Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > CHAT-ROOMS

Tempo escasso para dizer algo

Por lgarcia em 08/08/2001 na edição 133

CHAT-ROOMS

Fabio Leon Moreira

Na semana passada, trafegando por entre as rodovias da cada vez mais insípida internet, descobri que a opção por se informar mediante as vias da interatividade pode se tornar um trabalho árduo que requer o uso redobrado de sentimentos nobres como paciência e compreensão. Quem se aventura a entrar nos chat-rooms (salas de bate-papo) com celebridades promovidas pelos grandes portais da rede mundial de computadores pode ter a desagradável sensação de estar caindo em um conto do vigário. O episódio que ilustra essa constatação aconteceu quando um desses portais providenciou uma "entrevista coletiva" dos internautas com o repórter Fábio Marcos, do programa Domingo Legal, do SBT. Como o convidado em questão funcionaria como uma espécie de porta-voz de um dos mais polêmicos e populares canais de entretenimento dominicais, achei que seria interessante aproveitar o espaço proporcionado pelo site e pautar algumas perguntas.

Feito o cadastro, fiz questão de assinar meu nome de batismo no lugar reservado aos apelidos ou nicknames, como são conhecidos os registros nominais de acesso aos chat- rooms neste universo cibernético. Após esse procedimento é possível ficar na "fila de espera" para que o mediador da sala encaminhe sua pergunta ao convidado. Decidi revelar as minhas intenções a respeito do conteúdo da conversa que se iniciaria, anunciando-me como colaborador do site Observatório da Imprensa, e que poderia realizar uma matéria sobre o debate com o repórter do Domingo Legal. Como não houve resposta negativa dos administradores de rede da empresa, em segundos estava dividindo uma sala virtual com outros 192 internautas. Repito: 192.

Com essa quantidade de pessoas e com um curto espaço de tempo (cerca de uma hora de duração, das 21h às 22h), é impossível atender a tal demanda sem imperfeições. Com certeza, se o internauta não for muito insistente vai ficar a ver navios. Ou seja, sua pergunta vai ser até publicada. Mas daí a ser respondida…. Isso sem mencionar o fato de que todos que compartilhavam aquela situação eram obrigados a ler impropérios impublicáveis sobre a demora do pobre repórter em responder a tantas perguntas. É melhor nem comentar o engarrafamento do sistema.


Embromação constrangedora

Tomei coragem e sem maiores esperanças resolvi fazer a minha primeira pergunta. Após ler algumas delas, do tipo "Você já foi censurado na emissora?" ou "Qual a matéria você mais gostou de fazer?", tentei fugir do óbvio aparente. Optei por me aprofundar na questão filosófica de algumas contradições que envolvem o tipo de jornalismo sensacionalista que o repórter Fábio Marcos faz para o Domingo Legal. Perguntei: pela ótica popularesca do programa, o que ele considera mais dignificante como profissional da imprensa em suas reportagens: emocionar ou informar a audiência e se havia, pessoalmente, posições conflitantes nesse ponto. Mais de 3 minutos se passaram e nada. A única coisa que restava a fazer era assistir passivamente às respostas a outras pessoas, em sua maioria representantes do sexo feminino que elogiavam as "feições simpáticas" do rapaz.

Segunda tentativa. Desta vez tentei perguntar como é trabalhar sob a pressão do ibope e se essa determinação abnegativa em vencer sempre não poderia comprometer a qualidade das reportagens do jornalista. Depois de alguns segundos veio, enfim, uma resposta. Mas que a urgência em responder a todos ao mesmo tempo transformou em frustração. Era algo do tipo "Nós sempre procuramos evitar isso. Eu já trabalhei quase 25 horas ininterruptas, mas amo o que faço". Era apenas um improvisadíssimo clichê, mas resultante de uma pressa compreensível. Pressa que se materializou em somente duas perguntas em quase 40 minutos de conexão via modem. Quando imaginava uma terceira, o repórter já estava nas despedidas e se preparando para ir embora. Tempo muito curto.

O que se conclui é que, por mais democráticas que sejam as intenções de se reunir gente famosa e anônimos pelos teclados de computador país afora, sempre haverá uma impressão de faltar uma correspondência genuína. Esse tipo de serviço ainda carece de agilidade para aglutinar tantos interessados e permitir o livre exercício de construção intelectual de tais contingentes. Torna-se constrangedor constatar a embromação de ter a sua pergunta publicada para os outros internautas, mas não chegar ao conhecimento do destinatário. Saem prejudicados o site, a qualidade dos bate-papos e nós, simples mortais que queremos apenas uma aproximação sadia com os famosos.

    
    
    
                     

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