Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Ética, futebol e espetáculo

Por lgarcia em 05/09/2000 na edição 97

Carlos Vogt

O governo federal, na linha de fixar uma agenda positiva que o tirasse da imobilidade assustada a que o denuncismo o vinha reduzindo, decidiu, em boa hora, instituir um Código de Ética que deverá pautar o comportamento dos agentes e autoridades dos três poderes.

Com isso, ganhou, na imprensa e na mídia, o espaço que vinha sendo ocupado por ele próprio, mas com sinal invertido, o mesmo ocorrendo no plano político. Até a oposição, embora lamentando o não-reconhecimento pelo presidente da paternidade da idéia que a ela pertenceria, declarou-se a favor da medida e da lei que a regulamentará.

Não era sem tempo.

A indigência ética de nosso tempo, de que nos fala Heidegger, tem chegado a extremos de dissolução em países em que o seu agravamento é potencializado, de um lado, pelo fenômeno da exclusão social e, por outro, pela sistematicidade da alienação a que vem sendo submetido o ser no mundo.

Fora de lugar

No Brasil, como em outros países periféricos, esse processo tem mostrado um poder corrosivo tanto mais preocupante porque conta, muitas vezes, com o concurso de autoridades assanhadas pelo poder e pelas fortunas que ilegitimamente ele propicia; conta também com o desempenho duvidoso de pessoas que, embora não sendo funcionários públicos stricto sensu, têm funções públicas, cuja exemplaridade, positiva ou negativa, afeta toda a população.

O Código de Conduta instituído pelo presidente deveria, neste último caso, estender-se ao que vem ocorrendo com a Seleção Brasileira e com a alta rotatividade das convocações feitas pelo seu treinador e pelos dirigentes da CBF.

Se a "concentração da Seleção Brasileira virou um balcão de negócios no últimos dois anos", como escreve e noticia o jornal O Estado de S. Paulo (25/8/2000, pág. E3), alguma coisa está fora de lugar: o futebol, os negócios, ou ambos, se a forma de fazê-los não for condizente com os objetivos da convocação do time dos times e de sua força simbólica mobilizadora das atenções nacionais.

Ethos do capitalismo

A CBF não é entidade pública, os seus dirigentes e o técnico da Seleção não são funcionários públicos e tampouco os seus jogadores, mas as suas atividades são de interesse público inegável.

É claro que o que se passa com o futebol tem muito a ver com o que vem ocorrendo em todos os setores da vida social, num mundo globalizado e cujo capitalismo, cada vez mais, tem a avidez competente e neutra da apropriação de toda a criatividade humana, nas ciências, nas artes, nas tecnologias, e sua transformação exclusiva em valor econômico.

E porque essa orientação para a criação de valor econômico é parte constitutiva do ethos do capitalismo global, e porque as tecnologias da informação sustentam a velocidade dos ciclos de produção, encurtando a distância entre capital, mercadoria e lucro, reduzindo a tensão clássica entre capital e trabalho a quase um acidente do processo, é que o conhecimento vê-se, ele próprio, empacotado como a mercadoria das mercadorias, no templo sagrado do consumo e da banalização da existência.

E aí ninguém segura: educação é negócio, solidariedade é negócio, prazer é negócio, dor é negócio, diversão é negócio, futebol é negócio e tudo é espetáculo. Ninguém faz pelo outro; todo mundo faz para o outro do outro, que é ele mesmo.

Vazio do ser

De fato, como escreve Gilberto Dupas no sugestivo Ética e poder na sociedade da informação (São Paulo, Ed.Unesp, 2000, pág. 59), "a vida nas sociedades contemporâneas se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente torna-se uma representação. Sob todas as suas formas particulares – informação ou propaganda, publicidade ou consumo de divertimentos –, o espetáculo constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade. A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou uma degradação do ‘ser’ para o ‘ter’. Em seguida, operou-se um deslizamento generalizado do ‘ter’ para o ‘parecer-ter’.

Na atual situação das grandes massas excluídas da sociedade global só resta ‘o identificar-se-com-quem-parece-ser-ou-ter’ por meio do espetáculo, sequer ao vivo, mas ‘visto-a-distância’ através das mídias globais que lhes oferece exibições instantâneas de todos os tipos e partes do mundo."

A tarefa de edificação de uma Ética e de uma Filosofia Moral, nessas condições, é um desafio sem precedentes na história ocidental, dado que a errância do ser, de que nos fala o existencialismo, espalha-o em fragmentos que o confundem com os objetos – simulacros da realidade – e o oferece como espetáculo de sua própria dispersão. Sem uma identidade consistente do ser, é impossível o dever-ser, donde a dificuldade, tantas vezes apontada, de uma nova Ética para a chamada pós-modernidade e para a ausência de estilo, ou – o que dá no mesmo – a presença de todos os estilos, que a caracteriza. Todos é nenhum. E como o estilo é o homem, na máxima machadiana, o vazio de estilo é também o vazio do ser e de suas manifestações no homem.

Que seja didático

Por isso, o Código de Ética, que o governo tenta estabelecer como referência para a conduta dos homens públicos, encontra obstáculos que se apresentam estruturalmente ligados ao tempo em que vivemos e à sua sociedade. No caso do Brasil, eles são potencializados pela cultura do oportunismo e pelo baixo índice de institucionalização das relações sociais.

Ainda assim, o gesto é importante e deveria, como disse, estender seu significado também a todas as atividades de interesse público, mesmo as não-oficiais, como é o caso do futebol.

Tomara que o Código de Ética do governo não seja ele próprio uma representação, um espetáculo de simulacros de boa fé e de boas intenções e produza efetivamente os efeitos alardeados pelos atores que nele desempenham os papéis de moralizadores da conduta pública. E que, em havendo espetáculo, como é inevitável que haja, que ele seja bom e didático nas situações que dramatiza: ensine, divertindo e divirta, ensinando.

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