Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA & TERROR

Toni Marques

Por lgarcia em 12/12/2001 na edição 151

GUERRA & TERROR

"Palavras perigosas", copyright O Globo, 9/12/01

"Os telefones do escritório e da residência do professor Richard Berthold, que leciona história na Universidade do Novo México, não têm mais secretária eletrônica. Berthold correu o risco de perder o emprego – e a vida – porque, no dia 11 de setembro deste ano, disse em sala de aula que ?qualquer um que pode explodir o Pentágono tem o meu voto?.

Suas palavras rapidamente se espalharam pelos Estados Unidos. Foram parar, listadas com mais 116 exemplos de anticivismo acadêmico, no documento ?Defendendo a civilização: como nossas universidades estão reprovando a América e o que pode ser feito a respeito disto?, um índice não-oficial que, para muitos professores, tem tintas da irracional caça às bruxas comunistas promovida no país nas décadas de 40 e 50. A ?verbofobia?, isto é, o medo das palavras, não se restringe às transmissões de pronunciamentos de Osama bin Laden que fizeram a conselheira de segurança nacional, Condoleezza Rice, pedir à mídia para pensar duas vezes antes de divulgá-los.

O documento foi elaborado por um grupo conservador de cuja fundação tomou parte Lynne V. Cheney, esposa do vice-presidente Dick Cheney. O grupo, intitulado American Council of Trustee and Alumni – e que tem representantes de 400 universidades – destacou no texto recente discurso de Lynne em que ela pediu às universidades maior oferta de cursos sobre a história do país. Sua iniciativa tem por base o 11 de setembro, mas vai além, mirando em pelo menos uma década de relativismo, multiculturalismo e correção política nas universidades do país adentro.

Os exemplos listados foram colhidos fora de contexto, em websites, textos de estudantes e jornais e revistas. Abrangem desde palestras de convidados célebres até refrões de protestos. Muitos dos quais nem anticívicos são: apenas indicam a tentativa de compreender os atentados e a reação militar americana em contextos históricos. Ou se pronunciam contra a violência, simplesmente. Há inclusive alusão a cartuns.

Pressão econômica leva à censura

?Precisamos ouvir mais de uma perspectiva a respeito de como nós podemos fazer do mundo um lugar seguro?, escreveu num jornal de Eugene, Oregon, o professor Greg Bolt, da Universidade do Oregon. ?Precisamos entender as razões por trás deste ódio aterrorizante direcionado contra os Estados Unidos e encontrar meios de agir que não fomentarão mais ódio para as gerações que virão.? O trecho é o número 61 dos 117 da lista do American Council of Trustee and Alumni, que ainda reproduz palavras do reverendo Jesse Jackson. Em palestra feita na Escola de Direito de Harvard, ele disse que o país deveria ?construir pontes e relações, e não simplesmente bombas e muros?. Um professor da Universidade Stanford nada mais fez que afirmar a necessidade de, se confirmada a culpa de Osama bin Laden pelos atentados, um tribunal internacional julgá-lo por crimes contra a humanidade.

Em palestra promovida na última quinta-feira na Escola de Graduação de Artes e Ciências da New York University, a escritora Susan Sontag – ela mesma alvo de ameaças de morte por conta de artigos críticos publicados depois de 11 de setembro na revista ?The New Yorker? – embaraçou momentaneamente Catharine Simpson, reitora da escola e anfitriã de Sontag, ao responder à pergunta sobre a ?verbofobia? acadêmica americana feita pelo correspondente do GLOBO. Mas sua resposta esclarece que não é a ideologia cívica a motivação da patrulha:

– A situação é muito perigosa – disse a escritora. — Vivemos uma situação em que o debate é entendido como discórdia; a discordância é entendida como perversão; a perversão é entendida como traição. Este país todo é fundado no dinheiro. Tudo acontece porque as pessoas podem pagar para acontecer. Um candidato a prefeito pode comprar sua vitória. É assim que as universidades funcionam. Pois quem doa dinheiro às universidades pode dizer: ?Eu não vou doar ao seu departamento, porque um professor se manifestou contra os Estados Unidos etc. etc.? As universidades precisam do dinheiro, pois dinheiro significa mais salas de aula, mais computadores, mais dormitórios. O dinheiro então passa a ser uma censura.

Um professor que ensina alemão na mesma universidade abordou o correspondente do GLOBO, ao final da palestra, para dizer que os professores não podem ser demitidos em função de suas opiniões, mas suas opiniões podem lhe custar o emprego caso o volume de doações diminua em razão da proliferação de um esquerdismo percebido como antipatriótico. A premissa, então, é paradoxal: o que garante a excelência do pensamento acadêmico americano mais liberal é o dinheiro conservador.

– Sim, é – disse o professor, que preferiu não se identificar.

Segundo Alan Brinkley, professor de história americana da Universidade Columbia, em Nova York, o patrulhamento tende a ser maior nas universidades públicas, pois estas se vêem mais sujeitas a pressões de políticos conservadores. Muito embora, para Susan Sontag, há tempos os Estados Unidos só têm, na prática, um partido, que se divide em dois ramos, o republicano e o democrata. Brinkley disse ao GLOBO que é ótimo que existam grupos conservadores que critiquem as universidades; o que não pode acontecer é as administrações das universidades punirem professores.

– Entre as citações listadas nesse documento, com algumas exceções, bem poucas eu chamaria de hostis.

Professor invoca direito de expressão

Segundo a co-autora do documento, Anne Dean, integrante do American Council of Trustee and Alumni, a idéia não é punir – o próprio grupo manifestou-se contra a ameaça de punição do professor Berthold, da Universidade do Novo México.

– O que nós queremos é o respeito à missão dos órgãos de educação americanos, que é a de fomentar o civismo, conforme queriam os fundadores dos Estados Unidos – disse ela ao GLOBO.

– Bem, há muitas coisas que eram parte da vida americana há 200 anos que não seriam aceitáveis hoje – argumenta o professor Brinkley. – Claro que a academia deveria ter missão cívica, mas há também o princípio da liberdade intelectual acadêmica.

Anne Dean insiste que o corpo docente tem o direito de dizer o que lhe passa pela cabeça:

– Ele pode culpar a América, mas ao mesmo tempo tem a obrigação de fornecer a compreensão da história americana e da civilização ocidental aos estudantes, para que eles tomem suas próprias decisões.

Seja como for, o professor Richard Berthold tomou uma decisão: ele se disse arrependido por ter afirmado que votaria em quem atacou o Pentágono, porém invocou a emenda constitucional que lhe dá direito a se expressar livremente.

– Eu fui um idiota – disse ele à imprensa. – Mas a Primeira Emenda protege o meu direito de ser um idiota."

"Pentágono pede desculpas à imprensa por dificultar a cobertura de ?fogo amigo?", copyright Folha de S. Paulo, 7/12/01

"O Pentágono pediu desculpas ontem à mídia pelos obstáculos impostos à cobertura do ?fogo amigo? que matou ao menos três soldados dos EUA e seis soldados aliados afegãos, além de ferir outros 20 americanos.

Repórteres e fotógrafos que cobrem a guerra no Afeganistão reclamaram da atitude dos militares na base americana ao sul de Candahar, que impediram a imprensa de chegar perto dos soldados mortos e feridos pela bomba disparada erradamente anteontem por um B-52 americano ao norte de Candahar. Os jornalistas foram mantidos num galpão enquanto os soldados atingidos, transportados para a base de helicóptero, recebiam tratamento.

O Pentágono disse que os comandantes da base foram cautelosos demais ao proteger a privacidade dos mortos e feridos."

 

"Repórteres se dizem impedidos de trabalhar", copyright Folha de S. Paulo, 6/12/01

"Jornalistas que estão na base dos EUA no Afeganistão disseram ontem ter sido impedidos de trabalhar na cobertura do bombardeio errado norte-americano.

Dois fotógrafos da agência de notícias ?Reuters? afirmaram que foram proibidos de se aproximar dos soldados americanos e afegãos feridos quando eles chegaram à base ao sul de Candahar.

O enviado especial do diário dos EUA ?The New York Times?, Steven Lee Myers, escreveu: ?Jornalistas e fotógrafos que acompanham os marines aqui foram confinados em um depósito enquanto americanos e afegãos [feridos? chegavam e recebiam tratamento?.

O Pentágono prometeu investigar as acusações. Para ter acesso à base, os jornalistas tiveram de assinar um acordo em que aceitam restrições como não revelar detalhes sobre as operações planejadas para as tropas que estão no local."

 

"Governo americano é processado por não divulgar informações sobre detidos", copyright Folha de S. Paulo, 6/12/01

"Um grupo de organizações de defesa dos direitos civis entrou ontem com um processo contra o governo dos EUA exigindo a divulgação de informações básicas sobre centenas de pessoas detidas desde 11 de setembro.

O processo, aberto por 16 organizações, incluindo a ACLU (American Civil Rights Union) e a Human Rights Watch, é o primeiro do tipo desde que o governo Bush iniciou uma campanha agressiva de detenções para encontrar os responsáveis pelos atentados em Nova York e no Pentágono.

?Desde 11 de setembro, centenas de pessoas foram presas, detidas e praticamente desapareceram de vista?, disse Steven Shapiro, diretor da ACLU. ?Outros países podem operar dessa forma, mas não é a maneira pela qual esse país funciona.?

Segundo o secretário de Justiça dos EUA, John Ashcroft, desde 11 de setembro, mais de 650 pessoas foram acusadas por infringir leis penais ou de imigração. O Departamento de Justiça divulgou informações sobre cerca de cem pessoas acusadas de violar leis penais federais, mas não sobre 548 pessoas detidas por infringir leis de imigração."

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