Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > AMERICANOS FICHADOS

Soberania e profissionalismo

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

AMERICANOS FICHADOS

Ana Maria R. Oliveira (*)

Um interessante debate instaurou-se no país com a prisão do piloto da American Airlines Dale Robbin Hersh que, num gesto obsceno, desacatou a Polícia Federal ao ser identificado no Aeroporto de Cumbica, em São Paulo.

Alguns colunistas (e diversos cidadãos) expressaram sentimentos de indignação, afirmando que a ação do piloto feriu a "alma" nacional e que, por isso, as autoridades brasileiras devem atuar com firmeza em episódios como este. "Já se foi o tempo da escravidão", "afinal, as regras têm que ser iguais para todos", são alguns dos reclames manifestados.

Relembre-se que, nos últimos meses, vários brasileiros receberam tratamento indigno nos Estados Unidos. Foi o caso da médica cardiologista mineira que permaneceu retida várias horas numa sala do aeroporto de Nova Iorque até as autoridades locais, desconfiadas de seu visto, averiguarem a situação. Pior ainda foi o tratamento dispensado a um professor paranaense que, apesar de ter os documentos regulares, foi maltratado pela polícia de imigração, que o algemou.

O que estes fatos têm a dizer?

Na atual realidade internacional, apesar do apregoado discurso sobre a liberalização de fronteiras e o alargamento da prática da democracia, o respeito aos cidadãos e a observância às regras do direito internacional não têm sido cumpridos à risca. Há muitos exemplos à nossa vista. Também, como em séculos passados, prevalece o "domínio" de alguns países sobre os outros, seja na esfera econômico-financeira, na política, seja na militar. No plano dos cidadãos, essa assimetria se reflete em atos como o do piloto americano que, em sua mente, acreditava estar lidando com autoridades de um país subalterno e irrelevante.

Alguns analistas pessimistas dirão: somos, de fato, um país periférico e precisamos agir de acordo com o nosso tamanho. Têm alertado que, se aplicarmos estritamente o princípio da reciprocidade, correremos o risco de perder divisas em turismo, comércio e prestígio político.

Imagem a trabalhar

Estamos, portanto, diante de um dilema. O que fazer?

Uma alternativa parece ser a de se aplicar o princípio da soberania e praticar, em grande medida, ações de profissionalismo.

Como mostram alguns teóricos na matéria, a essência da soberania está em conjugar poder e direito, o que implica muitas vezes um delicado equilíbrio. Tendo em vista o caso analisado, as autoridades brasileiras devem estar bem preparadas para situações que envolvam estrangeiros, conhecendo as normas jurídicas nos diversos casos e aplicando regras como: rigor no cumprimento de nossas leis, implementação de um processo de fiscalização (quando necessário) que cause menores transtornos, diálogo entre as autoridades alfandegárias dos dois países.

Mas não só estas ações serão suficientes. É preciso iniciar um trabalho de comunicação com o objetivo de manter elevada a imagem do país no exterior, voltado a esclarecer a opinião pública americana a respeito da decisão brasileira, com a publicação de artigos na imprensa dos EUA e/ou da convocação de correspondentes para entrevista coletiva em Brasília, de uma campanha a ser patrocinada pelo Ministério do Turismo entre os turistas que queiram visitar o Brasil e os empresários que pretendam fazer investimentos.

Mais do que nunca, a imagem de um país no exterior tem sido um dos pilares fundamentais em sua atuação e consecução de objetivos e, em função dos constantes desafios colocados na cena internacional, deve ser permanentemente "construída". Atuando dessa maneira, o Brasil estará melhor habilitado a lidar num cenário complexo. Vale o ensinamento: é melhor começar já do que repetir a velha tônica de que somos periféricos e temos que enxergar o nosso tamanho.

(*) Jornalista, professora na PUC Minas

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