Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ANALFABETISMO CIENTÍFICO

Sobre lagartas e proteínas

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

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ANALFABETISMO CIENTÍFICO

Bruno Dorfman Buys

Os entomologistas de plantão podem ligar para o Procon. No Globo Online de 12 de fevereiro de 2001 constava na segunda notícia, sobre a liberação no ambiente de uma mariposa transgênica, a seguinte frase: "A mariposa transgênica é de uma espécie parasitada pelas larvas da lagarta que ataca o algodão".

O primeiro problema com esta frase é que lagartas já são, elas próprias, a larva de uma borboleta ou mariposa. Larvas de lagartas não existem. O segundo problema é que, se há uma lagarta que ataca o algodão (muito provavelmente há várias espécies diferentes) ela não parasita mariposa nenhuma. A descoberta de uma mesma espécie de inseto cuja larva consiga alimentar-se de um vegetal e parasitar um outro animal renderia o "prêmio Nobel de Entomologia" ao seu autor.

A maioria dos insetos que conhecemos na natureza possuem formas larvais que transformam-se em adultos em certa fase da vida: assim é com borboletas, mariposas, besouros, moscas e abelhas. Borboletas e mariposas possuem larvas conhecidas como lagartas, ou "taturanas", que podem assumir formas muito vivas e bonitas. Algumas queimam fortemente a pele humana quando tocadas. Lagartas de mariposas e borboletas possuem ainda três pares de "patas", através dos quais se movimentam. Moscas têm larvas mais semelhantes a vermes, pequenas minhocas do tamanho de um grão de arroz, sem nenhuma pata, e deslocam-se em movimentos ondulados. Larvas de abelhas passam toda a vida dentro da colméia, nos pequenos compartimentos hexagonais que formam o favo, alimentando-se de mel e outras guloseimas. É mais difícil vê-las.

O problema com a notícia do Globo é que não foram apuradas informações básicas sobre biologia. O parágrafo acima é entomologia básica mesmo no mais inicial dos cursos de entomologia. O que significa dizer que o veículo não apurou nem consultou nenhum especialista da área, talvez por pressa de publicar ou por falta de fontes adequadas.

O jornalismo científico brasileiro, tão criticado por ser ainda cheio de problemas e de desinformação, poderia melhorar alguns hábitos, tão arraigados: a consulta a especialistas é necessária e deve acontecer mesmo quando o jornalista está seguro do assunto. A grande maioria dos tópicos em ciência moderna é tão complexa que sempre haverá nuances e detalhes a serem levados em conta. E não é à toa que cientistas passam tanto tempo (meses e até mesmo anos) revisando seus trabalhos antes de publicar. Mesmo para os especialistas o crescimento do conhecimento em cada pequena área de estudo é imenso, e é impossível ? embora sempre tentemos ? estar atualizado em tudo.

Se é que nos serve de consolo, e é por isso que os dois assuntos foram agrupados, o New York Times de 11 de fevereiro de 2001 diz que "Cada gene produz uma proteína ? esta é a função básica de qualquer célula" ("Each gene makes one protein — this is the basic function of any cell").

Mesmo a primeira parte da frase "Cada gene faz uma proteína" é, para dizer pouco, simplista. Já há, na biologia moderna, versões mais sofisticadas para isso. Depois, a função básica de qualquer célula não tem a ver com esta idéia "um gene ? uma proteína". Dentro de qualquer célula, mesmo a mais simples de todas, existem centenas ou milhares de genes diferentes, todos funcionando simultaneamente, sendo "ligados" e "desligados" para exercerem suas funções de "mapas" de proteínas.

Senso crítico… onde?

Mais interessante ainda é a análise do artigo inteiro do New York Times. Diz, resumidamente, que dois grupos de pesquisadores anunciarão que uma análise do conteúdo genético humano aponta para a existência de entre 30 a 40 mil genes na nossa espécie. Este número, tantas vezes chutado desde o início do Projeto Genoma Humano, deve estar em seu momento de maior desvalorização: já chegou a ser estimado em 100 a 120 mil genes. Caiu para cerca de 80 e agora está em 40 mil.

Segundo Craig Venter, presidente da famosa Celera Genomics, "a maior parte da biologia humana acontece no nível das proteínas, e não do DNA". Ora, então todo o Projeto Genoma Humano que envolveu o presidente Bill Clinton diretamente, na regulamentação da questão das patentes, que gerou brigas entre as grandes revistas internacionais de ciência, chegou ao fim e produziu este resultado? O resultado de que não estávamos procurando no lugar certo?

É claro que não é isso. E é claro que, durante todo o processo, faltou jornalismo interpretativo. Não por culpa dos veículos, talvez. O assunto é realmente espinhoso, difícil e muito recente. Mas a frase dita pelo presidente da Celera, de que o que importa são proteínas, recai novamente no caso do nosso curso básico de entomologia.

Que as proteínas possuem papel ativo e defintivo dentro de uma célula é conteúdo do currículo básico de qualquer curso de biologia: se pudéssemos comparar a célula com um canteiro de obras, o DNA seria o mapa do prédio. Não faz nada sozinho, a não ser que alguém olhe para ele e vá trabalhar. E quem são os trabalhadores? As proteínas e os RNA?s.

A declaração de Venter está diretamente ligada à questão das patentes e da forma como as empresas vão apropriar-se deste conhecimento (e ter lucro). Não é à toa que, no fim do artigo, um subtítulo diz: "Patente de genes é irrelevante". Mas é irrelevante um projeto do tamanho do genoma humano e que agora que chega ao fim? O produto comercial disto é irrelevante? Onde estavam os jornalistas científicos para perguntarem no começo do projeto: por que seqüenciar todo o genoma humano se grandes áreas do DNA não codificam nenhuma proteína? Porque seqüenciar todo o genoma humano se não teremos certeza de poder esclarecer doenças genéticas? Não é de hoje que se sabe que a imensa maioria das doenças genéticas (e das características de uma pessoa, afinal uma doença genética é uma característica como qualquer outra) é causada por mais de um gene atuando em conjunto, e não simplesmente um só. Algo está sendo escondido do público geral pelos mega-empresários da área científica e o jornalismo talvez não tenha poder interpretativo suficiente para entender o jogo de interesses que governa esta área oligopolizada por empresas farmacêuticas.

No fim das contas, o caso da larva da mariposa parece até mais simples. Mas expõe a dependência e falta de senso crítico do jornalista frente a conteúdos científicos. É de preocupar quando os temas abordados forem mais sérios e urgentes, como AIDS, dengues com novos vírus, vaca louca e estação espacial internacional. É preciso mais jornalismo interpretativo.

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