Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Síndrome de "Painel" ataca Valor

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

IMPRENSA & GOVERNO LULA

Na quinta coluna da segunda página de Opinião do jornal Valor Econômico, uma tripa de pirulitos chamada "Diário" não costuma ter cacife para competir pela atenção do leitor com os artigos, que a confinam por cima e pelo lado, de autores do calibre da economista Eliana Cardoso e do colunista Martin Wolf, do Financial Times.

Mas na quarta-feira 11/12, não foi bem assim. Quem tenha batido o olho na notinha de abertura da seção, intitulada "Escolha precificada", provavelmente sentiu um sobressalto e pode ter imaginado que o sóbrio e respeitável jornal de economia havia sido contagiado pela irresponsabilidade típica das colunas de fofocas políticas, que acolhem intrigas e desinformações, plantadas para puxar o tapete alheio. Como muitas vezes é o caso do "Painel" que a Folha de S.Paulo publica todo dia na página A4 ? e que nunca deixará a seção de cartas do jornal morrer por falta de protestos e contestações.

Em 13 linhas, a tal da nota prevê que "a confirmação do médico Antônio Palocci no Ministério da Fazenda [feita por Lula, no dia anterior, em Washington] não deverá provocar reações dos mercados hoje". (Reações houve, seja lá o que as tenha provocado: a Bolsa subiu 2,73% e o dólar caiu 0,92%.)

O textículo explica em seguida que, de um lado, a indicação era mais do que esperada, e, de outro, "isso não significa que Palocci tem a confiança dos mercados e dos banqueiros". E manda bala: "Da mesma forma como há elogios rasgados à atuação do médico à frente da transição, começam a aparecer avaliações pouco abonadoras de sua administração em Ribeirão Preto (SP)".

"Começam a aparecer" onde, como, na boca de quem? E que significa o eufemismo "pouco abonadoras"? Que Palocci roubou ou deixou que roubassem os cofres municipais? Que fez belos negócios "por fora", valendo-se de sua condição de prefeito?

Parem as máquinas: se está diante de algo que pode ser nitroglicerina pura ? para o ministro, o seu partido, o seu presidente e, por tabela, para o país ? ou pode ser uma sórdida tentativa de passar uma rasteira naquele que despontou como uma das duas figuras que dominam o noticiário da transição de governo (a outra é o futuro ministro da Casa Civil, José Dirceu).

Um jornal sério, dirigido por gente séria, como é o caso do Valor, desconcerta o seu leitorado ao abrir espaço para insinuações desse calibre, deixar as coisas por isso mesmo e tocar em frente.

Se não tem como identificar a(s) fonte(s) das alegadas avaliações, nem como informar, apesar disso, o que estaria desabonando o ex-prefeito que virou ministro ? com direito a perfís elogiosos no Wall Street Journal, New York Times e Financial Times, entre outras Bíblias dos investidores internacionais, sem falar no encantamento manifestado pelo atual titular, Pedro Malan ?, o lugar dessa "notícia" pode ser qualquer um, salvo a página impressa de um periódico de qualidade. A menos que este não se importe de virar, eventualmente, cúmplice de uma armação.

Isso é tão óbvio que ter de escrevê-lo chega a ser constrangedor.

Adiante, porém. Já que a tirada denuncista passou pelo meio das pernas de quem deveria ser o goleiro do pedaço ? se é que essa figura ainda existe nas editorias da imprensa diária onde cada coluna assinada parece um feudo acima e além de qualquer controle ?, o Valor está devendo de duas, uma: a confirmação ou a retratação.

Numa ponta: "Como antecipou a coluna ?Diário? deste jornal, em 11 de dezembro, com base em fontes do mercado financeiro, o futuro ministro da Fazenda Antônio Palocci, quando prefeito de Ribeirão Preto, cometeu graves atos ilícitos, que custaram R$… aos cofres municipais. As irregularidades ? e as respectivas provas ? são as seguintes:…".

Ou, na outra: "Não têm fundamento, segundo apurou o Valor, as ?avaliações pouco abonadoras? sobre a administração Antônio Palocci, em Ribeirão Preto, mencionadas pela coluna ?Diário?, deste jornal, em 11 de dezembro, com base em fontes não identificadas do mercado financeiro. O Valor pede desculpas ao senhor Palocci e a seus leitores."

Não importa que o texto que atira em Palocci tenha saído num canto de página, numa seção que não deve ser propriamente uma campeã de audiência. Enquanto o Valor não der uma daquelas duas coisas ? ou uma terceira, em algum ponto entre os dois extremos ? serão pouco abonadoras as avaliações que se poderão fazer sobre o rigor com que o jornal administra material informativo contendo comentários que põem sob suspeita a conduta ética de uma autoridade pública que, além do mais, se tornou o centro das atenções da mídia.

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