Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > Quando um jornal depois de noticiar durante alguns dias os desdobramentos de um caso coloca uma tabuleta "saiba o que aconteceu", está confessando abertamente que nos dias anteriores não conseguiu fazer saber o que aconteceu

Sistema Totêmico e Sistema Mediático, uma provocação

Por lgarcia em 20/10/2000 na edição 100

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. Muito menos consolidar uma narrativa coesa e compreensível. O jornal de hoje só pode ser entendido amanhã quando forem publicados os desmentidos ou correções.

A massa de informações desordenadas e descontextualizadas despejada diariamente cria uma sensação que nada tem a ver com o Conhecimento. É indigestão, fastio. Confirma-se exatamente aquilo que disse Peter Gay – as instituições que funcionam para proteger a sobrevivência da humanidade também geram o seu mal-estar.

Este é o banquete totêmico do sistema mediático.

Imagino que muitos a esta altura gostariam de fazer uma provocação à minha provocação: Freud em seu tempo seria um crítico da imprensa?

O desafio é legítimo e necessário. Nada indica que Freud tenha sido o que hoje se chama de media critic. Ao contrário. Como todo vienense culto, Freud foi um leitor habitual do Neue Freie Presse. E este jornal representou ao longo de algumas décadas o liberalismo político ao qual Freud aderia integralmente quando deixava o plano das subversões filosóficas para aterrisar nas realidades cotidianas. A grande imprensa vienense e também a alemã, por estarem comprometidas com o liberalismo, foram o alvo preferido do proto-fascista Georg Schönerer e Freud não poderia aceitar qualquer uma das proposições deste precursor de Hitler. Mesmo porque as bandeiras de Schönerer estavam embebidas em concepções antidemocráticas e antisemitas que feriam tanto o seu senso moral como a sua própria identidade.

Mas se Freud não pode ser enquadrado como um crítico da mídia, pode-se dizer que Karl Kraus, o grande satirista e crítico foi, sim, um encarniçado cruzado contra a mídia burguesa e os seus valores. Kraus é hoje considerado um dos patriarcas da crítica da mídia. E Freud, apesar de alvejado pela irreverência e pelo veneno do seu contemporâneo, era leitor de Karl Kraus, como aliás toda Viena intelectualizada. Portanto, pode-se inferir que Freud não desconheceu os arrasadores ataques que Kraus desferia contra os comportamentos, costumes, cultura, repressões e os veículos que os comunicavam. Mas àquele tempo não existia um sistema mediático, a comunicação de massa, o complexo entrelaçado de diferentes meios que converteu-se em representação da sociedade moderna.

A imprensa, especialmente a imprensa culta, não incomodava Freud simplesmente porque ainda não ganhara escala e não adquirira o poder que posteriormente a deformaria.

Quando Freud remeteu um exemplar da Interpretação dos Sonhos ao jornalista Theodor Herzl do Neue Freie Presse, confiava que no jornal fosse publicado algum comentário que ajudasse a difundir uma obra que, dois anos depois de publicada, tinha vendido pouco mais de 100 exemplares.

Freud tentava tirar partido do lado positivo da imprensa, do seu poder educativo. Três décadas depois, com o estrondoso sucesso do livro de Stefan Zweig, A Cura pelo Espírito, que incluía o seu perfil biográfico e se constituíra na sua primeira grande exposição pública, Freud muda a sua ótica e entonação. Reclamou das simplificações, reclamou da companhia em que Zweig o metera (Mesmer e Mary Baker-Eddy) e reclamou sobretudo do título que para ele era enganador.

Não consegui encontrar manifestações específicas na obra ou correspondência freudiana sobre imprensa, jornalismo ou algo que se relacione com o que hoje chamamos mídia.

Mas o livro de Stefan Zweig sobre Freud motivou uma candente manifestação sobre um gênero literário, na verdade sobre um gênero que está a meio caminho entre jornalismo e a literatura. Refiro-me à biografia. E a biografia hoje incorpora e simboliza os diversos vícios da mídia.

Ao tempo de Freud a biografia ainda estava embebida nas fontes clássicas e ainda não chegara ao paroxismo bisbilhoteiro do biografismo contemporâneo, herdeiro de um dos vetores do sistema mediático – a invasão da privacidade e o sensacionalismo.

Escaldado pela experiência do livro de Stefan Zweig, em 1936, quando outro Zweig – este Arnold, seu amigo, ex-paciente e correspondente – consultou-o sobre a possibilidade de autorizar uma investigação com o fim de escrever uma biografia. Freud recusa de forma categórica, quase brutal. Disse o seguinte:

Aquele que empreende uma biografia está comprometido com mentiras, dissimulação, hipocrisia, disfarces, bajulação… A verdade biográfica não existe… [Carta de Freud a Arnold Zweig, citada por Jones, Ernest III_.].

E o próprio Freud veio a confirmá-lo quando escreveu o "retrato psicológico" do ex-presidente Woodrow Wilson. Entre as dezenas de relatos que Freud deixou de seus analisandos, nenhum deles mereceu tamanha e confessada aversão. Woodrow Wilson visto hoje à luz da história tem uma dimensão diferente daquela que Freud, como biógrafo, nos legou.

Pergunto: as desfigurações que o biografado sofre nas mãos do biógrafo tem a ver com a biografia enquanto gênero? Ou resultam dos preconceitos do biógrafo enquanto membro de uma tribo vocacionada para fabricar totens, tabus, superstições e ilusões?

O retrato do presidente Wilson é uma das obras de Freud menos discutidas. E talvez por isso serve para as minhas provocações finais.

Se, como queria Freud, não existe uma verdade biográfica, existirá a verdade jornalística? Os vícios estruturais da biografia não reproduzem as falências do sistema que alimenta o biografismo e multiplica os pré-julgamentos e preconceitos?

Respostas na próxima edição.

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