Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Sutis diferenças

Por Maria Izabel Reigada em 05/06/1997 na edição 23

A Gazeta Mercantil de 242/97 trouxe na primeira página, com destaque, a seguinte chamada: “A distribuição de renda está pior que em 92”. Ainda na capa, o jornal afirmava que “a desigualdade de renda (no Brasil) em 1996 está entre as piores de todo o período desde 1980”.

É no mínimo curioso comparar essa reportagem da Gazeta, baseada em pesquisa de Ricardo Paes de Barros e Rosane Mendonça, ambos economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e a reportagem de capa de Veja de 18/12/96.

A revista usou na capa a chamada “O novo milagre brasileiro”, seguida do subtítulo “Com o aumento da renda, o pobre virou consumidor e o fosso social diminuiu”. Afinal, o que acontece com a distribuição de renda no país após o Plano Real?

Sem querer apontar falhas nas matérias da Gazeta e de Veja, ressalte-se apenas a questão do enfoque adotado por cada um dos veículos. É difícil exigir que o leitor entenda essa espécie de “contradição” vinda de duas das mais respeitadas de nossas publicações.

A matéria de Veja faz alarde sobre o aumento de consumo entre as classes mais baixas e diz ser mentira que os ricos estejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres no Brasil. Segundo a revista, os ricos estão no mesmo patamar de riqueza da última década, enquanto as camadas mais baixas da sociedade apresentam elevação no padrão de vida. A matéria afirma ainda que, no entanto, o Brasil continua sendo um dos países com piores perfis de distribuição de renda. E é unicamente nesse ponto que a revista aproxima-se da Gazeta Mercantil.

Os economistas responsáveis pela pesquisa sobre a distribuição de renda não negam o aumento do consumo, mas argumentam que o fim do imposto inflacionário e da indexação, redutores do poder de consumo dos mais pobres, são os causadores do “milagre”, para usar a terminologia de Veja.

É importante voltar, porém, para a questão do enfoque adotado nas matérias. Que tipo de interesses ideológicos ou financeiros circundam a decisão pelo viés a ser seguido? Até que ponto o leitor pode acreditar em chamadas e capas bombásticas, pouco objetivas?

Deve-se ressaltar que ambas as matérias tinham títulos bombásticos, apesar de contraditórios. No entanto, enquanto Veja exalta o aumento do consumo, a Gazeta destaca a péssima distribuição de renda existente no Brasil. Ambas são verdadeiras, mas o que as leva a desrespeitar uma das regras básicas do jornalismo, a de considerar os dois, três ou mais lados de uma questão? A revista deveria ter informado seu leitor sobre o problema da desigualdade, uma vez que consumo e distribuição de renda são questões interligadas. Já a Gazeta não se mostrou disposta a uma análise profunda do aumento do consumo. Em qual dessas publicações o leitor deve acreditar?

GAZETA MERCANTIL

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