Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > 4.

“This is The New York Times”

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

NOTAS DE UM LEITOR

Luiz Weis

Desde que o NYT escancarou em quatro páginas, na edição de 11/5, a história, decerto ainda incompleta, do aluvião de estelionatos jornalísticos comprovadamente cometidos em dezenas de matérias pelo seu repórter Jayson Blair, profissionais do mundo inteiro (e não só eles) têm se perguntado, antes de mais nada, “como foram possíveis tantas fraudes durante tanto tempo num jornal como esse” ? nas palavras do ombudsman da Folha de S.Paulo, Bernardo Ajzenberg.

O que se segue é uma breve contribuição para a busca da(s) resposta(s). O detonador está na expressão “jornal como esse”.

Baseado em fatos reais, o filme The insider (O informante), dirigido e produzido por Michael Mann, em 1999, reconstitui a dupla batalha do produtor do programa 60 minutes, da rede CBS, Lowell Bergman (Al Pacino). Primeiro, para persuadir o executivo de uma multinacional do tabaco, Jeffrey Wigand (Russell Crowe), a dizer, no ar, que a empresa sabia, por pesquisas científicas que ela própria encomendara e depois engavetou, que a nicotina vicia. Segundo, para vencer as resistências dos chefões da CBS a transmitir a entrevista-bomba com Wigand, que Berman a duras penas tinha conseguido gravar.

Derrotado pela resistência da emissora, um furioso Bergman resolve vazar a história explosiva para o NYT, onde um amigo seu trabalhava. Depois de abrir o jogo, pergunta-lhe quem vai administrar o assunto no jornalão. E as poucas palavras que ouve como resposta valem por um tratado para se começar a entender por que Jayson Blair pôde fazer o que fez durante tanto tempo, sem ser apanhado, numa redação que, só de repórteres, tem 375 ? e, dizem, joga fora ou engaveta todo dia volume de material jornalístico equivalente ao que sai publicado.

? What do I know? ? diz o jornalista do filme, desacorçoado. ? This is the New York Times.

 

Não é força de expressão. No ritmo que a coisa vai, a massa de comentários que se multiplicam na mídia mundial sobre o “longo rastro de logros” deixado por Jayson Blair, como disse em título de primeira página o NYT, dará para encher uma edição inteira do próprio.

Até o World Socialist, publicação eletrônica
do Comitê Internacional da 4? Internacional ? a “Quarta”, como é
conhecido o movimento trotsquista ? entrou na roda. (O link é http://www.wsws.org/articles/2003/may2003/nyt-m12.shtml.)

Em um artigaço de 11.800 caracteres, sob o título “Pânico e histeria reinam no New York Times“, o Pravda da revolução permanente, versão americana, soltou os cachorros em cima da velha dama cinzenta.

O tom geral do texto é que o NYT não tem autoridade moral para desancar o seu ex-repórter (cujo comportamento os trotsquistas condenam, mas tratam de explicar).

E o que merece registro da diatribe são os exemplos pescados pelos autores Bill Vann e David North para provar que coisas muito piores o jornal já publicou ? ou deixou de publicar, de caso pensado. A seleta do World inclui:

1. Nos anos 1930, o correspondente do NYT em Moscou, Walter Duranty, deliberadamente encobriu os crimes de Stalin e defendeu a legitimidade da farsa judicial dos processos movidos pelo ditador contra os seus rivais, com as hediondas conseqüências que o mundo inteiro viria a conhecer. “O Times“, diz o artigo, “ainda mantém orgulhosamente o nome de Duranty entre os seus ganhadores de prêmios Pulitzer”.

2. Durante a segunda guerra mundial, o NYT tomou a decisão de “suprimir a cobertura do Holocausto em que 6 milhões de judeus foram exterminados”. [Para vencer as fortes resistências internas à entrada dos EUA na guerra ? antes de Pearl Harbour, bem entendido, em fins de 1941 ?, os seus defensores de fato trataram de pôr em segundo plano o extermínio, ainda não industrializado, dos judeus nos países ocupados pela Alemanha desde 1939. A idéia era evitar que as pressões em favor do engajamento americano no conflito fossem caracterizadas pelos adversários como uma tentativa de subordinar as decisões da Casa Branca aos “interesses judaicos”. O anti-semitismo era forte na América de então. A política editorial do NYT, um jornal cujos donos eram judeus, traduzia essa preocupação ? o que mais tarde lhe valeria, e ao establishment judaico-americano em geral, críticas devastadoras.]

3. Entre 1999 e 2000, o NYT, numa sucessão de reportagens, acusou o cientista sino-americano Wen Ho Lee de espionagem [veja, abaixo, remissões a matérias sobre o caso publicadas no OI]. Depois de nove meses preso, Lee foi solto sem julgamento porque o FBI não conseguiu comprovar nenhuma das denúncias do jornal. A Casa Branca classificou as matérias do NYT como “reportagens investigativas beirando a histeria”. Nota o artigo que o jornal se limitou a desculpar-se, “a contragosto”, pelas falsas acusações a Lee, e não puniu nenhum dos repórteres envolvidos. [Quando estourou o caso Blair, o episódio, até por ser recente, foi imediatamente lembrado por vários outros críticos americanos de mídia.]

4. A repórter cinco estrelas Judith Miller publicou nos últimos meses várias matérias bancando a existência, ainda não comprovada, de armas de destruição em massa no Iraque. Judith tem ligações com o think-tank pró-israelense Middle East Forum, de ultradireita, que defendia a invasão, não só do Iraque, mas também da Síria e do Líbano. O NYT considerou que essas ligações não violam os padrões de objetividade do jornal.

O Estadão, que já tinha dado uma página inteira à fraude no NYT, um dia depois de o jornal fazer o seu extravagante mea culpa, prestou um favor a todos quantos deploram a desgraça que é, em geral, o ensino do jornalismo no Brasil, ao reproduzir, do mesmo NYT, com o título “Colúmbia aposta em formação intelectual sólida para jornalistas” (18/5, página A 20), a reportagem de Karen W. Aresnons sobre o futuro diretor (a partir de setembro) da Faculdade de Jornalismo da Universidade Colúmbia, em Nova York, Nicholas Lemman [veja, sobre o assunto, artigos na rubrica Diretório Acadêmico, nesta edição].

“Movido pelo que ele gostaria de ter aprendido”, conforme o título original da matéria, Lemann, respeitado quadro da exigente revista New Yorker, com 31 anos de janela, quer que as escolas de jornalismo se dediquem a ensinar menos as técnicas do ofício do que o que se costuma chamar “cultura geral” (a expressão não é dele).

Ele sonha com profissionais que aprendam rápido os macetes necessários para apurar, redigir e editar notícias ? o que, para ser feito como se deve, costuma dar trabalho, mas não é, em si, nenhum bicho de sete cabeças ?; e, muito mais do que isso, saibam coisas como ler uma estatística, entender a diferença entre um vírus e uma bactéria e, principalmente, conhecer quem foi quem, quem disse o que e quem fez o que na história das idéias, nações e sociedades. E bastante literatura, naturalmente.

O curso ideal para Lemann deve ter dois anos “fortemente enraizados na aprendizagem acadêmica”. E, se a essência do trabalho jornalístico está em buscar e contar a verdade (mesmo que se trate de verdade com “v” minúsculo), jornalista à altura do ramo deveria ser aquele capaz de identificar os diferentes critérios de busca da verdade em diferentes áreas da criação humana (matemática, ciências naturais, direito, economia, filosofia, psicologia, religião etc.).

O esquema de Lemann para a escola transmitir as tecnicalidades do métier consiste em um programa de três meses, anterior ao curso propriamente dito, e seguido, no decorrer de dois anos letivos, de aulas práticas em oficinas de redação. Arranjo possível na flexível grade curricular das faculdades americanas.

A ênfase de Lemann em dar aos alunos de jornalismo uma bagagem cultural decente tem lá os seus críticos. É uma concepção muito intelectualizada, dizem eles, como se todos os futuros jornalistas fossem trabalhar nos melhores periódicos da América. Bobagem. Quem vai fazer jornalismo em Colúmbia sonha entrar para a nata da profissão.

O certo é que lá ? e muito mais cá ? a “falta de base” produz desastres de informação em grande escala, a toda hora. Nos Estados Unidos, para citar um único exemplo, um repórter da TV Fox que acompanhava as tropas americanas na invasão do Iraque entrou no ar em dado momento para avisar que as tropas a caminho de Bagdá tinham acabado de cruzar o rio Gânges. Quando o âncora tentou corrigi-lo e esclarecer que o repórter se referia ao Tigre (Tigris, em inglês), ouviu a réplica pelo videofone: “É isso aí. Tigris, Gânges, qualquer um desses rios citados na Bíblia”.

Dois dias depois da bela, bem acompanhada e bem editada sacada do Valor (16/5, página A12) sobre o fato de Lula ainda não ter dado uma única entrevista em 135 dias como presidente da República, a Folha de S.Paulo foi beber da mesma água, ocupando com o assunto três quartos da A 10 (“Lula discursa muito, mas evita a imprensa”).

Nesse período, segundo o Valor, o Planalto recebeu, do Brasil e do exterior, 228 pedidos de entrevista. Para a Folha, foram 222. Mas isso é o de menos.

O de mais é que, só na 67? das 89 linhas de uma das duas matérias (“Comportamento esquivo é opção do presidente”) que escoltam a principal, a Folha creditou o Valor pela primazia.

No passado, periódico brasileiro não publicava o nome de concorrente nem que a vaca tossisse. Quando o furo alheio não podia ser ignorado de jeito nenhum, a saída padrão era apelar para fórmulas como “de acordo com um matutino paulista”, ou, “conforme um semanário” e outras feiúras do gênero.

Mas o passado passou e não há desculpa para a omissão da Folha. Além de justo, seria o supra-sumo da elegância se, no final do primeiro parágrafo da matéria sobre a boca fechada do presidente (para jornalistas), aparecesse o crédito: “O assunto foi levantado anteontem pelo jornal Valor Econômico“.

O fato de, na mesma edição dominical da Folha, a colunista Eliane Cantanhêde ter citado o Valor logo na sexta linha de seu comentário sobre o “medo” de Lula da imprensa não pode ser invocado como circunstância atenuante: a Folha deve uma ao Valor ? e ao leitor.

Às linhas tantas da matéria “PFL e PSDB ainda buscam mote para fazer oposição” (O Estado de S.Paulo, 18/5, página A4), lê-se que “o PFL está de olho no que pode fazer a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy” (que ajude o partido a ficar de bem com o eleitorado).

E continua a reportagem: “Os pefelistas acham que ela pode protagonizar algum escândalo antes de outubro. Seria o ponto mais frágil do PT”. O outubro entra por conta de “pesquisas” que a legenda teria, segundo as quais só então “a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva começará a cair”.

Não há registro na matéria de que o repórter tenha perguntado aos anônimos “pefelistas” a que se referem ? e, no caso, o leitor tem todo o direito de duvidar de que haja mais de um ? e o que os faz crer que a prefeita paulistana vá “protagonizar” um escândalo nos próximos quatro ou cinco meses.

Os “pefelistas” sabem de algo que ninguém mais conhece sobre o governo Marta? Ou apenas gostariam que acontecesse em São Paulo alguma roubada que lhes fosse conveniente explorar?

Por não ter esclarecido devidamente o que se passa na cabeça pefelista quando ela se inclina na direção da prefeita Marta, o repórter protagonizou uma desinformação.

Parabéns à Rádio Eldorado de São Paulo por seguir ao pé da letra o mandamento de que, em matérias sobre atos do poder público (ou de qualquer poder) que afetam diretamente o cidadão comum, o melhor que o jornalista pode fazer é se colocar na pele dele.

Por isso, na cobertura de sábado (17/5) sobre a maior transformação já ocorrida no sistema de transporte coletivo da cidade ? com o cancelamento de 226 linhas de ônibus e lotações, e a criação de dezenas de novas rotas ?, a emissora fez o que a prefeitura aconselhou a população a fazer para se informar sobre as alterações de itinerários e não ser apanhada no contrapé na esperada segunda-feira negra na capital: telefonar para número de serviço 158.

Os ouvintes logo ficaram sabendo do resultado: sinal ocupado em 82 chamadas. Na 83?, finalmente, o 158 atendeu. Ou melhor, ouviu-se, como disse o noticiário, “uma musiquinha”, durante cinco minutos. Depois a linha caiu.

Escândalo é isso ? e não o que o PFL imagina que terá para usar contra Dona Marta.

O colunista Janio de Freitas, da Folha, não gosta do sistema de listas (adotado na grande maioria dos países que elegem seus parlamentares pela fórmula proporcional), na qual o eleitor não vota em um nome, mas no bloco de candidatos relacionados pelo partido de sua preferência para o Congresso, e se elegem, por ordem de precedência na lista, tantos candidatos quantas vagas o partido tiver conquistado, conforme o seu quociente eleitoral.

Até aí, tudo bem. Mas, para justificar a tese de que a lista tende a “não exprimir com nitidez a preferência do eleitorado”, ele deu dois exemplos de políticos ? o presidente do PSDB José Aníbal e o secretário-geral Márcio Fortes ? que, por sua posição na sigla, estariam no pelotão principal de qualquer lista de candidatos tucanos a deputado federal em seus estados e, graças a isso, teriam o mandato assegurado. Ora, argumenta o colunista, no sistema de lista aberta em vigor no Brasil nem um nem outro se elegeu. “O eleitorado paulista”, escreve Janio (18/5, página A 5), “recusou-se a reeleger para a Câmara” José Aníbal.

Coisa nenhuma. O deputado Aníbal não tentou se reeleger deputado. Candidatou-se a senador e perdeu ? numa disputa pelo voto majoritário.

Salvo melhor juízo, manifestações de opinião, na imprensa, como artigos de colunistas e editoriais, só deveriam cair na malha fina da crítica de mídia ou quando for incontestavelmente capenga a lógica da argumentação apresentada para convencer o público (sendo o autor, a publicação e o assunto importantes o suficiente para justificar a glosa) ou quando o texto contém erros de fato ? e esses erros afetam a percepção que o leitor possa ter do assunto tratado.

É o caso do editorial “Os despertos e os adormecidos”, do Estado de S.Paulo (18/5, pág. A 3) , sobre os esforços de Lula para ampliar o leque de apoios políticos aos seus projetos de reforma e a sua queda-de-braço com os chamados “radicais” do partido.

Referindo-se ao abortado documento contra a provável expulsão do PT dos deputados Babá e Luciana Genro e da senadora Heloísa Helena, o editorialista informou que “36 deputados federais (em 72)” tinham assinado o pedido de clemência.

O primeiro dado está certo, o segundo, não: a bancada federal petista tem 92 integrantes, 20 a mais do que o publicado. Saindo como saiu a informação, o leitor que não sabe quantas cadeiras têm na Câmara os principais partidos brasileiros ? ainda mais com o interminável troca-troca de siglas ? foi levado a acreditar que nada menos da metade da bancada do PT quer salvar a pele daqueles companheiros que prometeram votar contra a reforma da Previdência. O que indicaria uma divisão no partido do governo muito mais profunda do que parece.

Já no dia seguinte, porém, o jornal corrigiu o erro ? que só por causa do contexto que se acabou de mencionar pode ter sido importante. A pronta decisão de repor a verdade dos fatos (ou de um número, no caso) foi um sinal de respeito pelo leitor.

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