Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PRIMEIRA FUSÃO

Todos cresceram e ficaram piores

Por lgarcia em 22/01/2003 na edição 208

PRIMEIRA FUSÃO
(*)

Alberto Dines

(*) Copyright Exame, novembro de 1996, com o subtítulo "A fusão da Warner com a Time converteu-se em um caso clássico de despersonalização empresarial"


Até o Fim da Time ? Sedução e Conquista de um Império da Mídia, de Richard M. Clurman, 474 pp, tradução de Elena Gaidano, Editora Civilização Brasileira, Rio, 1996.


Qual a natureza do nosso negócio? Em que ramo estamos metidos?

Este par de perguntas "existenciais" está em vias de converter-se na chave do sucesso empresarial numa época em que a velocidade das mudanças econômicas e tecnológicas torna imperioso a psicanálise em movimento ? definir no meio da corrida a sua identidade antes mesmo de estipular a estratégia para desenvolvê-la.

Este questionamento deu-se com as ferrovias americanas quando escaparam do abismo ao perceber que o seu negócio não se resumia a operar trens mas envolvia algo maior, o transporte. As empresas de aviação também descobriram que o seu ramo não era apenas transportar pessoas e cargas por avião mas abarcava o negócio de viagens que inclui cartões de crédito e turismo (algumas ampliaram seu escopo de tal forma que chegaram ao negócio do jogo, através de caça-níqueis instalados nos aviões que fazem a rota do Atlantico Norte).

Para alguns, o processo chamado genericamente de globalização não passa de um conjunto de velozes avaliações "ontológicas" (referentes ao ser e não ser) onde os grandes são fatalmente empurrados para extrapolar das suas configurações originais enquanto os pequenos e médios são compelidos a confinar-se às segmentações de objetivos e escala. O destino de uma empresa muitas vezes independe dos recursos de que dispõe mas das opções e da hora em que as faz.

Até o Fim da Time seria uma trepidante reportagem sobre o mundo da reportagem não fosse o movimento interno do próprio assunto ? está mais para um filme sobre o mundo do cinema. Ou da especulação financeira.

É o retrato da vertiginosa metamorfose do império jornalístico Time-Life no gigantesco conglomerado de entretenimento chamado Time Warner Inc. O protagonista deveria ser Henry Robinson Luce, considerado em seu tempo o homem mais poderoso dos EUA depois dos presidentes, jornalista puritano e inovador, filho de um pastor evangélico que passou parte da sua vida na China e, na volta, depois de Yale, concebeu e/ou celebrizou três pilares da imprensa contemporânea ? a revista semanal de informações (Time), o quinzenário fotográfico acompanhado de grandes textos (Life) e o mensário refinado sobre economia e negócios (Fortune).

No livro, o legendário Luce é apenas um retrato na parede, lembrança dos velhos e bons tempos. A cena é roubada pelo esfuziante novaiorquino Steven J. Ross, ("um ET com 1,90 de altura", diz dele o amigo e ex-vizinho Steven Spielberg) e cuja carreira começou na empresa do sogro ? agência funerária.

Depois, tal e qual o emblemático personagem hollywoodiano criado por Budd Schulberg (What Makes Sammy Run?) saltou para o aluguel de limusines, estacionamentos, limpeza de prédios, segurança, construção, revistas em quadrinhos, distribuição em bancas, aluguel de câmaras profissionais de filmagem, banco, livros de bolso, informática, agência de talentos em Hollywood e, finalmente, o sonho dourado ? a produção de filmes.

O alucinado conglomerado tinha 160 empresas de prestação de serviços até o momento em que Ross, the Boss, comprou a então decadente Warner e restaurou a sua glória.

A mais conhecida empresa jornalística dos EUA (outro emblema americano desta vez no campo dos distintos) e cujo negócio sempre foi news, noticias e informação ? matérias-primas altamente sofisticadas ?, depois da morte de Luce fez a dramática opção pela verticalização, deu o salto para o alto. Mudou de ramo e de quilate. Seduzida pela miragem da quantidade, abriu mão do selo de qualidade ? entrou no negócio do circo.

E no picadeiro valem apenas as leis do picadeiro. Circus Maximus, foi como designaram a fabulosa fusão, operação jurídica, financeira e psicológica alimentada pela fogueira de vaidades e vulcões de cobiça que se acendem por combustão própria quando se juntam o poder da mídia com os cifrões do entretenimento.

Tudo ao som da dança macabra da falta de escrúpulos. Inevitável em jogadas deste porte. Aconteceu de tudo: fulminantes ascensões, humilhantes defenestrações e, sobretudo, comissões e prêmios de milhões de dólares cobrados pelos altos executivos envolvidos na transação e arbitradas pelos próprios sem consulta aos acionistas. Momento supremo do capitalismo sem capitalistas, friforó empresarial à altura de um velho western classe B da própia Warner.

O espetáculo ainda não terminou, continua hoje nas manchetes e, certamente, por muito tempo ainda, porque banquete com tais ingredientes só pode atrair comensais da estirpe de Murdoch, Turner e Mike Milken, o inventor dos junk bonds.

A fusão da Warner com a Time-Life converteu-se num caso clássico de despersonalização empresarial: a empresa adquirida (Warner) dominou os adquirentes (Time). Todos cresceram e todos ficaram um pouco piores. A diversificação incontrolada afetou a matriz, corrompeu a sua grife e alterou a natureza dos seus produtos.

Se ocorresse no ramo de biscoitos, salsichas ou no funerário as conseqüências seriam limitadas. A General Motors já se aproximou da Volkswagen e, em seguida, se afastou. A Ford já produziu pneus, deixou de produzí-los e isto não afetou a maneira como a sociedade americana era formada e informada. Aqui, o negócio jornalístico (com responsabilidades políticas, função social e garantias constitucionais) foi tragado por um dos assuntos da pauta jornalística. E, seguramente, não o mais puro.

Vale a pena aventurar-se pelos meandros desta história. Algumas das suas consequências breve nos afetarão embora estejamos na outra ponta do processo ? graças ao artigo 222 da nossa Constituição, condenados à concentração da mídia em empresas familiares, impossibilitadas de se capitalizar e expandir-se como o fazem seus anunciantes (salvo aquelas que entraram no circuito eletrônico).

Texto ágil (o autor, Richard M. Clurman, do grupo Time-Life, depois do que testemunhou, tornou-se um dos vigilantes dos padrões jornalísticos americanos). O título em português é infeliz, repousa na remissão gráfica ao logotipo da revista e num enorme subtítulo. Tradução competente, faltou compatibilizar para o jargão profissional brasileiro alguns termos americanos ? editoração, por exemplo, usa-se para o ato de preparação de um texto ou livro, não se aplica à razão social de uma empresa.. Um índice remissivo ? em geral abominado por nossos editores pelo custo extra ? faz falta num livro que além de fascinar será certamente fonte de consulta.

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