Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO SARNEY-MURAD

Toma que a filha é tua

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

CASO SARNEY-MURAD

José Antonio Palhano (*)

Alguém já perguntou por que o senador José Sarney não delegou a um outro colega a missão de defender sua queridíssima filha em plenário, em vez de ele próprio? De preferência um correligionário da dita-cuja, ao menos na intenção de manter as aparências, de que tudo se tratava de uma crise política em sua essência, sujeita portanto a ser administrada conforme os ritos da casa e as boas maneiras da política, e não de um barraco entre famílias mafiosas?

Mas não. A perspectiva de um reles discurso, inflada na mídia até o limite da irresponsabilidade pura e simples ? apenas na conta de encher pauta ? permitiu que tudo se resumisse à ópera-bufa engendrada por aquele que representa, afastados Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho, tudo o que há de mais atrasado, nocivo e anti-social nos costumes nacionais.

José Sarney é eternamente grato. Fez sua festa pobre do alto da tribuna mais estelar do país com bilheteria antecipadamente garantida. Mais que isso, que a mixórdia fosse interpretada à luz de uma medonha crise institucional, e não da mais explícita, desavergonhada e extemporânea manifestação de mandonismo nordestino, no que a expressão tem de pior e reveladora da oligarquia que o perorador comanda ? a suja, continuada e impune exploração de uma gente desesperançada e condenada de nascença.

O senador José Sarney, além de imortal, sabe-se agora, possui enormes afinidades com os esporos. Feito um exemplar desses que, adormecido por 10 anos na estrumeira de um curral nos confins do miserável Maranhão, repentinamente eclode e inocula o tétano no primeiro infeliz descalço e perebento que aparece, despertou da sua hibernação para picar com apetite de maribondo faminto. E tremendamente seletivo. Picou pra valer entre nós, ditos jornalistas e formadores de opinião.

Não nos ocorreu, em meio ao desatino de posar como arautos da desgraça institucional iminente no rastro da maranha sarneysista, refletir a respeito da exata dimensão de um indivíduo que não hesitou em terceirizar um estado da federação para salvar a pele dentro de um mandato de senador. Por aceitarmos tamanha afronta às instituições sem tugir nem mugir é que entramos tão pateticamente nessa jogada suja na qual um político decrépito, cuja passagem pelo poder lobotomizou-o irremediavelmente (a amnésia é nossa), faz da tribuna da Casa Alta uma extensão dos seus terreiros. E corre a defender a filha sob a atenção da assistência bestificada, na mais perfeita demonstração da promiscuidade cívica em que nos afundamos, o público se confundindo com o privado em meio a arrufos de um chefete que só faz por merecer o exílio em seu Curupu de tão desgraçadas recordações de todos nós. De quebra, rendendo juros e correção monetária em repercussão, análises e vaticínios nefastos.

Alta tietagem

Observe-se, a título de constrangedor exemplo, o estrago causado em Janio de Freitas (Folha de S. Paulo), que até aqui sobrevivia bravamente entre as bíblicas ressacas decorrentes do seu incurável ressentimento, na sua obsessão em posar de militante contra desmandos, ditaduras e corrupções variadas e a favor dos oprimidos. Embaladíssimo em sua inédita cruzada sarneysista, soltou outro dia: "Se os governistas pretenderem que o discursinho do senador que usa o apelido de Arthur da Távola, em seguida ao de Sarney, tenha-lhe dado alguma resposta, equivocam-se".

Vejam só o que é que um Ribamar, atolado até o pescoço em seu passado que teima em regurgitar (coisas da filha mimada e malcasada), ainda é capaz de emplacar, em página nobre do maior jornal do país. Tentar desqualificar quem quer que seja atribuindo-lhe diminutivos ainda passa; quem haverá de falar em ética, a essas alturas? Questão de estilo, bem próprio da freguesia do mais cafona e suburbano botequim, em desuso até mesmo na teledramaturgia global por, digamos, manjado. Já fazendo pouco de apelidos, dá nesse ridículo atroz. Quer dizer então que o verbete "Sarney" remonta á pia batismal do mais novo queridinho de Janio? E "Lula", que acampou em Luiz Inácio da Silva naqueles duros tempos que lhe custaram um dedo? Será que lhe custaria nacos de reputação, na hipótese de uma aproximação do apelidado de um também eventual governo Serra, condição esta em que o nosso detrator de apelidos (e de gente que não lhe caia nos bofes) certamente iria ter enxaquecas em salva?

Preconceito contra apelidos é pouco. De chorar mesmo é essa vassalagem explícita ao nosso mais repulsivo paternalismo, aquele que nos faz adorar o poder pela eternidade afora, mesmo que dele só reste uma caricatura bigoduda. Ou topetuda. A síndrome de pesquisite que nos assola, tão combatida por este Observatório, obrigou a mídia a empinar Itamar Franco como expressão eleitoral na conta de uma promissória mais falsa que destilado paraguaio por meses a fio. Aterrissado o homem em seu devido nivelamento, junto às suas vivandeiras atacadinhas, nem nos lembramos de pedir desculpas, ou fazer uma mísera reflexão, junto ao distinto público leitor e eleitor. Itamar é o maior blefe eleitoral jamais inventado por nós, jornalistas, apenas porque, num lance fortuito, ocupou a presidência por dois anos, subjugando-nos a pagar uma enfiteuse tão extemporânea quanto grotesca e deprimente, bem típica da nossa baixa estima e da nossa fobia de futuro.

Em tempo: o discurso do senador Arthur da Távola foi impecável, conforme atestado por gente da imprensa que não acabava mais, exceto por aqueles que se dedicam à nobre causa de tietar José Ribamar Ferreira da Costa, o José Sarney.

(*) Jornalista e médico

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