Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > HÁBITO PERIGOSO

Sob uma montanha de livros

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

HÁBITO PERIGOSO

Ivani Cunha (*)

Fico imaginando o drama do nova-iorquino Patrice Moore, 43 anos, que passou dois dias sob uma montanha de livros, revistas e catálogos que ele estoca em seu apartamento para vender. O que teria feito esse homem, presumivelmente um solteirão, para provocar o acidente? Os jornais disseram apenas que nas quatro paredes de um dos cômodos, do chão até o teto, ficam amontoadas publicações de todos os tipos. Não deram muitos detalhes, mas tudo indica que além dos livros desabou sobre Moore uma estante ou algum móvel que servia de suporte para as obras. Ele não deve ser muito forte, ou teria se desvencilhado dos livros e do móvel sem maiores complicações. No entanto, pode-se considerar também um sortudo, pois não teve sequer um osso esmagado.

Moore deve ter pensado que morreria ali, afogado em textos, fotos e figuras, sem condições de se livrar de tanto peso. Tudo terminou bem porque o zelador do prédio, intrigado com o sumiço do morador, decidiu arrombar a porta do apartamento. Depois os vizinhos chamaram os bombeiros para resgatar o coitado, que estava quase sem voz de tanto gritar por socorro. No hospital, os médicos concluíram que ele teve apenas alguns ferimentos nas pernas e o devolveram sem demora ao seu universo de livros, jornais e revistas.

Teve melhor sorte que os irmãos Collyer, também norte-americanos, que foram encontrados mortos em sua casa no Harlem em 1947, depois que um ficou preso debaixo de uma montanha de papéis e o outro não resistiu à fome.

Os dois casos, que podem ser classificados (ou catalogados) como ossos do ofício, talvez reforcem o argumento de bilhões de pessoas no mundo para ficarem longe de livros, jornais, revistas, cartas, publicações em geral, dispostos em estantes ou não. Refiro-me, inclusive, a inúmeros jornalistas, que muitas vezes não lêem as próprias matérias de sua autoria, o que explica em parte a qualidade dos textos de jornais, revistas, rádio e TV atualmente. Esses profissionais devem imaginar que, se acaso saírem à procura de livros, sempre haverá o risco de uma estante cair sobre eles, e preferem evitar as bibliotecas porque, nunca se sabe, o bibliotecário pode fechar as portas deixando-os presos e entregues às traças durante um fim de semana prolongado por feriado. Sólida estante

Há pessoas que, embora gostem muito dos livros, preferem não ter estante em casa ou no apartamento. Essas não têm medo de as histórias caírem sobre suas cabeças. Preferem apenas evitar a superocupação do espaço, o trabalho de manutenção dos livros em ordem e protegidos dos insetos. Pensam também no constrangimento de, eventualmente, terem de negar uma obra a visitas que costumam esquecer de devolver a publicação, ou a devolvem meses depois com manchas de gordura, páginas rasgadas e outros sinais de maus tratos.

Tenho um amigo que se enquadra no grupo de pessoas avessas à manutenção de biblioteca em casa. Integrante do escasso universo de jornalistas que não passam um dia sem abrir um livro, ele prefere presentear alguém com as obras que acabou de ler. Faz pouco tempo que ele me revelou esse saudável hábito e, desde então, passei a me beneficiar de sua generosidade. Agora sou dono de diversos livros que já foram dele, assinados por autores como Graham Greene, Herman Hesse, Herman Melville e outros.

Minhas novas aquisições estão ao lado de títulos em sua maioria garimpados em sebos, todos dispostos numa sólida estante de aço, dessas que não caem sobre a cabeça do leitor.

(*) Jornalista

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