Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

São Paulo em 370 anos de solidão

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

ENTREVISTA / ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Leticia Nunes


A capital da solidão ? uma história de São Paulo das origens a 1900, de Roberto Pompeu de Toledo, 558 pp., Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2003


Às vésperas de completar 450 anos, São Paulo ganha uma definição inusitada: a de capital da solidão. O título do livro escrito pelo jornalista Roberto Pompeu de Toledo causa estranheza à primeira vista: São Paulo, com todo seu caos urbano, não lembra em nada a palavra solidão.

Mas a São Paulo da obra de Toledo é outra. A capital da solidão ? uma história de São Paulo das origens a 1900 trata dos primórdios daquela que é hoje a maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo. Convidado pela editora Objetiva para realizar o projeto, o jornalista levou quatro anos para concretizá-lo. O resultado são mais de 500 páginas que contam uma história de 370 anos da megalópole paulista.

Dividido em três partes, o livro começa em 1530 e tem seu ponto final em 1900. A primeira parte, intitulada "Começo", relata a fundação da Vila de São Paulo de Piratininga, com a chegada dos jesuítas. A segunda, "Incertezas", fala da época em que a cidade buscava uma identidade e não sabia muito bem qual era sua vocação. A terceira e última parte é "Arrancada", que conta o período de impulso para o começo do crescimento de São Paulo, na metade do século 19, com a chegada do café ao Oeste Paulista.

O jornalista, colunista da revista Veja, fez uma vasta pesquisa ? em mais de uma centena de livros ? para reconstituir a realidade e as dificuldades dos três primeiros séculos de existência de São Paulo. A metrópole de hoje em nada lembra seu nascimento como vila de difícil acesso, escondida pela Serra do Mar, distante do litoral e fora do alcance dos navios portugueses. Com este perfil, São Paulo era isolada, melancólica e solitária: a capital da solidão.

O paulistano Roberto Pompeu de Toledo fala sobre seu livro e sobre sua cidade, hoje nada solitária, na entrevista a seguir.

***

A capital da solidão é um livro grandioso, bem preparado e fruto de um longo trabalho. Por que aceitou escrevê-lo? A proposta inicial da editora já era tão ambiciosa?

Roberto Pompeu de Toledo ? O convite da Objetiva coincidiu com dois grandes interesses meus: a história e as cidades. Daí ter concordado com ele. Quanto ao grau de ambição que a editora punha no projeto, não sei responder ? isso não foi especificado. Tenho a impressão de que o livro adquiriu porte maior do que o esperado, mas é só uma impressão.

Como foi a experiência de quatro anos de dedicação para contar parte da história da sua cidade?

R.P.T. ? Foi como costumam ser os trabalhos que se alongam no tempo: uma alternância de períodos de entusiasmo com períodos de desânimo. Às vezes eu achava que estava produzindo o melhor livro, outras que estava saindo uma porcaria. Às vezes ia em frente com a audácia e o destemor dos bravos (ou dos ingênuos). Outras, me perguntava o que tinha na cabeça ao me enfiar em tal trabalho.

Como organizou e definiu que tipo de pesquisa iria fazer para escrever uma história que abrange 370 anos?

R.P.T. ? Foi como naquele verso do Antonio Machado: "El camino se hace ao caminar". Não parei para definir o tipo de pesquisa que deveria ser feito, nem o tipo de organização que deveria ter o livro, nem nada semelhante. As coisas simplesmente foram sendo feitas. O que posso dizer de talvez mais significativo, sob o aspecto de organização, é que não fiz toda a pesquisa para só então começar a escrever. Eu ia pesquisando e escrevendo, por períodos.

Por que a São Paulo de antigamente era a mais brasileira das cidades?

R.P.T. ? Porque foi a primeira experiência de criar uma cidade interior adentro e a primeira em que foi determinante a miscigenação entre alguns (poucos) europeus e muitos índios (ou índias, melhor dizendo). Ao longo da costa, em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Olinda, a colonização mais ou menos que copiava os padrões portugueses. Transplantava-se uma civilização. Já em São Paulo, meio desgarrada da metrópole, foi-se obrigado a criar um tipo novo de sociedade, que eu, com alguma liberdade, chamei de "brasileira". Em São Paulo deu-se uma junção do europeu com o índio como não se deu nas cidades litorâneas. Isso se refletia na arquitetura, na comida, nos costumes. Falava-se tupi, nas casas, em São Paulo. Também chamei São Paulo de a mais brasileira das cidades, nesses primeiros anos, para contrastar com o que virou depois ? a mais estrangeira das cidades brasileiras. Em 1893, sob o influxo da imigração, São Paulo tinha mais estrangeiros que brasileiros ? 54% contra 46% dos habitantes.

A história do livro termina em 1900. Como foi escolhido o ponto final? Há planos de uma continuação da história até os dias de hoje?

R.P.T. ? Eu quis contar a história da São Paulo que antecedeu a metrópole. 1900 me convinha. É um ano redondo, e ao mesmo tempo situa-se num período em que a cidade está deixando de ser o vilarejo perdido em cima da serra para virar um centro importante, que aqui e ali já dava sinais de que ia virar uma metrópole. Quanto à continuação, deixo para outro. Eu não vou fazê-la.

Se São Paulo em seus primórdios era a capital da solidão, hoje ela seria a capital de quê?

R.P.T. ? Não sei. A capital da confusão, talvez? Que tal? Confusão urbanística, confusão social… São Paulo hoje resume a grande barafunda brasileira.

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