu. Numa confusão entre novela, literatura e realidade, o Romeu pôde beijar a Julieta. É assim que funciona no imaginário popular, uma realidade claudicante, uma analogia malfeita entre o Romeu shakespeariano e o Romeu de Manoel Carlos. O público vidrado na novela viu o "beijo" como parte do espetáculo, como parte da "peça" dotada de doçura e do lado amargo da tragédia. O público, entre seu preconceito e o delírio causado pela ficção, torceu pelo beijo do Romeu falseado, masculino, estereotipado, e a Julieta sem emoção, desapaixonada.

O "selinho" de Clara e Rafaela nos pareceu medíocre, esvaziado de paixão, do calor dos corpos e da efervescência dos(as) amantes. Manoel Carlos fez obscurecer a lascívia, o desejo, a entrega de duas mulheres que se amam para não "chocar" o público. Leila Diniz, quando exibiu sua gravidez nas praias cariocas, também chocou o público; Anita Garibaldi chocava toda uma sociedade; Chiquinha Gonzaga fazia estremecer os palácios do conservadorismo.

Voltando à ficção, na novela Torre de Babel as atrizes Cristiane Torloni e Silvia Pfeifer foram "assassinadas" pelo autor do folhetim, pois estavam "chocando" o público com seu amor, sua independência financeira e o sucesso profissional que ambas compartilhavam. Isso é demais para um público tão "sensível"! Esse mesmo público não se chocou quando o adestrador de cães, homossexual assumido, foi espancado em São Paulo até a morte por uma horda de carecas do ABC; o público não se indigna com as cenas da guerra imperialista de Bush Júnior, que já dizimou milhares de civis iraquianos; o público da teledramaturgia brasileira não se aterroriza com a fome no mundo, com o déficit habitacional no país, que permite que mais de seis milhões de brasileiros(as) morem nas ruas em submoradias e vivam nos territórios da "ilegalidade" nos centros urbanos.

Amor concreto

Chocados(as) ficamos quando nos deparamos com o preconceito velado, maquiado pelo pó da desfaçatez, do cinismo, da hipocrisia. A metade de alguma coisa em nada nos interessa… Os conflitos mostrados entre as duas personagens homossexuais da novela e seus suaves momentos de ternura não nos satisfazem, pois faltaram metades. Faltou o beijo apaixonado; faltou dizer ao povo brasileiro que a luta pelo amor não é só um mero caso do folhetim diário das novelas, mas uma questão de direito, respeito, justiça, dignidade, liberdade. A questão é política, afetiva e social, e isso não pode ser selado por um beijo sem gosto, fugaz, estereotipado, irreal, como se fizesse parte apenas de uma cena da novela, de uma tragédia shakespeariana, e não da vida real de mulheres que amam outras mulheres e homens que amam outros homens.

Séculos atrás, Oscar Wilde viveu, falou e escreveu sobre o "amor que não ousa dizer o nome". Sobre os escombros do preconceito e da homofobia tão sólida, pérfida e inquisidora, temos a responsabilidade de dizer o nome, mostrar a cara, lutar por uma sociabilidade mais humana, anunciar que o amor é um direito e vivê-lo é libertário. Precisamos pichar os muros, (re)escrever a história, recuperar a memória. Hoje se faz necessário dizermos os nomes, conjugarmos os verbos amar, beijar e ser feliz: Safo, Elizabeth Bishop, Vange Leonel, Marias, Fernandas, Andréas, Adrianas, Silvias, Júlias, Virginia Wolf, Cássia Eller.

São tantas mulheres… São tantos nomes… Mas o que importa um nome, um sobrenome? E como no romance trágico de Shakespeare o nome é o que menos importa, tanto faz ser Montecchio, tanto faz ser Capuleto, ser Maria ou João, ser Clara ou Rafaela, o que vale é o amor em todas as suas múltiplas manifestações, formas, sentimentos e maneiras de fazê-lo concreto.

Mar e Lua

As mulheres e os homens que lutam dia-a-dia contra os preconceitos e as discriminações sexuais merecem mais do que um beijo beirando o nada, indesejável e apático. A imagem na "sociedade do espetáculo, do horror e da banalização da violência" é imprescindível. A TV não vive sem imagens; os olhares aligeirados de um tempo "incomum e desumano" só captam o que é mostrado na quadratura da televisão que se mistura com o nosso cotidiano: simulacros da realidade, imagens distorcidas, inventadas, forjadas. A vida se resume nos instantes de cada programa; notícias, imagens fugazes. A prosa e a poesia diminutas, desajustadas e desfocadas das câmeras são diluídas de vez pelo aparente.

Assim foi o Shakespeare criado por Manoel Carlos no último capítulo de Mulheres apaixonadas, porque o Shakespeare que conhecemos é o autor do encanto, de sonetos mágicos, do que é belo e vil, do que é trágico e romântico, do que une e separa, de tudo que é humano:


"Amor não é amor se quando encontra obstáculos se altera ou se vacila ao mínimo temor… Amor não teme o tempo, muito embora seu alfanje não poupe a mocidade; amor não se transforma de hora em hora, antes se afirma para eternidade [Sonnets (1609), Soneto CXVI. Traduzido por Barbara Heliodora].


Ao Romeu e Julieta de Manoel Carlos preferimos o romance trágico de Mar e Lua, cantado por um poeta brasileiro:


"Amavam o amor proibido pois hoje é sabido todo mundo conta, que uma andava tonta, grávida de Lua e outra andava nua ávida de Mar".


(*) Mestra em Serviço Social, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Ética ? Gepe/UFPE e integrante do Grupo em Defesa da Diversidade Afetivo-Sexual (Divas), Pernambuco

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