Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > Milton Temer

Ética e os rescaldos da tragédia

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

JORNALISTAS vs. TV GLOBO

Na terça-feira, 18/6, começou a circular no Rio um abaixo-assinado, inicialmente firmado por 24 jornalistas, que pedia providências da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro contra o jornalista Ali Kamel, diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo. O documento considerou "violatória" à ética a forma como Kamel referiu-se publicamente à repórter Cristina Guimarães, que participou com Tim Lopes da matéria "Feira das drogas" (outubro de 2001); e por tê-lo feito "de forma desairosa, colocando em dúvida a honorabilidade da profissional de imprensa e até mesmo as suas qualidades de repórter".

A partir da apuração da matéria, levada a cabo em locais barra-pesada da cidade, a repórter Cristina Guimarães passou a sofrer ameaças de narcotraficantes. Por entender que não recebia a devida segurança por parte da empresa empregadora, Cristina desligou-se da TV Globo e move uma ação trabalhista contra a emissora.

O texto do abaixo-assinado contra Ali Kamel, que logo já circulava na internet, refere-se especialmente a dois episódios: um, seu discurso na manifestação "Onde está Tim Lopes?", ocorrida na Cinelândia, centro do Rio (sexta, 7/6); e o outro, uma intervenção sua no programa Observatório da Imprensa na TV (TVE, TV Cultura e rede educativa, terça, 11/6), ao responder a pergunta de um telespectador. Nos dois momentos, de acordo com a petição, foi "lamentável e imperdoável o que fez o jornalista Ali Kamel na defesa incondicional da TV Globo". Kamel repudia todas as acusações.

A seguir são apresentados a íntegra do abaixo-assinado, a resposta do jornalista da Globo, as manifestações de dois dos primeiros signatários do documento solicitando a retirada de suas assinaturas e, por fim, a transcrição das intervenções de Kamel na manifestação da Cinelândia e na versão televisiva do Observatório. (Luiz Egypto)

À Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2002

Vimos, através desta, solicitar à Comissão de Ética do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro uma tomada de posição relacionada com a postura do jornalista Ali Kamel, diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo, que consideramos violatória do Código de Ética, ao se referir publicamente à repórter Cristina Guimarães, no lamentável episódio do bestial assassinato de Tim Lopes.

Ali Kamel, falando duas vezes (uma em ato público promovido pelo Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro [sexta, 7/6] e a outra no programa Observatório da Imprensa, transmitido pelo canal da TV Educativa na terça-feira, 11/6/2002) sobre a jornalista Cristina Guimarães, o fez de forma desairosa, colocando em dúvida a honorabilidade da profissional de imprensa e até mesmo as suas qualidades de repórter.

Kamel assinalou que só soube que Cristina Guimarães estava sofrendo ameaças de narcotraficantes depois que ela entrou com uma ação trabalhista contra a TV Globo. Insinuou o representante oficial da emissora que ela estava faltando com a verdade e não tinha falado sobre as ameaças com outros colegas, o que não corresponde à verdade. Todos os amigos de Cristina Guimarães sabiam que, depois da transmissão de uma reportagem sobre a venda de drogas no complexo do Morro do Alemão, Mangueira, Rocinha e ruas da Zona Sul do Rio, ela vinha sendo ameaçada por narcotraficantes.

Os telespectadores ficaram apenas com a versão de Kamel, o que afeta a imagem da repórter diante da opinião pública, fato que, sem dúvida, poderá prejudicá-la profissionalmente, isto, claro, quando ela puder retornar às suas atividades no mercado de trabalho. Como se sabe, Cristina Guimarães vive escondida desde que passou a receber ameaças dos traficantes, no final do ano passado. Ela pediu, e não obteve, proteção, por parte do empregador, a TV Globo, que lhe caberia como profissional integrante dos quadros da emissora. Se seguisse o que a Globo queria em termos de "fantásticas" matérias, possivelmente teria o mesmo destino de Tim Lopes.

Como se não bastasse, o jornalista Ali Kamel desqualificou profissionalmente Cristina Guimarães, ao afirmar que ela teve papel secundário na reportagem sobre a venda de drogas. A reportagem premiada foi feita em trabalho de equipe que contou com a participação efetiva da repórter investigativa Cristina Guimarães. Além do mais, é muito estranho que um diretor de jornalismo da Globo desconheça que um veículo de comunicação só trabalha em equipe, isto é, todos os participantes são fundamentais. Até porque, sem produção não se consegue fazer matérias, ainda mais do tipo realizada em áreas onde se vendiam drogas escancaradamente.

Consideramos lamentável e imperdoável o que fez o jornalista Ali Kamel na defesa incondicional da TV Globo. Kamel feriu o Código de Ética dos Jornalistas, em vigor desde 1987, após ser votado em um Congresso de Jornalistas. O Código é claro no tópico II referente à "Conduta profissional do jornalista", que em seu artigo 14 item "b" exige "tratar com respeito a todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar". Ali Kamel, como já foi dito, infringiu duplamente o Código de Ética, que é muito claro em seu artigo 19: "Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética ficam sujeitos gradativamente às seguintes penalidades, a serem aplicadas pela Comissão de Ética", eleita para esse fim. E no item "a" dispõe as seguintes sanções: "Aos associados do Sindicato, de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do Sindicato". O item "b" assinala o seguinte sobre as penalidades: "Aos não-associados, de observação, advertência pública, impedimento temporário e impedimento definitivo do ingresso no quadro social do Sindicato".

Face ao exposto, solicitamos que seja convocada em caráter de urgência a Comissão de Ética do Sindicato para apreciar a referida matéria e o enquadramento do jornalista Ali Kamel, que terá, evidentemente, todo o direito de defesa, como dispõe o Código e os preceitos democráticos que regem os jornalistas.

Este abaixo-assinado será encaminhado à Federação Nacional dos Jornalistas para que sirva de subsídio a uma tomada de posição da entidade em relação ao triste episódio.

 

Ali Kamel (*)

Compreendo que os signatários da carta ao Sindicato dos Jornalistas tenham sido levados pela boa-fé, acreditando na palavra de um colega que, no entanto, mentiu, distorceu os fatos, com um objetivo que até aqui não posso alcançar. Foram enganados por este colega.

Enviei a este Observatório, ao Sindicato dos Jornalistas e a três signatários da carta (Ana Arruda Callado, Milton Temer e Procópio Mineiro), meu relato contando toda a verdade e duas fitas de vídeo ? a primeira com o meu discurso na Cinelândia e a segunda com a minha participação no programa da TVE. As fitas falam por mim e estão à disposição de quem queira vê-las. Elas deixam claro que em nenhum momento fui desrespeitoso com Cristina Guimarães. Ao contrário, disse várias vezes que ela merecia todo o nosso respeito e que a participação dela na matéria "Feira das Drogas" foi essencial, porém curta. O Sindicato se pronunciará em breve. Tenho certeza de que vencerá a verdade. 

Na sexta-feira, recebi também cartas de Ana Arruda Calado e Milton Temer, que ofereço para publicação. Elas dizem tudo. Não pretendo continuar a polêmica. Ela serve apenas a interesses menores. Em respeito ao Tim, pretendo apenas continuar engajado totalmente nos esforços dos muitos colegas jornalistas para que, juntos, encontremos formas de continuar o nosso trabalho mesmo diante do novo patamar a que chegou a violência no Rio.

(*) Diretor-executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo

 

Ana Arruda Callado

Rio de Janeiro, 21/6/2002

Para: Nacif Elia Sobrinho, Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Município do Rio de Janeiro.

Caro presidente. Foi com grande constrangimento que li o documento em que alguns jornalistas pedem o enquadramento de Ali Kamel pela Comissão de Ética deste Sindicato. Meu constrangimento deveu-se ao fato de que, no intervalo de uma tensa reunião na ABI, ter dito a alguém ? que insistia muito ? que podia incluir meu nome no tal documento. Não o li na ocasião ? e não teria tempo para isso ? e nem o assinei. Mas, confesso, dei essa irresponsável autorização.

Em casa, e de posse de informações novas, verifiquei que não existe nenhuma evidência de que o jornalista Ali Kamel tenha se portado mal no episódio citado e que não é verdade que ele tenha "desqualificado" Cristina Guimarães.

Por tudo isso, venho pedir que retire meu nome da petição que lhe foi encaminhada. Ana Arruda Callado

Milton Temer

Rio de Janeiro, 21/06/2002

À Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro

Fundado em informações de colegas e amigos a quem dedico confiança, assinei pedido de investigação contra o jornalista Ali Kamel, da TV Globo, por referências públicas desairosas à repórter Cristina Guimarães.

De posse das fitas com as gravações das declarações do referido jornalista ? tanto no Observatório de Imprensa, quanto no Ato Público em solidariedade ao nosso saudoso Tim Lopes ?, passo a fazer outro juízo de valor sobre o episódio que gerou a denúncia.

Não concordo absolutamente com a denúncia, embora não tire de outros o direito à sua avaliação subjetiva. Não ouvi, nas intervenções de Ali Kamel, nenhuma referência pejorativa ou depreciativa ? até pelo contrário ? à nossa colega Cristina Guimarães.

O que pude constatar foi a divergência com respeito ao conhecimento, ou não, que Ali Kamel pudesse ter das ameaças contra Cristina. O que, evidentemente, não implica atentado à ética jornalística.

Nesses termos, solicito a retirada da minha assinatura no documento que provoca
a investigação contra o jornalista, a quem, publicamente, peço
desculpas pelo não cumprimento da regra básica do bom exercício
da profissão ? ouvir as partes envolvidas, antes de dar por finda a execução
de uma tarefa. Atenciosamente, Milton Temer (deputado federal do
PT-RJ e Conselheiro da ABI)

 



Na manifestação "Onde está Tim Lopes",
no Rio [7/6], o jornalista Osvaldo Maneschy discursou
acusando a Globo de ter recusado segurança a Cristina
Guimarães, uma inverdade. César Seabra, editor
regional do Rio da emissora, respondeu dizendo que aquele não
era o fórum para discutir o assunto, mas um momento de
união e de homenagem a Tim Lopes. Ali Kamel toma
a palavra, diz que concordava, aquele de fato era um momento
de união,mas acrescenta que, mesmo respeitando a colega Cristina Guimarães,
não poderia se calar, porque seria uma omissão. E disse o
seguinte:


"Tenho por obrigação dizer aqui para o Maneschy que basta ele conversar com os colegas da redação, com o produtor, que desempenha uma função nobre, porque todos nós começamos na escuta telefônica, e esse é um dos principais pontos de entrada das grandes notícias da redação. Então, desde o rapaz que está fazendo a escuta na TV Globo, à alta direção da TV Globo, às chefias, todos eles poderão dar a versão da empresa. Infelizmente a versão da empresa não coincide em nada com a versão da repórter Cristina Guimarães, que, repito, merece aqui todo o nosso respeito. Ninguém da chefia imediata dela, nenhum colega que senta ao lado dela, nunca soubemos que a Cristina Guimarães tenha sofrido qualquer ameaça após a participação essencial, porém curta e episódica, no grande Prêmio Esso recebido pelo repórter Tim Lopes ? este sim, autor da matéria. A Cristina Guimarães nos mandou um e-mail da sala do seu advogado, usando o e-mail do seu advogado, pedindo o desligamento na Justiça da TV Globo. Foi neste dia, foi nesta hora, que a TV Globo soube que ela se dizia ameaçada. E por decisão do juiz, e não por decisão da TV Globo, mas por decisão do juiz, a Cristina foi desligada. Porque ela pediu o seu desligamento e uma série de outras reivindicações que o juiz, sem que TV Globo tivesse tido acesso ao processo, considerou exorbitantes. Só concordou com o desligamento unilateral dela, e isso foi feito.

E só para concluir, a bem da verdade, como todos nós dissemos aqui, eu estou pondo a minha cara, eu estou pondo a cara dos jornalistas da TV Globo, que é uma empresa jornalística que tem prestado enormes serviços a esse país, com todos os erros que todos os jornais, todos os seres humanos cometem no dia-a-dia dos seus trabalhos. Eu desafio então, aqui, os jornalistas presentes: telefonem, assim que chegarem, para nossa redação e apurem o que de fato aconteceu. Até agora a TV Globo, muito constrangida, estava em silêncio, mas eu, diante do que o companheiro Maneschy aqui falou, não posso me calar. A Cristina merece todo o nosso respeito. Nesse país ainda existe uma Justiça, por mais críticas que aconteçam. E esse caso será esclarecido na Justiça. E a verdade virá porque só existe uma.

No caso do Tim Lopes, desde o primeiro instante em que soubemos do episódio, a decisão nossa, do César, do Schroder, de todo mundo que partilha do dia-a-dia do trabalho jornalístico foi dizer: nós somos jornalistas, nós vamos dizer toda a verdade e vamos buscar toda a verdade. E o que fica dessa manifestação maravilhosa, que as pessoas estão aqui, repórteres, jornalistas, cidadãos, políticos e indivíduos comuns, é uma coisa só: nós não vamos descansar enquanto não apurarmos o que aconteceu com o Tim Lopes.

Marcelo Beraba, da Folha [de S.Paulo], disse uma coisa muito importante: os jornais do Rio de Janeiro, em especial os jornalistas do Rio de Janeiro, não podem abandonar aquela favela. Aquilo ali é um bairro popular, todas as ruas ali são asfaltadas e pavimentadas. Os trabalhadores que lá moram são decentes. A TV Globo estava lá a pedido de muitos moradores porque viam suas filhas participando de bailes onde havia sexo explícito e consumo de drogas. Um baile não-clandestino ? não era uma orgia privada de traficantes e bandidos. Ali o que havia era uma festa pública, com barraquinha e até cobrando ingresso, com mais de mil pessoas participando.

Será um acinte a esse estado, a esse país, aos jornalistas e
principalmente ao Tim Lopes e a família dele, que ele ainda há
de voltar, se houver algum baile funk lá nesse domingo. Então
eu peço: a gente tem uma obrigação, que é manter
os nossos olhos abertos para o que lá acontece. A TV Globo fará
isso com as cautelas de sempre, mas fará. E o que eu peço é
que todos nós façamos. Obrigado."

 


No programa Observatório da Imprensa (rede pública de TV, 11/6/02), a apresentadora Lúcia Abreu dirige a Ali Kamel a seguinte pergunta de uma telespectadora de Campinas: "Como a Rede Globo se posiciona em relação a Cristina Guimarães?"


Ali Kamel ? Esse é um assunto que a gente fala com
um certo constrangimento, por ela, e não pela TV Globo. Mas
acho que agora chegou o momento de esclarecer de uma vez por todas
o que aconteceu. Antes, um preâmbulo. A TV Globo teve que
dar segurança privada para 22 pessoas ao longo de 2001, no
Rio de Janeiro apenas. Em São Paulo, foram 15 pessoas. A
TV Globo não tem por que não dar segurança.
É absurda a idéia de que nós releguemos alguém
à insegurança. O que se passou é que Cristina
Guimarães, em nenhum momento, comunicou que se sentia sob
risco a um colega seu que senta ao lado, a um colega seu que senta
adiante, à chefia imediata de reportagem, à chefia
de redação, à direção, a mim,
a ninguém. No dia 12 de novembro [de 2001], o Carlos
Henrique Schroder, diretor da Central de Globo de Jornalismo, recebeu
um e-mail dela dizendo que ela já tinha tentado de tudo e
que recorreria a ele para então pedir segurança. Na
boa-fé do Schroder, ele encaminhou esse e-mail a mim e ao
César [Seabra], que é o editor da [regional]
Rio, e disse assim: "Vocês sabiam disso? Dêem seqüência".

Só que ela mandou esse e-mail já do escritório do seu advogado. Já tinha entrado, quatro dias antes, com uma medida cautelar pedindo o afastamento imediato e unilateral da TV Globo e mais uma série de reivindicações trabalhistas que ? por pudor aqui eu não quero mencionar; e que ela mencione, se assim o desejar ?, e o juiz entendeu que todas eram indevidas, menos uma: o desligamento unilateral. Mesmo assim, a TV Globo, que não tem interesse nenhum em deixar ninguém sem segurança, mas tendo sido proibida pelo juiz de dar segurança, já que ela não era mais funcionária, eu liguei pessoalmente para o dr. Josias Quintal [ex-secretário Segurança do governo Anthony Garotinho], comuniquei o fato ? uma, duas, três vezes ? e a Cristina Guimarães não aceitou a segurança da polícia. Eu tenho aqui [os documentos]. Por cautela, oficiei por escrito ao Josias Quintal dizendo que ela continuava se sentindo em risco, e pedindo para que a polícia tomasse as devidas providências. O retorno que eu tive da antiga administração é que ela não aceitou.

Agora eu faço aqui um apelo público, aos colegas jornalistas da Cristina Guimarães e ao sindicato [dos jornalistas do Rio], que, por favor, convençam-na, no exterior ou aqui, onde quer que ela esteja, que, por favor, aceite a proteção do Estado, se ela está em risco. É só isso. A TV Globo, desde o primeiro instante, comunicou a quem de direito ? que é o poder público deste estado ? que ela se sentia sob risco. Por escrito.E recebemos resposta também por escrito. É isso.

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