Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > ESPECULAÇÃO NA REDE

The New York Times – FSP

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

E-NOTÍCIAS

ESPECULAÇÃO NA REDE

"Internet cria especulador teen nos EUA", copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 15/01/01

"Como muitos outros investidores, Alexander Danielides ficou encantado com o best seller ‘The Warren Buffett Way’, em 1994. Com base em algumas das técnicas inventadas por Buffett, o legendário investidor, ele triplicou sua carteira de ações da Motorola, investiu na General Electric e está cautelosamente de olho na Compaq Computer e na America Online -Danielides aguarda que os resultados do trimestre passado sejam anunciados para verificar se cumprem as expectativas de Wall Street.

Alexander tem 14 anos; leu o livro de Buffett aos 9. Aluno da segunda série do segundo grau na High School of Science de Nova York, Alexander diz que passa uma hora por noite pesquisando ações na Internet e que assiste com atenção às notícias da Bloomberg Television.

No entanto, comparado a alguns de seus colegas de classe, tem interesse apenas moderado no mercado de ações. Membro da equipe de debates da escola e torcedor fanático do Yankees, ele evita a conversa de corredores sobre as últimas medidas do Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) e operações com informações privilegiadas que regularmente atraem a atenção dos mais de 20 membros do clube de Bolsa de Valores da escola.

‘Não sou desses garotos que ficam entusiasmados quando saem os relatórios de lucros’, diz. O que é mais notável sobre a história de Alexander é o quanto ela é comum.

Ao longo dos últimos cinco anos, a Internet produziu dois novos tipos de especuladores em ações: os operadores diários e adolescentes como Alexander.

Embora o primeiro grupo pareça ter vindo de uma moda que morreu quando as Bolsas começaram a cair, no ano passado, dados fornecidos pela Ameritrade Holdings, uma corretora on line muito querida dos operadores diários, demonstraram que a ascensão nas operações realizadas por adolescentes permanece incontida.

Tornou-se uma parte tão comum da experiência da escola de segundo grau quanto o treinamento de futebol.

‘Não são só os nerds que fazem perguntas hoje em dia’, diz Mitchell Slater, vice-presidente da Merrill Lynch, que dá palestras a cada mês em escolas da região de Nova York para platéias lotadas de alunos da 7ª série à 4ª série do 2º grau. ‘Os atletas, as líderes de torcida, os drogados -todos querem conversar sobre o mercado’.

Cerca de 12% dos adolescentes entre os 12 e os 17 anos possuem ações, hoje em dia, ante apenas 7% dois anos atrás, de acordo com uma pesquisa da Merrill Lynch. Isso redunda em um total de mais de 3 milhões de jovens acionistas nos Estados Unidos.

A maior parte dos jovens investidores retém suas ações passivamente, frequentemente em um fundo de acesso limitado, dizem os especialistas. Mas segmento considerável dos jovens tem operado ativamente por meio de contas pessoais na Internet.

As dimensões desse segmento, no entanto, não são claras. A maior parte das empresas de corretagem eletrônica recusa-se a oferecer estatísticas, ainda que a Datek, a quarta corretora on line em volume movimentado no ano passado, diga que 2% de seus clientes, cerca de 13 mil deles, sejam menores de idade operando por meio de contas aprovadas por seus pais.

Se essa porcentagem for extrapolada para o total de pessoas operando nos mercados de ações, o número de jovens envolvidos pode superar os 200 mil.

É um número considerável, em geral de filhos de famílias afluentes e operando quantias elevadas. Embora a maioria deles disponha de contas da ordem de alguns poucos milhares de dólares, alguns poucos operadores, precoces e bem financiados, têm carteiras na casa dos seis dígitos, de acordo com evidências circunstanciais.

Em comparação, a carteira média de ações dos investidores norte-americanos como um todo era de cerca de US$ 28 mil em 1998, de acordo com a Bolsa de Valores de Nova York.

O fenômeno preocupa alguns psicólogos. ‘Conheço garotos de 16 e 17 anos cujos pais lhes dão US$ 1.000 como se fosse dinheiro para pipocas’, diz Stephen Goldbart, co-diretor do Instituto Dinheiro, Significado e Escolhas, de San Francisco, que organiza seminários sobre como lidar com a riqueza.

Os jovens investidores não precisam mais procurar por conselhos dos adultos. Além disso eles os encontram na Internet. Muitos sites na Web, entre os quais alguns especificamente voltados aos adolescentes, ensinam conceitos de investimento.

Além de oferecer explicações básicas, alguns deles dão instruções sobre técnicas mais sofisticadas e tentadoras, tais como compras no mercado futuro, operações financiadas com ações e até mesmo como evitar impostos comprando títulos municipais.

A imagem das transações em Bolsa por adolescentes não melhorou muito em setembro do ano passado, quando a SEC (Securities and Exchange Commission), órgão norte-americano de atribuições semelhantes às da CVM brasileira, acusou Jonathan Lebed, 15, de Cedar Grove, Nova Jersey, de usar salas de bate-papo na Internet para manipular ações de baixo preço. Para resolver o caso, Jonathan concordou em devolver US$ 285 mil do dinheiro que havia ganho, mais juros. ‘Estou orgulhoso do meu filho’, disse o pai de Lebed na época.

Ainda assim, muitos observadores do investimento por adolescentes consideram que o caso de Jonathan é mais a aberração do que a regra. Eles dizem que a vasta maioria dos adolescentes adota estratégias bastante conservadoras, obedecendo aos axiomas tradicionais de construir e manter, não girar demais a carteira e investir somente naquilo que se compreende.

A primeira ação que Chris Stallman, 17, um aluno da 2ª série do 2º grau em Bradley, Illinois, comprou foi da Walgreen -escolha fácil, considerando-se que o pai dele é farmacêutico na empresa. Isso aconteceu dois anos atrás.

Depois disso, Chris adquiriu ações de sua fábrica de computadores favorita, a Dell Computer, bem como algumas blue chips, como a Merck. No caminho, ele transformou sua conta de poupança de US$ 2.400 em uma carteira de investimentos de US$ 8.000, a despeito da queda do mercado no ano passado e depois de pagar US$ 500 em impostos sobre os seus ganhos.

‘Algumas meninas da escola me pediram em casamento. Elas acham que serei rico’, disse.

O fato de que adolescentes inteligentes como Stallman possam ser levados a sério como investidores deriva diretamente da Internet, que dá a eles a mais preciosa das virtudes: o anonimato. Eles conseguem localizar os mesmos dados -previsões de lucros, relatórios enviados à SEC, relatórios de analistas- que até há pouco eram domínio de adultos bem treinados.

Eles podem fazer perguntas e comentários em salas de conversação e fóruns na Internet e receber respostas sérias. Podem operar tranquilamente sem ter de ligar para uma corretora e ficar com medo de ser identificados como pivetes.

‘Seis anos atrás, nenhum assessor de investimento conversaria com um desses garotos’, diz Ginger Thompson, que em 1999 fundou a Doughnet, um site dedicado à administração financeira para adolescentes."

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