Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Síndrome de jornalismo apressado

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

AS PALAVRAS

Deonísio da Silva (*)

Pico de la Mirandola deveria ser o patrono de certos jornalistas. O famoso humanista italiano jactava-se de poder discutir todo o conhecimento universal. Adotou a divisa latina De omni re scibili (de todas as coisas sabíveis). O irônico Voltaire acrescentou como deboche: et quibusdam aliis (e mais algumas).

Picolo tinha apenas 23 anos quando foi a Roma defender 900 teses tiradas de sábios greco-latinos, hebraicos e árabes que tratavam dos mais diversos temas. Sua tese de número 11 tem um título extenso, como então era de praxe: Ad omnis scibilis investigationem et intellectionem (pesquisa e entendimento de tudo o que é sabível). Talvez por ter falecido aos 28 anos e pelo esforço inaudito de fazer tudo confluir para o cristianismo, o pobre Picolo foi tratado com exagerada complacência pelos contemporâneos.

Voltaire seria um bom ouvidor para qualquer mídia. Certamente começaria pela crítica aos jornais que adotaram a função por terem preferido um termo sueco para designá-la, seguido de incompreensíveis deformações. Assim, ombusdman, palavra sueca, não sofreu flexão de gênero (o feminino é ombudsquivina) quando uma mulher exerceu a função na Folha de S.Paulo. O pior é que já derivou para ombudswoman, uma salada com molho inglês. Inexplicável, a não ser pelo macaquismo de tudo imitar. Afinal, tivemos ouvidores quase sempre, e em 1968 a prefeitura de Curitiba mantinha um ouvidor com esse nome.

As palavras, ferramentas de quem escreve ? ferramentas e armas ? merecem mais cuidado da parte de quem as utiliza, sobretudo profissionalmente, como é o caso. Depois dos atentados de 11 de setembro, o vocabulário ocidental precisou lidar às pressas com novas palavras oriundas de línguas e dialetos desconhecidos.

Mais uma vez Pico de la Mirandola fez escola. E o inglês, o latim do império, serviu de mestre para os bajuladores do inglês da mídia americana, que não tem o cuidado, por exemplo, de uma BBC, e trata as palavras como sanduíches, grafando de diversas maneiras os mesmos nomes árabes de uma mesma pessoa. No portal do FBI, procura-se Usama (sic) bin Laden.

Um médico árabe me disse que provavelmente o Laden é variação dialetal de "ladan", coalhada. E como o árabe tem parentescos remotos com o hebraico, "Osama" pode ser variação dialetal primitiva do hebraico hosh’ ah-nna, transformado em hosanna no grego, forma adotada pelo latim eclesiástico. Seria o caso de pesquisar o ofício dos ancestrais de Osama bin Laden, vez que "bin" equivale ao nosso "de" ou "da", como o alemão tem "von". Que os humoristas criem as paráfrases, mas o mote está aí. Osama bin Laden pode ter a ver com a expressão "viva o filho do Coalhada!"

Manchas pretas

Nossos correspondentes em tempo de guerra, salvo heróicas exceções, cobrem a guerra a partir de janelas de prédios ? como direi ? ? "próximos" ao teatro de operações. Exemplo: se os bombardeios ocorrem no Afeganistão, as transmissões podem ser feitas a partir de Londres e Nova York, como estamos vendo.

E o que mostram? O que as TVs dos outros mostraram. Isto quando não lêem jornais diante das câmeras, prática aliás comum nessas ocasiões. Que pequenas rádios no interior do Brasil façam a mesma coisa, lendo Estadão e Folha, O Globo e Jornal do Brasil, é compreensível, mas de gigantes como as nossas redes podemos e devemos esperar mais.

Podiam começar dando às coisas os nomes que as coisas têm, sem essa irritante subordinação ao inglês. A rede de televisão do Catar virou "Al Jazeera". A partícula "al" em árabe equivale ao nosso artigo definido. Teriam alguma razão se escrevessem "aljazira" por costume, vez que o português é cheio de aleivosias com as outras línguas que o influenciaram, e até o Corão, a Bíblia dos muçulmanos, transformou-se em Alcorão para nosotros.

A tradução de "al-jazira" é "a ilha", mas ilha e península não têm no árabe a fatal distinção que existe no português. Afinal, os árabes ficaram sete séculos na península ibérica, dominando Espanha e Portugal, mas aquele território não é cercado de água por todos os lados, e por isso não é uma ilha, é uma península, isto é, quase uma ilha, como se depreende de sua origem latina "paene", quase, e "insula", ilha. O prefixo "paene" está presente também em penúltimo, quase último.

Outro exemplo que vem resultando em complicações é antraz, do grego anthrakos, genitivo de anthrax. O caso genitivo é grande fornecedor de famílias de palavras vindas de compostos gregos e latinos no português. Como, porém, antraz nos veio pelo latim e o caso que serviu de origem foi o dativo anthrace, a grafia adotada foi antraz. A mídia tem grande responsabilidade nessas horas. Talvez tivesse sido melhor adotar carbúnculo, como a doença infecciosa é popularmente conhecida no meio rural. A origem do significado de antraz e carbúnculo é carvão. Provavelmente as manifestações da doença, manchas pretas na pele, influenciaram a denominação.

Viver e escrever

A revista Superinteressante destoou dos seguidores de Pico de la Mirandola e foi aos livros. A edição de outubro (n? 169) traz (antraz, não traz) na capa a foto de Osama bin Laden encimando a chamada principal: "Como raciocinam os terroristas: o que a ciência diz sobre a mente de quem pratica o terror". No mesmo número, um glossário de palavras árabes que infestam o Ocidente de uns anos para cá, como intifada, sunita, xiita, taleban, hamas, hezbollah e outras.

Esses incrementos do nosso léxico levam-nos a mais uma ilusão perdida. E este modesto colunista do Observatório, leitor voraz das Mil e uma noites (ou Mil noites e uma, como queria Jorge Luís Borges), registra com pesar que o califa e o grão-vizir não estão podendo resolver os graves problemas que estão pondo em risco, não os seus povos, mas a Humanidade inteira. Talvez estejamos escrevendo às vésperas da Grande Noite que vai descer sobre amigos e inimigos, e que a Terra enfim esteja chegando a final feliz para ela: livrar-se do homem.

Para a nossa geração, uma desilusão adicional. Tememos a bomba atômica e seus horrores, mas hoje corremos o risco de sermos derrotados e mortos por uma bactéria, contra a qual nem os mais sofisticados gênios da Guerra nas Estrelas podem nos ajudar.

Aladim, Aladim, "onde estás que não respondes? Em que estrelas tu te escondes, embuçado nos céus"? Aladim, dá-me tua lâmpada. À semelhança de Castro Alves, embora prosaico porque prosador e não poeta, também eu quero entender o mundo em que vivemos. E principalmente, ao contrário dos suicidas e dos autores das guerras químicas e bacteriológicas, também não quero morrer, nem matar. É tão bom viver e escrever!

(*) Escritor e professor da Universidade Federal de São Carlos, doutor em Letras pela USP; escreve regularmente nas revistas Época e Caras, e em <www.eptv.com.br>. Seus livros mais recentes são o romance Os Guerreiros do Campo e De Onde Vêm as Palavras

    
                     

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