Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Sírio Possenti

Por lgarcia em 01/07/2003 na edição 231

POSSENTI vs. JAPIASSU

“Impostor?”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 30/06/03

“Minha primeira reação, ao ler o texto de Moacir Japiassu (Japiassu desmascara um impostor), foi achar que o tom tinha sido desproporcionalmente duro. Reli minha coluna e verifiquei que eu mesmo me excedera – não precisava dizer que o humor às vezes é ignorante, embora isso em geral seja verdadeiro (mas seria necessário distinguir a técnica e os objetivos), nem considerar rasa sua competência em questões gramaticais etc.

Outra reação foi de mal-estar. Não por achar que dissera algo grosseiramente equivocado e que devesse mudar algum ponto de vista, mas por ter sido pego em erro, erro besta, um erro de citação, cuja gênese Japiassu, bom detetive, descreveu corretamente: vi ?OC?, fui ao índice, encontrei um nome que, esse sim, nem conheço, confiei e me dei mal. O que me deixou sem jeito não foi ler o destampatório do insigne jornalista, mas o flagrante. Considero o erro banal, uma consulta equivocada. Mas ele foi lido assim: se não se lembra da gente Aguiar, então não leu um certo livro importante, então é um ignorante. Ora, todos temos pequenas vaidades, e confesso que não gosto de ser apanhado em erros desse naipe (algo tão banal como Lancelotti queimar uma rosca nas assadeiras que anuncia). Poderia alegar que não se lê Memorial de Aires na escola, se fosse o Quincas Borba ou a Capitu. Mas sei que não é um bom argumento. Também não se lê quase nada sobre línguas, o que desculpa Japiassu.

Depois eu me perguntei se o que chateou Japiassu não teria sido esquecer o capítulo das silepses. Talvez, mas ele jamais confessaria. Afinal, eu sou um anônimo professor, e ele é um jornalista conhecido. Além disso, seria psicanálise de boteco.

Relendo o texto de Japiassu, confirmei que não havia nada, nenhum argumento. Fez suposições, emitiu palpites, ora pessoais – sobre outros textos meus, por exemplo – ora bastante correntes, embora discutíveis. Quando me pôs ao lado dos que odeiam a literatura nacional e dos que acham que as figuras de linguagem dos grandes escritores equivalem a construções pedestres, então ele conseguiu – pelo menos junto aos que gozaram vicariamente através do martelo de Japiassu – colocar-me no lugar. Onde já se viu um desconhecido apontar qualquer senão em algum ?sabe com quem está falando??.

Sobre as construções pedestres: é um erro grosseiro achar que figura de linguagem seja exclusividade de autores consagrados (certos ?erros? tornam-se figuras a posteriori, para sabê-lo basta conhecer um pouco a história). Construções machadianas justamente louvadas como ?conhecer de vista e de chapéu? ou ?namorar durante meses e contos? são equivalentes estruturais de ?ser operado duas vezes, uma no joelho e outra no hospital das clínicas? (ou, ?com um forcado e algum esforço?, como no chiste citado por Freud). A avaliação desses fatos de linguagem é diferente por outros motivos, não por maior ou menor sofisticação estrutural. Além disso, reduzir escritores a conhecedores de regências e concordâncias é supor que são o que são por seguirem as gramáticas (quando são essas que os seguem) e não por armarem textos geniais. Além disso, opinar sobre determinada construção sintática ou propor uma análise não é a mesma coisa que gostar dela. Mas tudo veio misturado. Como o que leio todos os dias de manhã.

Tentei entender do ponto de vista de Marte (ou de Sírius), como se isso fosse possível, o que tinha acontecido. Conto. Recebi um trecho da coluna de Japiassu (desculpem, mas não tenho lido sua coluna ultimamente) como sugestão de tema. Achei que podia aproveitar. Como ele, comento o que se escreve por aí, só que eu seleciono objetos diferentes. Prefiro encarar cachorro grande, os equívocos dos que supostamente sabem, dos que riem dos erros dos outros. Ou seja, escolho os alvos de meu riso, e um deles é exatamente a falsa sapiência – algo como o Japiassu fez comigo, embora eu não tenha o nome dele. Rir dos anônimos é muito fácil, é quase covardia. É o humor menos sofisticado. E eles não reagem. Japiassu acha que sua coluna ser de humor é um detalhe que não considerei. Considerei. Só não acho que seja um detalhe. Humor é muito sério, para repetir um lugar comum.

Parênteses. Imaginei que, se não invocasse alguma teoria lingüística, dessas das academias, mas argumentasse a partir das próprias gramáticas, o poder de persuasão seria maior. Ou seja: como pareceu que a crítica – bem humorada etc. – de Japiassu levava em conta a doutrina gramatical corrente sobre concordância verbal – aspectos dela, de fato, tanto que remete às dicas – eu estaria mostrando não apenas que há outras maneiras de ver um fato como o que estava em questão, mas que os próprios gramáticos reconheceram que certos ?desvios? de uma regra supostamente única são correntes mesmo entre os melhores profissionais da escrita. E em várias épocas.

Seria possível analisar aqueles casos de outra maneira. Por exemplo, é provável que o exemplo de Machado, ?Deu-me notícias da gente Aguiar; estão bons? (que eu achei que era de Osório Cochat) não seja um caso de silepse, se por isso se entender que ?estã? concorda com ?a gente?. Diria que ?estão? concorda com ?eles? e que ?eles? (elíptico) retoma ?a gente?; se for isso, não se trata mais de um caso de sintaxe, mas de coesão textual. Tem lá sua estranheza, mas não é mais silepse. Fatos como esse são correntes. Japiassu pode caçar muitos exemplos nos jornais.

Em ?Misericórdia! – bradou toda aquela multidão, ao passar el-rei: e caíram de bruços…? o fenômeno é semelhante. Uma silepse de lei seria ?bradaram toda aquela multidão?, o verbo junto ao sujeito, embora anteposto, e não relativamente distante, como ?caíram?, e ainda com uma separação bem marcada (na escrita, os dois pontos).

O fator ?distância? talvez opere também em ?Prostra-se o povo humilde, e repetindo as palavras do mestre, pronunciam…?: esta forma verbal está afastada do sujeito, o que facilita uma concordância ?irregular? (alternativamente, pode-se supor que há um sujeito elíptico que retoma ?o povo humilde? antes de ?pronunciam?). Fim dos parênteses.

Mas, se eu tivesse escrito isso, então eles diriam, como se estivéssemos na Idade Média: ?quem é ele para discordar de gramáticos como Celso Cunha?? (De passagem: sua verdadeira obra não é a gramatical, mas a filológica).

Voltando ao fio da meada: supus que, retomando argumentos da gramática (por economia, digo ?a gramática?), o poder de persuasão do texto seria maior. Afinal, eles a conhecem, pensei. E imaginei que, se Japiassu viesse a tomar conhecimento dele, diria coisas como: ?seu Possenti, você errou feio ao não reconhecer personagens de Memorial de Aires, mas pode ser que tenha alguma razão quanto ao meu juízo excessivamente duro em relação a A turma receberam… Mas precisava me chamar de ignorante? Vou pedir a Janistraquis que lhe ensine boas maneiras?. Sei que era esperar demais.

Japiassu só convenceu quem já estava convencido, e aos amigos. Toda a unanimidade… etc. Aliás, pode ter certeza de que eu o valorizo mais criticando-o do que esses outros babando. Seus argumentos são batidos – e alguns nem são bons. Para ficar no Machado, o texto me lembrou Teoria do medalhão.

Respeito seu gosto pelos escritores. Talvez se espante se lhe disser que o meu é semelhante. Tenho sido considerado arcaico por defender que certas obras têm qualidades intrínsecas que as fazem melhores do que outras, não só mais valorizadas porque os experts falam mais delas, na contramão de algumas versões culturalistas. E eu li Memorial de Aires, embora seja mais apegado a Memórias Póstumas. Japiassu é que não lê nada sobre linguagem. Para escrever, o que não é pouco, e para divertir-se um pouco, efetivamente não precisa (aliás, é o que defendo em Por que (não) ensinar gramática na escola). Mas, para compreender ainda melhor – ele poderia ser mais ambicioso – a diversidade funcional da(s) língua(s), modelos não bastam. Não são só os lingüistas que acham isso. Antropólogos, filósofos e historiadores têm posto a linguagem no centro de suas preocupações. Todas as suas manifestações, já que o homem é um animal que fala (e ri).

Moral da história: continuo pensando que, no que se refere ao tópico que pus em discussão, tudo o que Japiassu tem é um martelo. Não tem informações, ou as esqueceu, como eu esqueci os Aguiares. Agora, ele bate forte, reconheço. Às vezes, com as quatro.

PS – Sobre algumas manifestações de leitores: a) sobre ser ou não respeitado: nunca fiz pesquisa, sei que há muitos que discordam do que escrevo (talvez porque não repita tanto), mas minhas aulas são muito procuradas, tenho orientandos de mestrado e doutorado em número até acima do permitido, fui visitante na USP, vou a bancas e a conferências na PUC (já que essas universidades foram mencionadas), faço parte do conselho editorial de várias revistas, dou pareceres para agências públicas etc. Verdade que não sobre os temas que comento em minhas colunas, cujo alvo é, em princípio, o dito leitor comum, a quem quase só se servem receitas pobres; é uma espécie de segundo trabalho, de divulgação, que faço em final de semana, e pelo qual não recebo nada, se é que isso interessa; e agora mesmo vou ao Recife dar um curso em Análise do Discurso para alunos de pós-graduação da UFPE, a convite; b) sobre silepse e ?tudo são cardos?: a silepse está em ?bradaram a multidão?, claro; mas ?tudo são cardos? não é um caso de concordância irregular, como as silepses? E há outros, como os famosos exemplos do tipo ?vendem-se casas?, em que o verbo concorda com o objeto (se todos acham que é uma passiva, não leram Said Ali); aliás, do mesmo tipo, estruturalmente, é ?haviam pessoas?, em que a concordância é também com o objeto – e já estou vendo o Japiassu rindo; c) alguns ficaram felizes porque Japiassu baixou a borracha: não disseram nada sobre o tema, não sei o que ocorria nas madrugadas de fechamento, não posso comentar; d) acho que seria bom Japiassu falar na Unicamp, e em outras Universidades, mesmo sobre gramática ou sobre humor. Não sei se poderia ser professor, dar um curso sobre Memorial de Aires, porque as universidades também exigem títulos, como o jornalismo – o que nem sempre é bom, eu acho; e) não misturar ?a turma receberam? com ?nós fomo? etc. – são bichos de espécies diferentes; f) um leitor me acusa de inveja; de quê? g) outro informa que a ?marretinha? do mestre já fez muitas vítimas: pois é, cada um se diverte como pode. (Professor de Lingüística no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp)”

“Japiassu responde ao professor”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 30/06/03

“É compreensível que o professor, flagrado com as calças na mão, procure transformar um insulto, inteiramente desprovido de sentido, na gênese de saudável ?polêmica?. Porque o Mestre da Unicamp, que decidiu trocar o porta-voz por um assomo de coragem intelectual, saiu um pouco alanhado desse plangente episódio. Então, o jeito é tentar o pneumotórax embora já se escute o tango argentino. O impetuoso centroavante peito-de-aço, que poderia levantar as torcidas da Ponte Preta ou do Guarani, foi perder o jogo para um simples toque de bola…

O leitor é testemunha de que este humilde colunista estava quietinho, entretido em seu trabalho, quando recebeu pelo meio das ventas o possante obus disparado de Campinas pelo destemido Possenti. Fui apontado como ignorante, crítico de competência excessivamente rasa, e simplesmente reagi, como atestam os textos anteriores publicados pelo Comunique-se. Afinal, embora eu mesmo me considere um ignorante de marca, como iria aceitar tal motejo de quem não leu Machado de Assis?

(Aliás, eu não disse, em minha resposta à sua provocação, que o senhor odeia a literatura nacional; disse apenas que o senhor a desconhece, pois perambular pelo capítulo das ?construções pedestres? e citar esta ou aquela frase célebre não o transformará, jamais, num leitor de apurado gosto, como ficou evidente naquele e neste artigo.)

Agora, ao confessar que gosta de encarar ?cachorro grande?, referindo-se a mim, sugere que minha coluna se dedica exclusivamente a caçoar dos excluídos, porque ?rir dos anônimos é muito fácil, é quase covardia?. Vê-se que Possenti não lê minha coluna, como não lê Machado; logo, eu não poderia estar em melhor companhia, não é mesmo? E, em dificuldade para saltar a cerca do curral onde se meteu (uma ?consulta equivocada? é coisa grave, professor; pode levar o paciente aos quintos dos infernos), acusa-me de fazer suposições e emitir palpites; garante que não leio nada sobre linguagem e que devo ser mais ambicioso ?para compreender melhor a diversidade funcional da língua?. O professor tem ainda o desplante de me cobrar ?argumentos?.

Suposições? Palpites? Argumentos? Ora, já disse e repito que não sou lingüista nem gramático, minha concepção do idioma é ?musical?, um tanto como tocar de ouvido. Todavia, o Mestre da Unicamp, que gosta de encarar cachorro grande, embora escreva malíssimamente mal (permita-me a inusitada ênfase), quer discutir comigo a angústia transoceânica medonha que range nas enxárcias da silepse, ou algo assim, bem ao gosto doutro Mestre que ele talvez não identifique, como a gente Aguiar.

O senhor não pôs, considerado professor, nenhum tópico em discussão naquele insulto gratuito assacado contra mim. Não tente agora emergir do tal monturo a que me referi na resposta anterior, acusando-me de não dispor de informações ou tê-las esquecido; saiba que eu jamais confundiria Machado de Assis com Osório Cochat, embora isso seja menos grave num jornalista do que num professor da Unicamp, o senhor há de convir.

Não sou cachorro grande, pelo menos não do seu tamanho. Nem títulos eu tenho, como o senhor sabe. A única coisa que sei fazer, além de um bom cuscuz paraibano, é escrever com razoável bom gosto. Portanto, não desperdice comigo sua sesquipedal erudição; poupe-me de seus delírios, reserve-os para o discurso aos alunos de pós-graduação lá no Recife. Porém, abra o olho para não confundir Gilberto Freyre com Gilberto Gil; heresia de tal vasteza, proclamada em plena capital de Pernambuco, poderia esmolambar de vez a sua já esgarçada reputação.”

 

JORNAL DA IMPRENÇA

“…e a vítima é o gato!!!”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 26/06/03

“Janistraquis vasculhou nosso arquivo recente e exumou esta que saiu na Folha de S. Paulo sob o título Aposentado é detido por comer gatos:

?O aposentado Elias Cassini, 70, foi detido anteontem em Mirassol (453 km de São Paulo) por capturar e comer gatos. Após denúncia anônima, policiais viram-no tirando a pele de um gato siamês no quintal da sua casa, onde havia mais dois animais. Cassini teria confirmado à polícia que come gatos porque sua aposentadoria não é suficiente para comprar alimentos. Familiares do aposentado disseram que não sabiam da mania. Um termo circunstanciado foi feito pela polícia por crueldade contra animais. O aposentado foi liberado, mas pode pegar de dez a 30 dias de prisão ou ter de pagar multa?.

Condoído, meu secretário desabafou: ?Considerado, é fantástico que a Folha considere o gato como a vítima! Ora, o próprio texto esclarece que o cidadão não tem ?mania? de comer gato, a necessidade é que o leva à bichanofagia. Porém, qualquer dia desses ainda vão juntar a fome com a vontade de comer, a tal ?mania? se transformará em tara e aí podem ferrar de vez quem cair na besteira de almoçar um simples gatinho. Olhe, se eu fosse o Cassini iria traçar mais alguns na porta da delegacia; afinal, se ele entrar em cana, pelo menos mudará de cardápio?. Faz sentido, embora aqui no país do ?Fome Zero? sempre haja a possiblidade de condenarem o infeliz ao pagamento da multa.

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Somos umas bestas!

O jornalista J. Nascimento, que vive sempre antenadíssimo, para desmoralizar os boatos de que todos os baianos são uns desocupados, nos enviou esta lição de História de Luiz Carlos Maciel no caderno Fim de Semana, da Gazeta Mercantil: ?Segundo Icke, Bush usa o estilo de mantras hindus para convencer a população. Repete incansavelmente as mesmas coisas até que elas sejam simplesmente aceitas como verdades absolutas O nazista Göering já havia chamado a atenção para a eficiência dessa técnica. A repetição dispensa as provas.?

Nascimento sentiu-se o maior ignorante da Baixa do Sapateiro: ?E eu que pensava que o autor dessa nefanda tese tivesse sido Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler!!!?, suspirou ele (é, sim, possível suspirar por e-mail). Janistraquis e eu também somos umas bestas, Nascimento; imaginávamos que fosse Goebbels. Porém, se o genial Luiz Carlos Maciel diz que foi Göering, não tenhamos dúvida: foi Göering!

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Buraco fundo

Roldão Simas, Diretor da sucursal desta coluna em Brasília, folheava a revista Mundo Estranho (Roldão tem uns hábitos esquisitos, né mesmo?). Pois Roldão folheava o número 4 da tal revista quando, à página 19, tropeçou nesta informação: ?Como é a Terra por dentro? A cada quilômetro que descemos, a temperatura aumenta entre 30 e 40 graus centígrados e a pressão força o buraco a se fechar, diz o geofísico Wladimir Shukowsky, da Universidade de São Paulo (USP)?.

Sem possibilidade de consultar pelo menos algumas minhocas, pois não as há no apartamento de Roldão, ele quedou-se a cismar: ?Se o buraco feito na península de Kola, na Rússia, tem 12 quilômetros de profundidade, a temperatura lá no fundo estaria pelo menos 360?C acima da temperatura ambiente na superfície, algo realmente infernal, quase 400?C. Será verdadeira a informação do geofísico??.

Janistraquis, que anda num ateísmo intolerável, depois que fez novena pra chover aqui no sítio e não choveu nem uma gota, escreveu ao nosso Diretor: ?Considerado Roldão, se há gente que acredita na Santíssima Trindade, acreditar nessa história do geofísico é café pequeno!?. Fiquei na minha, porque Deus não tolera tais heresias.

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Traduções e criações

O Diretor da sucursal paulista desta coluna, Daniel Sottomaior, especialista em traduções, encontrou no Estadão a notícia de que Hillary Clinton ?gastou dias fazendo campanha nos recintos rurais e esquecidos da porção setentrional do Estado de New York?. Ora, ensina o professor, ?a tradução literal de ?spend? funciona muito mal aí porque dá a entender que o tempo foi perdido. O correto seria ?passou vários dias?, ou ?fez campanha durante vários dias?. Mais uma vez, o sentido é próximo, mas a tradução arruinou o contexto. ?Recintos rurais? também é uma expressão que não faz sentido algum, e chega a ser cômica. O original é ?rural precincts?, e dessa vez o malfadado tradutor não tem sequer a desculpa de ter usado uma palavra possível, embora inadequada. ?Precinct? significa distrito, do tipo policial ou eleitoral. O jornalista estava descrevendo como Hillary visitou distritos eleitorais rurais, e não ?recintos rurais?, o que quer que isso possa significar.?

Janistraquis tem certeza de que dona Hillary cabalava votos num distrito eleitoral; já o tradutor, este perambulava (para não utilizar outra e mais ruminante palavra) nalgum recinto rural. É verdade. Veja, considerado leitor, que a boa tradução exige que se conheça muito bem os dois idiomas — se o aventureiro não quiser entrar numa tremenda roubada.

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Nota dez

O melhor texto da semana é da lavra de Ivan Angelo, em sua coluna do Jornal da Tarde, de São Paulo. Sob o título Chavões que incomodam nos telejornais, escreve o ?festejado autor? de A Festa:

?O lugar-comum, seja no texto literário, científico, técnico, jornalístico ou epistolar, é sinal de preguiça, de falta de recursos e de criatividade. O lugar-comum é a idéia feita, o troco miúdo, o cachorro sem dono, a vala comum da linguagem. Pode até ser usado literariamente, para marcar a fala de um personagem, para ironizar, caricaturar. Eça de Queirós brincou com idéias feitas, Flaubert também. Porém, o uso ingênuo ou a sério do chavão desvaloriza um texto. A coisa fica pior quando o autor nem percebe que está usando chavões. Falta-lhe ouvido.?

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Errei, sim!

?A RETA E O FIOFÓ – Título de três colunas, quase manchete de página da Folha: Antonio Kandir é operado de hemorróidas em São Paulo. Alarmado com tanto espaço dado a tão alcatreiro assunto, Janistraquis identificou segundas intenções do redator: ?Considerado, se o jornal divulga com tal estrépito que Sua Excelência resolveu cuidar do próprio fiofó, isso significa que devemos tirar o nosso da reta!?. É bem pensado?. (julho/1996)

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP) ou moacir.japiassu@bol.com.br).”

 

DO REPAGINADO

“Diário Oficial será reformulado pela primeira vez em 100 anos”, copyright Agência Brasil, 26/06/03

“A partir de setembro, os tradicionais diários oficiais da União e da Justiça deverão circular, em todo o país, completamente reformulados. A inovação editorial é a primeira feita em 100 anos.

As mudanças vão do design gráfico do impresso até a forma de distribuição e comercialização do jornal. Nos próximos 30 dias, o acesso aos exemplares já deverá estar modificado. A Imprensa Nacional pretende – por meio de parcerias com universidades e as imprensas oficiais de todos os estados – disponibilizar os exemplares diariamente, sem atrasos.

Em algumas localidades do país o jornal demora, atualmente, até três dias para chegar às mãos dos leitores. Os não-assinantes também poderão ter acesso fácil por meio de compras avulsas. A idéia é que futuramente os jornais possam ser vendidos também em bancas de jornais a preços variando de R$ 4,65 a R$ 23,25, dependendo do número de páginas da publicação.

Como parte da reformulação, a Imprensa Nacional pretende publicar dados e gráficos mais simplificados sem comprometer a função essencial do jornal de tornar público as diretrizes e determinações do governo e da justiça. ?Queremos acabar com essa coisa difícil e burocrática que é ler os diários oficiais ?, disse o diretor geral da Imprensa Nacional, Fernando Tolentino.

Segundo ele, a maior busca do órgão será por modificações na tipografia e no tamanho dos conteúdos, sem aumentar os custos do produto final e mantendo a sobriedade característica do veículo – nas cores preto e branco. A Imprensa Nacional deseja, ainda, simplificar a página eletrônica do órgão. Um dos objetivos é facilitar a navegação e o acesso das informações por meio da busca na internet.

Os custos do projeto ainda são desconhecidos, mas segundo o diretor geral, a inovação, considerada a mais radical em um século, será feita para aproximar mais o leitor das informações públicas e oficiais. ?Hoje o Diário Oficial esconde a informação. Nossa meta é expor a informação. A brasileiro nenhum é dado o direito de desconhecer a lei, mas muitos acabam não tendo direito de conhecê-la porque o diário não facilita?, concluiu Tolentino.

Segundo informações, os diários oficiais brasileiros são os maiores do mundo e consomem por ano cerca de 4 mil toneladas de papel – aproximadamente 16 toneladas de papel por dia. O primeiro Diário Oficial do Brasil circulou em outubro de 1862.”

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