Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > ECOS DA CAMPANHA

Sob o manto da TFP

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

ECOS DA CAMPANHA

Maria Jandyra Cavalcanti Cunha e Maria Francisca Pinheiro Coelho (*)

O estandarte vermelho da TFP ? bastião impenitente do anticomunismo ? ressurgiu, empunhado pelo ex-esquerdista e ex-exilado José Serra.

A provecta Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, fundada em 1960 no solo fértil da Guerra Fria, retornou com força no discurso de Serra no segundo turno da eleição presidencial. "A família é um valor. O casamento é um passo muito importante", pontificou o candidato governista na TV, falando para as famílias brasileiras que aguardavam pacientes sua novela do horário nobre da televisão na noite de sábado. 18/10. O programa ressuscitou conhecidos motes da TFP: a exaltação à família monogâmica indissolúvel e a defesa da sagrada propriedade privada. Nos tempos agitados que precederam o golpe de 1964 e durante os anos de autoritarismo que se seguiram, a TFP se notabilizou por seus ataques à voga do socialismo e do comunismo, considerados "elementos perturbadores da ordem natural das coisas".

Serra está certo ao dizer que "a família é um valor". Mas é bom recordar essa instituição não apenas como reduto de tradição. A família apresenta hoje uma configuração moderna em que têm espaço a liberdade de escolha e a busca à felicidade, valores esses que não são exclusivos da família, mas do indivíduo. A família não pode ser usada de forma opressora e reacionária para impedir mudanças no campo da política. Principalmente mudanças que consolidem os laços de civilidade e de solidariedade entre os indivíduos, sejam elas no espaço da casa ou da rua.

A alusão ao temor do socialismo no jingle que embala o programa político do PSDB está na "onda vermelha" que ameaça o nacionalismo verde-amarelo. A "onda vermelha", para quem não lembra, foi uma expressão maldosa maquinada pela CIA para desestabilizar o governo socialista de Salvador Allende, no Chile, o primeiro marxista a chegar ao poder pela força do voto. É justamente esse contexto político do início dos anos 1970 a que se referia Serra quando ele se autodenominava "exilado ao quadrado". O candidato tucano faz questão de lembrar que foi exilado duas vezes: no Brasil em 1964 e no Chile, em 1973. Disse isso no mesmo dia em que acusou Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato da oposição, de ter "duas caras".

Biografia rasgada

Aflito com a publicação das últimas pesquisas que davam a vitória a seu opositor, Serra apelou para um discurso conservador e obsoleto, que em nenhum momento lembra o orador inflamado do histórico comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964, quando João Goulart prometeu "reformas de base", assustando os setores conservadores (a TFP incluída) que o derrubariam do poder 18 dias depois.

O José Serra do imaginário político tem a cara do presidente da União Nacional dos Estudantes que, naquele ano, assinou o Manifesto da UNE, condenando o golpe que estava sendo articulado pelos promotores da "Marcha da Família com Deus pela Liberdade". No segundo turno das eleições presidenciais, Serra insistiu em dizer que tem uma só cara, "mesmo que feia, uma só".

A cara de Serra não é a mesma, mas é feia. No final da campanha, a face que Serra mostrou é a de um político que se permite um discurso belicoso, abençoado por pastores evangélicos e maquiado por louvações religiosas. Neste púlpito, um autêntico evangélico como Anthony Garotinho está à esquerda do ex-esquerdista Serra.

O salmo de Serra lembra o texto de Plínio Correia de Oliveira, fundador da TFP, publicado na Folha de S.Paulo, durante a campanha presidencial de 1989. Nele, como fizera no passado, a TFP garimpava as intenções demoníacas dos núcleos progressistas da Igreja Católica e das forças políticas que apoiavam Lula contra o santo Collor.

Serra, ao contrário de outros ilustres companheiros perseguidos pelo golpe de 1964, parece não ter amadurecido com a dura experiência do revés político e do exílio. Seu discurso integrista lembrava o tom amargo de seus antigos perseguidores, membros da parcela ideologicamente mais atrasada da sociedade brasileira. O raivoso discurso de Serra não admite a idéia do inédito governo de coalizão de classes que propõe a aliança de centro-esquerda de Lula ? uma arquitetura política que o social-democrata desdenha, mas inveja.

Nas eleições de 2002, em carta dirigida aos dois candidatos do segundo turno, a TFP expressou sua "apreensão e temor" diante do futuro político do país. O alerta empoeirado ganhou eco inesperado apenas na fala de Serra, que viu seu discurso terrorista ser rebatido por tucanos mais ilustres e menos assustados como Fernando Henrique Cardoso, Tasso Jereissati e Aécio Neves.

O discurso bolorento do medo e do regressismo, quando o país clama por alegria e por mudança, soou tardio e ultrapassado. Ao se enrolar no estandarte puído da TFP, José Serra rasgou sua biografia de resistência e maculou sua história de luta pela democracia e pelo progresso.

(*) Professoras da Universidade de Brasília (UnB)

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