Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Sussuquinha, dissidências e isenção

Por lgarcia em 15/07/2003 na edição 233

CUBA NA MÍDIA

Gustavo Barreto (*)

Pretendo tentar entender, nas próximas linhas, o que ocorre na nossa mídia brasileira, expor fatos, mas não vou entrar mais profundamente em questões políticas.

Na última sexta-feira (11), alguns jornais deram destaque a declarações do embaixador brasileiro em Cuba, Tidden Santiago, defendendo a decisão do governo cubano de executar três seqüestradores de um avião em abril deste ano, o que ele afirma condizer com o contexto de perseguição política dos Estados Unidos promovida incessantemente desde a posse do presidente Bush em 2000. O ex-diplomata americano Wayne Smith, chefe do escritório dos EUA em Havana entre 1979 e 1982, concorda plenamente com ele. (Folha de S. Paulo, 24/5/03]

É bom lembrar: o único cidadão não-estadunidense que, pisando em solo americano, tem estadia e cidadania garantida é o cubano. Por lei. Trata-se da Lei de Ajuste Cubano, existente há 37 anos. Indo para os Estados Unidos, seja roubando um barquinho ou seqüestrando um avião com 100 civis a bordo, um criminoso cubano está absolutamente seguro da impunidade. Qual o sentido diplomático disso?

Se há um país no mundo onde o seqüestro com uma faca na garganta do piloto deve causar indignação e horror na imprensa é nos Estados Unidos. E agora, quando ocorre esse ato em Cuba, com crianças, mulheres, pessoas de idade, os seqüestradores viram "dissidentes políticos", termo utilizado largamente nos principais veículos de comunicação.

A esquizofrenia de nossa imprensa, quando fala sobre Cuba, espanta qualquer estudante de Jornalismo que ouça atentamente os ensinamentos dos mestres. Vejam a frase a seguir:


"A execução de três homens que seqüestraram uma lancha de passageiros cubanos virou assunto internacional. Os dissidentes foram fuzilados em 11 de abril deste ano, nove dias depois do seqüestro." (Tribuna da Imprensa, 11/7/03)


Logo após falar que são seqüestradores (e usar a palavra "seqüestro") ? os três são, contextualizando, os beira-mar, sussuquinha e marcinho vp cubanos ?, a Tribuna da Imprensa os chama, em mudança repentina de palavra, de "dissidentes". Dou cem reais, no ato, a quem achar referência a seqüestradores de avião ? em qualquer dita "democracia" do planeta ? como dissidente. "Sussuquinha, dissidente político de Garotinho, no Rio de Janeiro, fugiu pela porta da frente de um Batalhão da PM nesta quinta-feira", escreveriam no Brasil. Outro fato que assusta é que, ao apoiar esta "dissidência cubana", jornais e TVs estão dizendo que discordar politicamente de um líder inclui, entre outras coisas, seqüestrar aviões. Faz algum sentido?

Isso sim, meus caros, chamo de incoerência.

Mais explicações

A Folha de S. Paulo, bom exemplo de raiva fervorosa quando trata de Cuba, adora usar a expressão "execução sumária de três dissidentes". Deve incluí-la em seu próximo Manual de Redação. A expressão "execuções sumárias" é usada para Cuba muito mais, por exemplo, do que para o Brasil. Vejamos o que a Anistia Internacional pensa sobre isso.

Na fronteira do México com os Estados Unidos ocorrem, todos os anos, 500 assassinatos de pessoas que tentam entrar na terra prometida, cometidos por agentes americanos. São execuções. E são sumárias. Em São Paulo, cerca de 1.500 pessoas foram executadas por policiais em 2001 e 2002, segundo relatório recente. No Rio de Janeiro, cálculos otimistas falam em 1.200 mortes causadas pela polícia no período.

Ora bolas. Apenas no Rio e em São Paulo, temos algo próximo de 2.700 mortes praticadas pelo poder público. Como pouca gente sabe o que significa "sumário" neste contexto, explico: decisivo, rápido, curto.

Pesquisa no banco de dados da Folha de S. Paulo sobre a palavra "execução" e o contexto em que ela aparece: em 2002, quando apenas no Rio e em São Paulo 2.700 pessoas foram executadas sumariamente, a Folha usou a palavra 300 vezes. Nenhuma delas, comprovou a pesquisa, relacionada a Cuba, pois Cuba não executava judicialmente ninguém havia três anos, segundo relatório do Pentágono. Já no Texas tivemos, sim, algumas menções da Folha, mas em menor número do que as 172 execuções a mando da Justiça deste estado americano. A propósito: 172 é o número aproximado de execuções judiciais que Cuba ordenou nos últimos 35 anos.

Em suma: temos na Folha 300 menções em dois anos (2001 e 2002), relacionadas a todo o planeta, período no qual, em bases otimistas, houve 6 mil execuções (estimativa minha). Mas apenas no primeiro semestre de 2003 temos a metade das menções de dois anos. E apenas para um país, Cuba, que executou 3 pessoas ? 2 mil vezes menos.

Entendi. Da próxima vez que qualquer professor meu citar palavras como "isenção" e "imparcialidade" vou pedir mais explicações.

(*) Estudante de Jornalismo da UFRJ e editor da revista Consciência.Net

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