Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Sobre reitores e jardins

Por Carolina Ribeiro em 30/05/2001 na edição 123

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DIRET?RIO ACAD?MICO

PROVÃO I

Uma vez minha irmã me perguntou como era a Universidade. Havia acabado de assistir uma palestra sobre o tema com o professor Hélgio Trindade, na aula inaugural de algum semestre pós-greve. Ferviam na minha cabeça as discussões sobre educação e liberdade, produção e transmissão do conhecimento humano, papel na construção da sociedade, enfim, estava envolvida por aquela sensação mística que nos faz sentir mais do que só uma mão-de-obra a ser colocada a serviço da entidade espiritual mais reverenciada atualmente: o mercado de trabalho. Não consegui responder.

Fui andando pelo campus da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) a pensar em toda aquela beleza humana que a Universidade carregava em sua essência, tentando encontrá-la no meu cotidiano do curso de Comunicação. Procurei, quase muito, mas a coisa mais próxima que pude achar de tudo que o professor Hélgio havia dito era o projeto de paisagismo da Ufes. Uma coisa linda. Flores, grama verdinha cortada, banquinhos no lugar certo, canteiros e até borboletas e passarinhos. Foi encomendado pelo nosso reitor, um sujeito preocupado com a fotografia. Isso é fácil de perceber, dada a quantidade de publicações institucionais e publicitárias produzidas para mostrar ao público a maravilha que é a Universidade.

Seria mesmo estranho pensar que nosso reitor aceitaria um feioso E, por causa do boicote no Provão. Vai para o jornal, às vezes até para a televisão. Protesto não combina com grama bem-feita. Para onde vai o nosso ego com uma imagem tão horrorosa da Universidade? "Mas reitor, é um protesto, o Provão não mostra a realidade dos cursos", tentam os alunos. Isso não importa, "turma que busca nota zero, merece equipamento zero", esbraveja o senhor reitor. Tem gente que é vaidosa e pronto, né? Fazer o quê?

Eu, formanda de jornalismo da Ufes, vou boicotar o Provão exatamente nos moldes que o professor Victor Gentilli descreveu nesse fórum. Não utilizo o piquete nem o recurso jurídico para conseguir meu diploma por três motivos. Cursei 4 anos de um curso e não sou palhaça para ter o meu diploma recusado por causa de uma prova que me obrigam a fazer sem que eu a ache correta. Também porque prefiro as manifestações pacíficas e não agüento alguns professores nos chamando de baderneiros. Isso quando a gente fica revoltado e grita, imagina um piquete com apitos e outros instrumentos para nos defendermos da PM, que geralmente…

Finalmente, participarei do boicote porque, ao contrário da maioria das pessoas que preferem estar na sala de jantar ocupadas em nascer e morrer, faço parte de um movimento social que discutiu e decidiu por uma estratégia unificada. Boicote que vem crescendo, incomodando o senhor ministro e ganhando espaço na Câmara dos Deputados. Boicoto o Provão porque ele não revela o que meu curso é, porque é uma mentira, um instrumento que gera uma cultura que abomino: a da superficialidade. O Provão é um lindo exemplo da sociedade do espetáculo, cheia de ministros em programas de domingo.

Minha turma deve fazer a prova este ano. Caso consigam um A que combine com a fachada do prédio da Reitoria, ganham de pronto um churrascão dos melhores do Provão. Que eles me desculpem, prefiro ficar com fome.

(*) Carolina Ribeiro é estudante da UFES

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