Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > DOSSIÊ PÓS-GRADUAÇÃO

Terrorismo epistemológico

Por lgarcia em 10/10/2001 na edição 142

DOSSIÊ PÓS-GRADUAÇÃO

Muniz Sodré (*)

Em eco a outras manifestações de colegas, eu gostaria de manifestar a minha estranheza, senão a minha perplexidade, com os resultados da avaliação dos cursos de Pós-Graduação em Comunicação pela CAPES. Friso que não se trata de um sentimento individual nem conduzido por razões pessoais, nem minhas nem, creio, desses colegas. Como disse no início, dou eco a uma posição generalizada e que, sem dúvida alguma, cindiu um grupo de programas até agora voltado para um esforço conjunto de desenvolvimento e promoção da pesquisa na área.

Em primeiro lugar, é incompreensível que os programas fundadores, dotados de corpos docentes realmente qualificados (número elevado de doutores, pós-doutores, publicações, repercussão na comunidade nacional e internacional etc.) e disseminadores de idéias sejam penalizados não apenas por notas inferiores, mas principalmente por processos meramente formalistas. Estes priorizam a aplicação de critérios puramente quantitativos, cujos parâmetros premiam manifestamente a juventude e uma certa improdutividade. Quanto mais novos os cursos, quanto menos alunos recebam por ano, quanto menos dissertações/teses apresentem, mais bem cotados.

Em segundo, consolidam-se "esquecimentos" escandalosos. Por exemplo, a CAPES, como todos bem sabem, estimulou a realização de mestrados interinstitucionais, certamente levando em conta a urgência e a economia na qualificação de cursos sem maior tradição acadêmica. Alguns destes foram tão bem sucedidos que, na avaliação da CAPES, tiveram conceito A, quando o conceito do programa concedente era B (no caso da ECO, convênios com os cursos de Teresina e Santa Maria). De repente, sem mais nem menos, no meio de convênios em andamento, a CAPES declara inconvenientes tais acordos. Está registrado na primeira página de nossa avaliação: "O Programa tem comprometido grande parte da sua dedicação docente a atividades interinstitucionais". Seria cômico, se não fosse sério: sugere-se que se ouça sem escutar, recrimina-se a fidelidade à palavra empenhada, punem-se o trabalho e a produtividade.

Em terceiro, e talvez o mais grave de todos, a avaliação pauta-se por um fechamento disciplinar absurdamente incompatível com todo o avanço transdisciplinar do campo comunicacional. O notável deste campo ? e que faz para ele confluírem pensadores como Vattimo, Habermas, Apel, Derrida, Baudrillard, Bourdieu, o "nosso" Otávio Ianni e tantos outros ? é a sua constituição como "linguagem-ponte" na reproblematização das ciências sociais. Basta ler um "prático" como o economista norte-americano Robert Reich, com seu conceito de "analista simbólico", para dar-se conta de que o profissional de qualquer campo a que aspira o século 21 define-se pela "porosidade" de sua especialização, isto é, pelo trânsito comunicacional de um campo para outro.

A avaliação trouxe novamente para toda a área o enigma que se traduz como "o que é mesmo Comunicação?" Instalou o pânico acadêmico por meio do terrorismo epistemológico herdado da ciência positivista, cujos modelos ideológicos são transplantados das ciências exatas e naturais, precisamente num momento em que estas últimas já estão abandonando o paradigma positivista em favor da abertura interpretativa do real. Comunicação, sabemos, não se resume à disciplina dos estudos de mídia ? é, mesmo, ciência da vinculação social em todas as suas dimensões. É esta a orientação que a Pós-Graduação da ECO imprime a seus cursos, o que para aqui tem atraído estudiosos e pesquisadores das várias áreas das ciências sociais e das exatas.

Em nome disso tudo, faço juntar este desabafo aos dos colegas que expressaram a sua estranheza pelo que se passou e pedir um reencontro sereno, mas sério, para que se rediscutam os processos avaliativos. Abro mão do recurso formal, por sentir que o som não se propaga no vácuo, mas reitero a urgência de discussão com os pares.

(*) Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da ECO/UFRJ

    
    
                     

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