Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Sérgio Dávila

Por lgarcia em 05/10/2000 na edição 99

"NY Times admite exagero no caso Lee", copyright Folha de S. Paulo, 27/09/00

"O jornal The New York Times publicou texto ontem em que explica sua polêmica cobertura do caso do cientista Wen Ho Lee.

No ano passado, em tom alarmista, o jornal afirmou que a China poderia ter furtado segredos nucleares dos EUA, reportagem que ajudou a levar à prisão de Lee pelo FBI. O chinês ficou nove meses em solitária e foi solto há duas semanas, depois que 58 das 59 acusações foram retiradas.

‘No geral, continuamos orgulhosos do trabalho que trouxe à luz um grave problema de segurança nacional’, diz o Times. ‘Mas também notamos algumas coisas que gostaríamos de ter feito de outra forma no curso da cobertura, para dar ao dr. Lee o completo benefício da dúvida.’

Com o título O Times e Wen Ho Lee e assinado por ‘Os Editores’, o texto saiu na página 2, reservada às correções do jornal. Teve chamada de três linhas no pé da primeira página. A primeira reportagem sobre o caso foi manchete.

Para justificar o texto de ontem, o jornal afirma que as críticas que sofreu por sua cobertura podem ter ‘deixado muitos leitores com dúvidas’ sobre o trabalho. Entre os erros que diz ter cometido, o jornal afirma que poderia ter se esforçado mais para revelar a inconsistência do caso do FBI contra o cientista.

Além disso, segundo o Times, trechos de alguns artigos erraram no tom. ‘Nós ocasionalmente usamos linguagem que adotava o alarmismo contido nos relatos oficiais e estava sendo repetido por investigadores, membros do Congresso e do governo’."

"O New York Times reconhece que exagerou ao aceitar tese do FBI de acusação de espionagem", copyright Veja, 4/10/00

"Olhando para trás, encontramos algumas coisas que gostaríamos de ter feito de modo diferente na cobertura deste caso.’ Não se pode imaginar que um dos jornais de maior prestígio no mundo fosse mais direto na hora de pedir desculpas a um cientista que passou 279 dias na cadeia, numa cela solitária, acusado de cometer 59 violações contra a segurança dos Estados Unidos. A frase estampada num editorial do New York Times, na terça-feira da semana passada, não elimina da história do jornal a co-responsabilidade num escândalo que os americanos estão chamando de o fiasco Wen Ho Lee. Citado numa reportagem de junho como ‘possível responsável pelo mais danoso caso de espionagem posterior ao período da Guerra Fria’, Lee saiu da cadeia há duas semanas para responder em liberdade apenas pela acusação de ter copiado em seu computador, sem garantias de segurança, um pacote de arquivos que nem mesmo eram classificados como secretos no Laboratório Nacional de Los Alamos, onde ele trabalhava quando o caso começou.

Lee perdeu o emprego em março de 1999, acusado pelo governo de ‘sérias violações de segurança’, dois dias depois que o New York Times publicou uma reportagem dizendo que, após anos de trabalho, agentes do FBI – a polícia federal americana – fechavam o cerco em torno de um cientista de origem oriental que teria ajudado o avanço das pesquisas nucleares da China, abastecendo aquele país com segredos roubados do laboratório. Nos meses seguintes, Lee seria enredado no cipoal de acusações de espionagem – com um falso testemunho –, enquanto o jornal mantinha uma cobertura sobre a história que não dava crédito ao cientista nascido em Taiwan. No editorial, o jornal reconheceu que ‘poderia ter dado ao doutor Lee o benefício da dúvida’.

A descoberta que tirou o cientista do caminho da prisão perpétua bateu num detalhe técnico. As informações às quais os chineses puderam ter acesso eram relacionadas a um modelo de ogiva chamado W-88, mas os arquivos referentes a esse projeto não foram os que ele andou copiando. Pior, e aí o grande fiasco: dados sobre o projeto W-88 tidos como secretos pelo FBI rodaram abertamente pela comunidade científica mundial. E ainda mais: os arquivos consultados por Lee só receberam o carimbo de informação reservada depois que ele os copiou. Conforme essas informações eram divulgadas, uma campanha pela libertação do cientista ia tomando forma nos Estados Unidos e um cerco de pressões crescia, entre os críticos de mídia, para que o New York Times desse a mão à palmatória. Até a Casa Branca informou considerar que as pressões da imprensa, particularmente o jornal, empurraram os promotores para uma atitude excessiva no tratamento do caso.

A revista eletrônica Slate publicou, no decorrer da semana, uma série de artigos com ironias e críticas diretas ao grande jornal e a parlamentares americanos que se apressaram em aceitar e divulgar, à época dos fatos, as versões mais apimentadas dos riscos a que o cientista teria submetido a nação americana. Lee, é verdade, ainda precisa explicar por que, afinal, copiou o equivalente a 400.000 páginas de informação, num total de mais de quarenta horas de um trabalho que não se justificava nas suas próprias pesquisas. Se não conseguir, terá alguns problemas. Se conseguir, abrirá a bolsa de apostas sobre uma imensa indenização."

"NY Times faz autocrítica sobre cobertura", copyright O Estado de S. Paulo, 27/09/00

"Em um incomum mea-culpa o jornal The New York Times reconheceu ontem em um editorial de três colunas ter-se equivocado gravemente ao pré-julgar o cientista de origem chinesa Wen Ho Lee. O jornal, o primeiro a revelar, em março de 1999, que cientistas do Laboratório de Los Alamos eram suspeitos de ter vendido segredos nucleares à China, reconheceu ontem, com embaraço que sua investigação teve muitas falhas.

No artigo, intitulado The Times e Wen Ho Lee, o jornal revela que em uma revisão interna ‘encontramos algumas coisas que, se tivéssemos feito diferente durante a cobertura do caso, teriam dado ao sr. Lee o completo benefício da dúvida’. ‘Deveríamos ter alertado sobre as debilidades das acusações do FBI contra Lee’, reconheceu o jornal.

Como não havia provas contra ele, Lee foi libertado no dia 13, após nove meses de prisão, depois de ter feito um acordo no qual admitia a acusação de ter manejado inadequadamente segredos nucleares. Em troca, o juiz James Parker retirou as outras 58 acusações de violação da segurança nacional e criticou os investigadores por terem ‘conduzido toda a nação a um comportamento errôneo’.

‘A cobertura do NYT sobre o caso, especialmente os artigos publicados nos primeiros meses, atraiu críticas de jornais rivais e de defensores do doutor.

Lee, que sustentavam que nossa reportagem estimulou um furor político que levou à caça às bruxas. Após a libertação do dr. Lee, a Casa Branca também culpou a pressão da mídia e especificamente o NYT por terem insuflado um rancoroso processo pelo Departamento de Justiça", reconheceu o jornal.

De acordo com o NYT, durante a reportagem não foi prestada atenção suficiente à possibilidade de que pode ter havido um vazamento de informações muito maior, no qual o cientista de Los Alamos teve pequeno ou nenhum envolvimento.

Para o NYT, porém, várias questões sobre o caso permanecem sem resposta, como por que o cientista transferiu códigos secretos de um computador para outro de fácil acesso e depois tentou esconder o fato.

‘Enviamos uma equipe de repórteres, incluindo os que revelaram o caso, para novas reportagens, com base em fontes e documentos que não foram previamente avaliados. Nossa cobertura sobre este caso não está encerrada.’"

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