Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > TV FOFOCA

Tom Cardoso

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

PERFIL / MAX NUNES

“Faça humor não faça guerra”, copyright Valor Econômico, 14/02/03

“Max Nunes, 80 anos, não é apenas um bom contador de histórias: protagonizou boa parte delas. Como aquela em que dividiu o palco com ninguém menos do que Noel Rosa, seu vizinho em Vila Isabel. Ou do dia em que invadiu o campo do América junto com Lamartine Babo para bater no juiz (a tarefa ficou mesmo para Lamartine). Ou quando, em plena ditadura militar, procurado por um executivo da Petrobrás – irritado com uma crítica do humorista à estatal e principalmente com a dificuldade em achá-lo -, tranqüilo, respondeu: ?Se vocês não conseguem encontrar uma figura como eu, como vão achar petróleo no fundo mar??

?É bom não me provocar?, brinca Max. O humorista, criador do programa ?Balança, Mas Não Cai?, que fez história na Rádio Nacional e depois na TV Globo, emissora na qual ainda empresta sua sagacidade como redator do ?Programa do Jô?, comandado por Jô Soares, é um frasista incorrigível, brilhante.

São dele bordões famosos (?Tem pai que é cego?, ?Não me comprometa?) e frases espirituosas, como ?Marido e mulher só olham na mesma direção quando a TV está ligada?, ?Os homens mentiriam muito menos se as mulheres fizessem menos perguntas?, ?Sou saudosista, sim, do tempo em que a mulher nascia com um nariz e ficava com ele até o fim?.

Max já desmoralizou desafetos usando apenas um punhado de palavras. O amigo Mário Lago (morto no ano passado) gostava de contar uma história que ele testemunhou nos bastidores da Rádio Nacional. Um famoso autor de radionovela, provavelmente enciumado com o sucesso do humorista, provocou: ?Max, eu ouço seus programas e não consigo rir nem um pouquinho.? Ouviu, de bate-pronto: ?Curioso, eu ouço as suas novelas e tenho rido bastante?.

?O próprio Mário Lago já sofreu com uma safadeza minha?, confessa Max. ?Ele sabia que eu tinha sido vizinho do Noel, do show que fizemos juntos (cantaram ?Vai para Casa Depressa?, no Festival da Light, dirigido pelo seu pai, o jornalista Lauro Sarno Nunes) e aproveitei para inventar que tinha guardado uma música inédita do Noel?. Entusiasmado, mas desconfiado, Mário Lago pediu para ver de perto a tal preciosidade. Max agiu depressa. Aproveitando a melodia de uma canção desconhecida de Noel, compôs, em poucos minutos, a seguinte letra:

?Copacabana, terra onde a banana já perdeu a sua vez/ Não é preconceito, o grande defeito é ninguém saber direito/ Como é banana em inglês/ Caldo de cana perdeu cartaz/ O grape-fruit cada vez aumenta mais/ Seu Zé, que é bom vendedor/ E que quer ganhar dinheiro/ Vai de avião fazer curso no estrangeiro?. ?O Mário achou que a letra era de Noel, nem sei se morreu sem saber a verdade, não me lembro.?

Max não compunha apenas por brincadeira, apesar de não se considerar compositor. ?Eu fiz 36 revistas teatrais e tinha, obrigatoriamente, de escrever canções. Algumas delas eu gravava, mas nunca levei a música muito a sério. Outro dia um sujeito disse que gostava muito de uma canção minha, ?Telefone de Brotinho? (parceria com Maurício Scherman e João Roberto Kelly), gravada pelo Jorge Ben, mas eu nunca tinha ouvido essa música! Provavelmente, dei uma idéia ou outra e colocaram o meu nome?.

Em meados dos anos 70, o telefone de Max tocou. Não era o brotinho. Era Dalva de Oliveira, a ?Rainha da Voz?, que desde a tumultuada separação de Herivelto Martins, vinha alternando bons e maus momentos na carreira. ?Ela queria uma marcha de carnaval. Fiz ?Bandeira Branca? (que acabou se tornando o maior sucesso de Dalva). Jamais imaginaria que a música fosse virar tão popular, achava até que seria vaiada logo na primeira interpretação?, confessa Max. ?Essa canção me persegue, sou o típico compositor de uma música só.?

Sua contribuição como humorista é muito mais fértil e profícua. Tem cara, jeito, cacoete para a coisa (leia poemas inéditos na pág. 20). Quando, junto com Haroldo Barbosa, bolou o ?Balança Mas Não Cai?, nem ele, muito menos a Rádio Nacional imaginavam que o programa iria mudar o jeito de fazer humor no Brasil. Levado ao ar pela primeira vez em 1950, fez tanto sucesso que foi preciso repeti-lo no dia seguinte. Tinha dois horários: sexta-feira à noite e sábado à tarde, com 95% de audiência em ambos. Um fenômeno.

Em 1964, quando, a pedido de Walter Clark, diretor-geral da TV Globo, o programa foi adaptado para a televisão, muita gente achou que o ?Balança…? perderia em charme e agilidade. Mas o texto de Max adaptou-se como uma luva e foi honrado com interpretações memoráveis de Paulo Gracindo e Brandão Filho, que formaram um dos quadros mais engraçados da televisão brasileira: ?Primo Rico e Primo Pobre?.

Recentemente, o humorista Paulo Silvino e Maurício Sherman, diretor do ?Zorra Total?, da TV Globo, apresentaram um projeto à emissora propondo resgatar um programa nos mesmos moldes do ?Balança?. Com o título provisório de ?O Edifício Inteligente do Século XXI?, teria o apoio do elenco do ?Zorra Total? e colaboração dos roteiristas Gugu Olimecha e Roberto Silveira, que adaptariam os textos de Max Nunes. É preciso apenas convencer o criador. ?Não tenho muito entusiasmo, não. Não existe mais clima. Paulo Gracindo e Brandão Filho já morreram. O humor mudou muito – as piadas de hoje são todas do umbigo para baixo?, critica.

O único ator que o convenceria a voltar a escrever um programa de humor é o amigo e afilhado Jô Soares, o mesmo que, no começo dos anos 1960, Max levou à Globo para estrelar ?Faça Humor Não Faça Guerra?, outro humorístico memorável, em que escreviam feras como Renato Corte Real, Geraldo Alves, Hugo Bidet e Haroldo Barbosa.

?Atores como Jô e Chico Anísio não podem ficar muito tempo sem fazer humor. São completos. Já disse para o Jô que voltaria a escrever se ele topasse fazer um programa como o ?Viva o Gordo?, mas ele se empolga no começo e depois desiste da idéia. Não quer mais saber de se pintar, de decorar textos…?

Max está de férias de Jô Soares. Merecidas por sinal. São mais de 40 anos de convivência e de muito trabalho. ?Sou padrinho de dois casamentos dele. Já disse que ?tripadrinho? eu não vou ser, é demais?. No ?Programa do Jô? não é responsável apenas pelas piadinhas e pelo texto de abertura – participa das reuniões de pauta e da criação de novos quadros. Para isso, lê cinco jornais por dia, nenhum pela internet, do que ele tem horror e prefere chamar de ?infernet?. Novidades no programa de 2003? ?Sim, tenho: o Jõ está sem barba?, brinca.

Médico por formação, Max já está recuperado do enfarte sofrido em 1996 – escapou da morte ao fazer um autodiagnóstico, pedindo socorro na mesma hora para Jô Soares, que o levou para o hospital a tempo de colocar cinco pontes de safena.

Não vai mais a jogos de futebol, uma de suas paixões (é dele o bordão ?Bota ponta, Telê?, repetido à exaustão pelos torcedores na Copa de 86, no México), por dois motivos. Primeiro, por mero saudosismo: ?Sou dos tempo em que os craques jogavam no Brasil, não eram vendidos ainda crianças para o exterior?. Segundo, por segurança: ?Evito caminhar pelas ruas. Já levei os meus tropeções nas calçadas esburacadas da Gávea. Aliás, posso dizer, com orgulho, que já fui ?tombado? pela prefeitura do Rio.?”

 

TV FOFOCA

“Coração de mãe regula fofocas na TV”, copyright Folha de S. Paulo, 13/02/03

“Os programas de fofocas na TV alcançam a virtuose do ramo em tempos de ?BBB 3?. Espionam a vida dos personagens dessas gincanas melhor do que o suposto jornalismo investigativo faz com políticos no país. E o bom disso tudo: narram o ?reality show? a partir das tensões maternas. Coração de mãe é a única coisa sincera desse mundão fraudulento.

Todo dia tem uma mãe a falar do seu rebento. Astrid Fontenelle, do ?Melhor da Tarde? (Band), pegou a mãe de Sabrina -coisinha tão bonitinha do pai do ?BBB 3?- até na fila do banco. Pelo celular. Ela gosta sim de se olhar, espécie de Alice no espelho, disse a mamãe da moça. O barulho do banco atrapalhava um pouco. Imaginem como devem ter ficado os boys ao saber que estavam ao lado da matriz daquela beldade.

Astrid, com humor cuja fonte é o universo gay, é um sucesso nesse tipo de entrevista. A coisa rende. A apresentadora amacia ali as mãezinhas… e elas contam tudo. Leão Lobo, do mesmo programa, faz o tipo correto e passa sinceridade. Não compreende a falta de caráter que predomina no ?Big Brother?, enquanto as mães dos ?macunaímas? defendem abertamente a ?malandragem? dos pimpolhos.

Leonor Corrêa, a conhecida irmã do Faustão, rende mais ao ler o noticiário de fofocas de revistas e jornais. ?Se Xuxa diz que tá caindo tudo, imagina nós…? Falava sobre o medo da mulher diante da lei da gravidade e paranóias afins. ?A Casa É Sua? ainda carece de vigor. Na mesma Rede TV!, a fofoca tem no ?TV Fama? a sua central. Mas os boatos de Nelson Rubens, um clássico do gênero desde o paleolítico da televisão, andam sem pimenta. Precisa ler o Antonio Salomão, no noticiário do portal iG.

Sonia Abrão tem a manha da fofoca, adquirida em anos de rádio e colunismo de jornal. Mas o seu ?Falando Francamente? exagera no caráter informativo, o que, convenhamos, atrapalha o fuxico. É o tipo de coisa que não combina muito com seriedade.

O que todas as atrações têm em comum é o merchandising exagerado e no meio do programa. Vende-se de tudo no meio da fofocaiada, sempre com o auxílio dos próprios apresentadores. Não tem essa história de intervalo comercial. É na bucha.”

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