Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Superjornalismo ou inversão de atribuições

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

IMPRENSA & PODER

Fernando Machado (*)

Antes mesmo de poder exercer a profissão a que aspira, ainda nos anos de faculdade o estudante pode entrar em contato com situações que lhe fazem sentir como será a atividade na prática. Muitas vezes por ser exigido como tal. Um aluno de Veterinária dificilmente ficará passivo ao ver um animal ferido. Que diria o aspirante a médico ao poder utilizar o que já aprendeu até ali para auxiliar um semelhante em necessidade. Aqui a inversão de papéis pode ajudar, salvar vidas.

Quando se trocam as bolas, isto é, quando se quer exigir de um profissional (ou estudante) aquilo que é mister de outra profissão arranja-se, no mínimo, uma bela confusão. É natural que um médico possa curar ferimentos de um cachorro, por exemplo. E o veterinário também pode ser útil na falta de um médico. Porque são áreas afins. Na maioria dos casos, entretanto, não dá muito certo. Por mais fantástico que seja um poeta, decerto não cabe lhe pedir que pinte um quadro; e seria indecoroso fazer perguntas sobre astrologia a um astrônomo. Outra imprudência seria requisitar os conselhos de um advogado em operação de ponte de safena. A inversão antes atrapalha do que ajuda.

No caso do jornalista (ou aquele que o pretende ser) o que mais se pode pressentir do possível futuro ganha-pão talvez seja a cobrança de atribuições que não nos sejam devidas, ou mesmo possíveis. Por exemplo, a responsabilidade de denunciar mazelas sociais de todo o tipo, pôr o dedo na cara de poderosos e destroná-los, combater a corrupção, a fome, a seca no Nordeste e por aí vai. Além da solução de problemas cotidianos, como cobrar solução para o buraco na rua do cidadão, o bueiro entupido e, claro, o combate ao crime. Na universidade já aconteceu muitas vezes de alunos de outros cursos pedirem a um ensaísta de jornalismo que "denuncie" publicamente as falhas na administração de seus cursos e da instituição em geral. Em vez de irem por si mesmos à procura de seus direitos.

"Você, que é jornalista" é uma das frases que mais ouço e, ao mesmo tempo, uma das que menos gosto de ouvir. Normalmente ela vem seguida de uma queixa que deveria estar sendo feita a um representante público, ou alguém com superpoderes, não a um jornalista, muito menos a quem apenas pretende sê-lo. O titã Rui Barbosa, grande jurista e grande jornalista, comentou certa vez: "Nos países onde o Parlamento representa mal a Nação, a pena do jornalista vale mais do que a eloqüência do orador".

A inversão de atribuições da imprensa com o poder público é muito estimulada e faz muito sentido. Uma vez que acoberta os motivos reais dos problemas, é uma das faces e símbolo da tecnocracia. Não é a toa que Super-Homem, Homem Aranha e a repórter April O`Neal (das Tartarugas Ninja) são jornalistas. Países onde vigora a descrença da sociedade civil em relação ao Estado e à política em geral (Brasil e outros da América Latina) são campos férteis para a criação de salvadores e de heróis. De uns anos para cá, a TV brasileira (macaqueando a americana) coloca na cabeça dos mais inocentes que Celso Russomano, José Luis Datena, entre tantos, lutam a favor dos injustiçados, dos excluídos (e não em benefício próprio).

Popularidade e inocência

E, portanto, seriam os mais indicados para a solução dos problemas públicos. No momento em que se dramatiza tanto a questão da segurança pública ? uma forma de esconder o descaso dos governos com relação a políticas realmente sociais ?, o programa de Datena é uma espécie de central de combate ao crime. De seu estúdio, Datena comanda helicópteros, chega até a dar bronca ou fazer elogios a policiais. Algo como o comissário Gordon, do Batman. Como os super-heróis, seus olhos podem ver toda a cidade. Combatendo o crime onde quer que ele aconteça.

Para contrabalançar, a espetacularização dos bandido. A começar pelos nomes: Fernandinho Beira-Mar, Chapolim, Celsinho da Vila Vintém, Ratinho, Lex Luthor?ops, este é só do cinema mesmo. A Globo não se cansa de reprisar o depoimento de "uma pessoa que preferiu não se identificar" (claro) questionando "?como combater sujeitos como o Fernandinho Beira-Mar? Um cara que com um estalar de dedos arruma um carro cheio de dinheiro apenas para fazer um telefonema?"

Por favor, contem outra. Isto é uma forma de esconder os verdadeiros organizadores do crime organizado. Marcinho VP e Beira-Mar não estão com essa bola toda. No mais, o que fazem (como dizem os cariocas) é tirar onda. Os cabeças do narcotráfico permanecem intocáveis.

Confunde-se muito visibilidade com qualidade. É só ver que a popularidade de Sílvio Santos poderia elegê-lo presidente da República (e não passou longe disso em 89); o sucesso de Ronald Reagan em Hollywood o levou à presidência dos EUA; o civil Roberto Marinho tem poder e ares de militar.

Poder e imprensa são vizinhos de parede. Mas não cabe confundi-los, bater em portas erradas. Portanto, não é raro que se empreste açúcar quando falte, ou que se ofereçam bolinhos para ter acesso ao interior da casa. Em menor proporção temos, principalmente nas cidades do interior, mas também nos grandes centros, uma infinidade de radialistas despreparados presidindo câmaras municipais, ocupando cargos de vereador e até de prefeito, com possibilidades de ascensão. Não que radialistas de interior não tenham, como regra, capacidade para ocupar cargos públicos. Mas uma grande parte, na verdade, só faz se aproveitar de sua popularidade e da inocência do eleitor/ouvinte para se eleger.

(*) Estudante de Jornalismo da Universidade de Uberaba (MG)

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