Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / SÓCRATES

Sonia Apolinário e Marcos Pierry

Por lgarcia em 01/08/2001 na edição 132

FUTEBOL

"Derrota não afeta emissoras de TV", copyright O Estado de S. Paulo, 25/7/01

"A desclassificação da seleção brasileira na Copa América comprometerá parte da transmissão do evento pela TV. Com a saída do Brasil, a Rede Globo não vai mais exibir a competição. As semifinais e a final serão exibidas só pela Bandeirantes.

Segundo a Central Globo de Comunicação, comercialmente, o cancelamento da exibição dos jogos não afetará os compromissos da emissora. O que é comercializado, garante a CGCom, é a temporada 2001 de todo o futebol exibido na Globo e não evento por evento. Quando há interrupção de uma transmissão, a rede compensa as cotas publicitárias vendidas com outros eventos. A Globo argumenta que não há uma previsão antecipada de número de inserções para cada evento.

Paulo Saad Jafet, vice-presidente da Band, afirma que as cotas publicitárias da Copa América, vendidas pela emissora à Renault e à Goodyear, por R$ 2,4 milhões cada uma, independem de o Brasil chegar até a final. ?Mas é evidente que uma vitória aumentaria o interesse pela competição?, diz. Para os anunciantes, avalia Jafet, importa mais a audiência alcançada e o retorno nas vendas dos produtos.

O jogo com Honduras, na segunda-feira, teve na Globo média de 44 pontos de audiência, considerada pela emissora uma das melhores do ano. Na Bandeirantes, rendeu 5 pontos de ibope.

A avaliação é que o mau desempenho da seleção não diminui o ibope dos jogos do Brasil. A Globo acredita que o telespectador sempre terá interesse em conhecer as condições de jogo do time, mesmo quando atravessa uma má fase, como a atual."

 

ENTREVISTA / SÓCRATES

"Sócrates chuta a Globo?, copyright no. <www.no.com.br>, 24/7/01

"O ex-jogador de futebol Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, 47 anos, começou a semana mudando de hábitos. Na segunda-feira à noite, ao contrário do que fazia até alguns dias, não ligou a televisão para assistir ao jogo da seleção brasileira. Preferiu escutar pelo rádio o vexame verde-e-amarelo contra o time de Honduras. Era o primeiro passo da campanha de insurreição que o craque inventou. ?Eu quero que a audiência da Globo caia?, dispara o eterno revolucionário do futebol, que revelou sua veia política nos anos 70, quando liderou o movimento ?democracia corintiana?, em São Paulo.

A desobediência televisiva começou na semana passada. Sócrates conversava com amigos e pensava que nada poderia mesmo mudar os desmandos da cúpula do futebol brasileiro. A menos que… Sim, o que poderia acontecer caso a audiência da Rede Globo despencasse 20 pontos no Ibope durante os jogos da Seleção? Na avaliação de Sócrates, a emissora não gostaria de perder o dinheiro dos anunciantes e chutaria o pau da barraca. Em outras palavras, exigiria que a CBF fosse dirigida por gente competente.

Sócrates já se candidatou à presidência da CBF. Mas diz que é inviável sua chegada à presidência da entidade, ainda que volta e meia seu nome volte ao noticiário esportivo como opção. ?É uma anticandidatura, pois não existe a mínima chance de ocorrer. Mas é uma bandeira que eu levanto para questionar o poder atual?, diz. Enquanto tenta arregimentar companheiros para derrubar a audiência global, Sócrates começa a organizar um relatório com sugestões de mudanças do comando do futebol no país. O documento deve estar pronto até o final do ano e contará com a ajuda de outras personalidades esportivas que ainda serão convidadas. Vai ser uma espécie de programa de governo paralelo. Nada mau para um sujeito que já foi classificado como o ?Lula do Futebol?. Ele explicou alguns pontos de seu ideário a no.

Você viu o jogo de ontem?

Sócrates – Não vi, não. Ouvi pelo rádio. Estou fazendo uma campanha de insurreição popular. Defendo que todo mundo deixe de assistir aos jogos transmitidos pela Rede Globo. Tive essa idéia na semana passada, quando conversava com amigos. Estávamos todos desanimados, concordando que a coisa não vai mudar tão cedo. Queremos é fazer revolução. E se a gente conseguir trazer a Globo para o lado da transformação, seria muito mais fácil e rápido. Eu quero que a audiência da emissora caia. Aí ela vai fazer alguma coisa. É o único jeito de mudar a situação do futebol brasileiro rapidamente.

Mas o que a emissora pode fazer?

Sócrates – Se a gente conseguir derrubar 20 pontos de audiência da Rede Globo, ela vai começar a perder dinheiro. Aí, vai pressionar o comando do futebol brasileiro para que a coisa se modifique. O que ela pode fazer, nesse caso, é tirar os caras que estão lá e colocar gente competente. A Rede Globo tem tudo para mudar a situação. Eles têm, por exemplo, dossiês contra muita gente grande do futebol brasileiro. Eles têm documentos contra o Ricardo Teixeira e nunca usaram. Eu quero que a Globo use isso agora.

Para não perder audiência?

Sócrates – Se a Globo não mexer nisso, vai continuar vendendo um peixe que não é verdade. No começo da Copa América, a emissora anunciava que o nosso time era fantástico. Eles, na Globo, acham que só porque têm o poder de formar opinião também podem vender qualquer peixe. Agora, que eles agüentem as conseqüências ou façam alguma coisa.

O futebol brasileiro já está na U.T.I.?

Sócrates – A seleção é um paciente de U.T.I. que está sendo muito maltratatado. Se não for bem medicado, vai morrer. Mas acho que ainda assim não é o fundo do poço. Pode vir coisa pior. Eu já estou avisando isso há um ano. Se nada mudar, o Brasil pode não ir para a Copa. Não é o que eu quero, claro. Mas verdade é que a gente não tem time. Esse time que está aí não ganha nem do Paraguai [o próximo adversário do Brasil pelas Eliminatórias]. Imagina quando pegar a Colômbia. Além disso, lutar para ir à Copa do Mundo, torcendo contra as outras seleções é algo dramático.

E o vexame de ontem??

Sócrates – Não foi um vexame. É a realidade do nosso futebol. A seleção está desse jeito. Precisa a coragem de convocar gente competente para mudar isso. Hoje, a incompetência soma-se à falta de mobilização e deixa o nosso time sem perspectivas. Ninguém manda, ninguém decide e o barco vai afundando. Nosso problema é estrutural e a seleção é o reflexo do que foi feito com o futebol brasileiro nos últimos anos. Agora, precisamos inventar uma forma de classificar esse time, como uma operação de guerra. Nosso futebol está acéfalo, não tem comando. Está tudo nas costas do Felipão.

Mas ele não deveria dar conta do recado?

Sócrates – Ninguém faz milagre. Ele deveria ter muito mais gente do lado dele para que a gente pudesse ir adiante. Deveria ter gente competente.

Não é o caso do Antônio Lopes?

Sócrates – Para ocupar esse cargo de coordenador técnico, o sujeito precisa ter experiência como atleta, como técnico, precisa entender de fisiologia, de ortopedia, de tudo que está envolvido com o futebol. Como alguém vai comandar uma equipe se não conhece o trabalho que deve ser feito? O coordenador deveria ser indicado pelo técnico. Como não é assim, fica uma situação semelhante ao subordinado indicar o próprio chefe.

Mas, afinal, você acha que o Felipão é bom?

Sócrates – O Felipão é um bom treinador, com algumas características interessantes. Uma delas é que se trata de um cara mobilizador, que sabe extrair do jogador a questão psicológica de forma positiva.

Mas o problema do time não é mesmo psicológico?

Sócrates – Se for isso, tem que trocar os jogadores. Se eles não têm capacidade para suportar a pressão, estão no lugar errado. Mas é claro que o lado psicológico influencia nos resultados. Quem trabalha com o público, precisa ter estrutura, precisa ter controle emocional.

Foi isso que deixou o time tão apático no jogo de ontem?

Sócrates – Isso é falta de estrutura emocional, sim. Dá para perceber de longe. Nesse caso, repito: tem que trocar os jogadores.

É mesmo uma vergonha perder para Honduras?

Sócrates – É um absurdo. Qualquer time de várzea é melhor do que Honduras.

Mas há comentaristas que dizem que eles jogam direitinho.

Sócrates – Eles jogam direitinho? O Brasil não está jogando nada. A verdade é essa. E o pior é que quando a gente ganha, eles dizem que o nosso time estava jogando bem. Seria a mesma coisa que elogiar uma gordinha de 150 quilos dizendo que ela é simpática."

    
    
                     
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