Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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PRIMEIRAS EDIçõES > *

Thomas Traumann e Beatriz Velloso

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

ELEIÇÕES 2002

“A derradeira chance na TV”, copyright Época, 30/09/02

“O CENÁRIO

? Os quatro candidatos ficarão em pé em bancadas dispostas lado a lado. O mediador será William Bonner

? Os candidatos poderão levar oito assessores, mas eles não terão acesso ao estúdio. A comunicação se fará nos intervalos

AS REGRAS

? Haverá apenas perguntas entre os candidatos. Serão quatro blocos, com 26 minutos

? Dois blocos serão de temas livres. Os outros, de temas predeterminados. Ao final das tréplicas, o mediador poderá pedir mais esclarecimentos

A batalha já tem hora, data e local: às 22 horas da quinta-feira, no Projac, a cidade cenográfica da Rede Globo, no Rio de Janeiro. Lula, Serra, Garotinho e Ciro vão se encontrar para o último debate na televisão, a 48 horas da eleição. Num cenário em que o candidato petista está a um triz de ganhar no primeiro turno, Serra e Garotinho disputam palmo a palmo uma vaga para o segundo turno, e mesmo Ciro ainda mantém esperanças de chegar lá, o debate na emissora de maior audiência do país ganhou ares de hora da verdade. ?Será a última chance para o eleitor se decidir?, diz João Francisco Meira, diretor-presidente do Vox Populi. ?É possível que o debate provoque, por si só, uma virada de 3 a 4 pontos nos índices de intenção de voto.?

De olho nos indecisos, uma fatia de 10% do eleitorado, segundo a mais recente pesquisa do Ibope, as equipes dos candidatos já esboçavam, na semana passada, estratégias de ataque e defesa para o confronto. No caso de Lula, na confortabilíssima situação de quem tem pouco a perder,?a tática é simples?, na definição de José Graziano, um dos principais assessores do candidato petista. ?Se Garotinho subir mais um pouco nas pesquisas, vamos ficar de camarote assistindo à briga dele com Serra para ir ao segundo turno. Se for Lula, vão todos contra a gente?, diz Graziano. O marqueteiro do PT, Duda Mendonça, afirma acreditar mais na primeira hipótese. ?O debate vai definir quem irá para o segundo turno com Lula. Por isso, acho que vai haver um engalfinhamento na disputa pelo segundo lugar?, diz.

Quase emparelhados, Serra e Garotinho sabem que o debate pode se assemelhar a uma disputada corrida de Fórmula 1, em que um erro pode significar a ultrapassagem pelo adversário na última curva na hora de receber a bandeirada final. Espera-se, especialmente, que Garotinho, em ligeira desvantagem e com uma estrutura partidária mais deficiente que a do tucano, jogue todas as suas fichas no debate para virar o jogo a seu favor. Carlos Rayel, marqueteiro do PSB, silencia sobre os trunfos de seu candidato. ?O segredo, nesse caso, é a alma do negócio?, diz Rayel. O ex-governador, por si só, pode ser encarado por Serra como uma ameaça temível. Com a experiência adquirida no rádio, Garotinho é um debatedor ágil, que desfere golpes certeiros. ?No debate da TV Record, desmontei Serra e seu blablablá de criar 8 milhões de empregos?, gaba-se, sem nenhuma modéstia.

*

Serra está preparado para ser o alvo comum dos ataques dos três adversários, como ocorreu na Record. Duda Mendonça, Rayel e Einhart Jácome, marqueteiro de Ciro, vêm trocando figurinhas sobre pesquisas internas e a estratégia do PSDB. O interesse em alvejar Serra – ou mesmo ignorá-lo, concentrando a pontaria em outro concorrente – vai depender do comportamento do eleitor nos dias anteriores ao debate. Se Garotinho tiver crescido como anuncia, será alvejado em sua testa frondosa. ?Está evidente que Serra vai ser atacado por todos os candidatos, mas ele vai estar presente para um contra-ataque perfeito?, diz o líder do PSDB na Câmara, deputado Jutahy Júnior (BA). Nos últimos dias, integrantes do comitê tucano vêm se dedicando a esquadrinhar os 89 temas listados pela emissora que poderão ser objeto de perguntas no debate. Mesmo assim, uma das grandes preocupações do QG de Serra é monitorar os passos de Lula. Teme-se que, na última hora, o candidato do PT repita o comportamento dos primeiros colocados – inclusive FHC – e deixe de comparecer. ?Se ele não for, nós não vamos fazer papel de bobo e receber aqueles dois buquês de flores de presente (Garotinho e Ciro)?, comenta um tucano.

Candidato com maior milhagem em debates presidenciais entre os quatro, Lula dá a receita para um bom desempenho: descanso, descanso e descanso. Na terça-feira, o petista fará o comício de encerramento em São Bernardo do Campo, em São Paulo, e depois passará dois dias se preparando para o programa. Sem nenhum compromisso público, será sabatinado, num ensaio, por uma equipe de assessores. A equipe de Duda filma tudo e avisa Lula se seu tom de voz e suas maneiras estão convincentes e se está franzindo o cenho, o que lhe dá feição de bravo. São 30 pessoas envolvidas na operação. Esse profissionalismo contrasta com a preparação de Lula para o derradeiro debate contra Fernando Collor no segundo turno da eleição de 1989. Lula foi a um jantar na véspera que durou até as 3 horas da manhã, acordou às 6 para ir a Brasília, gravou um programa de TV e só voltou a São Paulo às 17 horas. ?Foi um erro gravíssimo?, confessou Lula a ÉPOCA numa entrevista há um mês. Desconcentrado, nos três minutos finais Lula fez um discurso confuso, dizendo que Collor, em vez de ser um caçador de marajás, era um caçador de maracujás. Como o debate será exibido no último dia de campanha oficial, os candidatos não poderão se valer de seus programas na TV para vender sua versão. Nesse quesito, vão depender basicamente da repercussão na mídia e do boca-a-boca na reta final da eleição para recolher os votos em disponibilidade.”

“Debate dos presidenciáveis na Globo pode ser decisivo”, copyright Folha de S. Paulo, 29/09/02

“O debate da Rede Globo com os quatro principais candidatos à Presidência, que vai ocorrer nesta quinta-feira, está sendo considerado por cientistas políticos decisivo para saber se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencerá no primeiro turno ou se algum de seus concorrentes fará uma grande performance e levará a decisão para o segundo turno. O embate, que será a apenas três dias das eleições, está cercado de tensão. Talvez por precaução, a emissora prefira não se arriscar: decidiu não exibir nenhum compacto do debate em seus telejornais.

A Central Globo de Comunicação (CGCom) nega que a decisão esteja relacionada à edição, feita para o Jornal Nacional, do debate final entre Lula e Fernando Collor, em 1989, acusada de favorecer o então candidato do PRN à Presidência. Se o episódio está superado? Difícil saber. A CGCom se limita a informar que não há nada a ser comentado sobre o assunto.

O fato é que, apesar de nos últimos meses os candidatos terem desfilado suas idéias e opiniões na maioria dos programas jornalísticos, e de já terem se enfrentado em dois debates – Bandeirantes e Record – , o encontro da Globo terá muito mais impacto. Ocorrerá no último dia da propaganda eleitoral gratuita e, depois dele, os candidatos não terão oportunidades para se defender na TV, antes da votação.

Recente pesquisa do Instituto Qualibest indica que 45% dos entrevistados não assistiram a nenhum dos dois debates. A expectativa do consultor político Gaudêncio Torquato é que o confronto atinja cerca de 40 pontos de ibope (1,9 milhão de domicílios só na Grande São Paulo) – bem mais que os 9 e 10 pontos alcançados por Band e Record, respectivamente. ?Com a abrangência da Globo, será fácil para Lula conseguir os cerca de 2 milhões de votos que precisa para ganhar no primeiro turno. Por isso, o debate é decisivo.?

As regras do embate já foram definidas. O mediador será o jornalista William Bonner, que vai controlar por duas horas – com a ajuda de um ponto eletrônico – Lula, José Serra (PSDB), Anthony Garotinho (PSB) e Ciro Gomes (PPS).

Sem torcida – O debate da Globo será parecido com o da Record: não terá platéia e será baseado em perguntas entre os candidatos. E diferente da versão mediada por Márcia Peltier, da Bandeirantes, que, além de conter os ânimos dos entrevistados, teve de dar alguns ?pitos na torcida?. O objetivo, segundo a Globo, é aprofundar o programa de Governo de cada um.

Ao todo, serão cinco blocos, sendo quatro dedicados à discussão, e o último, às considerações finais. O primeiro e o terceiro terão temas determinados pela produção; o segundo e o quarto serão livres. Nos de temas determinados, o mediador vai sortear o assunto sobre o qual será feita a pergunta. Quando o bloco for de tema livre, os candidatos poderão escolher as questões que desejam discutir.

Nas duas situações, Bonner vai sortear o candidato que fará a pergunta. Ele vai poder escolher para quem perguntar, formular a questão e, a partir daí, seguem a resposta, a réplica, a tréplica e perguntas complementares a cada um dos candidatos feitas pelo mediador.

Os pedidos de direito de resposta serão decididos por Bonner e pela direção do Jornalismo da Globo.

Para Torquato, o formato não é dos melhores. ?Quando as perguntas acontecem de candidato para candidato tem muita picuinha. Todos ficam jogando cascas de banana para o outro escorregar?, afirma.

Na quarta-feira, a Globo também vai promover em alguns Estados debates com os candidatos a governador. A mecânica será semelhante à do confronto entre os presidenciáveis. Os dois encontros vão ao ar após a novela Esperança, por volta das 22 horas.”

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