Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ROBERTO MARINHO (1904-2003)

Síndrome da imortalidade não-adquirida

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

ROBERTO MARINHO (1904-2003)

Paulo Roberto de Figueiredo (*)

Caso alguém me perguntasse sobre quanto tempo de vida ainda me resta, muito provavelmente responderia que me resta apenas o momento, pois o futuro, mesmo o mais próximo que seja ? o milésimo de segundo seguinte ? pertence ao Senhor dos Mundos. E a única condição para se morrer é estar vivo: começa-se a morrer assim que se nasce. Tudo fica por conta do "princípio supremo", perante o qual nossa vontade é insignificante. E essas bobagens de consultar videntes, horóscopos, ocultismos etc… são totalmente inúteis.

Nem mesmo o Sr. Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos, com todo aquele poder econômico e social, difere dos outros mortais quando a questão é o direito à imortalidade, ou, pelo menos, saber o momento de ter certeza de seu demérito.

Esta sociedade dos homens, idólatra do "bezerro de ouro", por vezes se esquece de sua natureza e do que o momento seguinte lhe reserva, assusta-se quando um poderoso (para a nossa condição terrena, bem-explicado) adoece ou morre. É o que se chama de culto à personalidade e ao bem material. Certa feita, o Sr. Roberto Marinho, não menos "poderoso" que o Sr. Abravanel, ao pronunciar discurso em solenidade na Globo, deixou escapar uma frase que poderia demonstrar excesso de vaidade. Disse que estava adequando sua rede para funcionar sem ele, "caso um dia viesse a lhe faltar". Caso um dia? O mesmo destino que aguarda qualquer animal que habita a Terra aguarda a todos nós, pode ser neste minuto, amanhã, semana que vem ou daqui a vários anos ? independentemente da importância que a sociedade nos atribua.

Há dias, criou-se grande bulha em torno das declarações de Silvio Santos de que teria "apenas" mais seis anos de vida. Nenhum dos nossos valorosos interlocutores do mundo social questionou, ou questionou-se, sobre a certeza das declarações de Abravanel. Ainda bem que o próprio Abravanel desmentiu as declarações, dizendo tratar-se de brincadeira. Pontos para Abravanel, que sabe o que é brincadeira; caso contrário, muitos tolos ficariam angustiados, esperando completar os seis anos para assistirem à morte de Silvio Santos (se vivessem até lá…). Quem há de saber? Até os mais fervorosos ateus e materialistas sabem: "Tudo o que é sólido se desmancha no ar", disse Karl Marx.

Na partida, o jornalista Marinho, que, segundo dizem, tinha senso de humor, deve ter chegado ao além cantando: "Silvio Santos vem ai…"

Para encerrar, indico, aos que prestam culto à personalidade, a leitura, no Livro de Eclesiastes, do capítulo 3, versículos 18 ao 20, e do capitulo 8, versículo 8. Aliás, leiam toda a Bíblia, mesmo dessujeito de qualquer religião. Faz muito bem.

(*) Dirigente sindical

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