Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

Torpeza e os anacronismos perigosos

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

CASO TIM LOPES

Raquel Paiva e Muniz Sodré (*)

O torpe assassinato do repórter Tim Lopes por traficantes e a enorme repercussão jornalística e social do fato constituem um pretexto para que se rediscutam algumas das instituições ? democracia representativa, ordenamento jurídico e imprensa ? tidas como pilares da modernidade ocidental e, assim, cultuadas pelos porta-vozes (intelectuais orgânicos de toda natureza) das elites dirigentes. Essas instituições fazem-se presentes, de modo explícito ou implícito, nas declarações oficiais e nos textos jornalísticos que tentam explicações razoáveis para o acontecido.

Sobre a exaustão da democracia representativa, muito vêm escrevendo os analistas da chamada "modernidade tardia". Em linhas gerais, tem-se sublinhado que a política em seu formato clássico já não mais se refere às relações, formas e orientações assumidas pela ordem e pelo conflito socialmente vinculados às decisões que afetam a comunidade dos cidadãos. Noutras palavras, ninguém se sente mais representado pela classe política na qual, paradoxalmente, vota a cada rito de calendário eleitoral.

Ou existirá algum cidadão que aponte como seu confiável representante uma dessas figuras sinistras que trafegam nos corredores e plenário das câmaras municipais, estaduais e federais?

Quanto ao ordenamento jurídico, é dispositivo de Estado cada vez mais distante da cidadania comum. De um lado, as novas demandas sociais e os novos direitos emergentes parecem desbordar os quadros jurídicos tradicionais. De outro, o status quo judiciário, corporativista e moroso, já não responde á complexificação do fato criminoso. Tudo concorre para a impressão generalizada de que o velho direito positivo não mais funciona como conector das individualidades atomizadas. Talvez venha daí essa débil ideologia da rede cibernética como única utopia social de rearticulação da cidadania em frangalhos.

Por sua vez, a mídia, entendida como tecnologização da vida pública, tomou o lugar da velha imprensa burguesa, voltada para a vigilância das decisões de Estado, a coordenação informativa do cotidiano e a expansão das liberdades civis. Mídia é hoje um dos novos nomes possíveis para uma verdadeira estrutura de poder, que governa o tempo livre das massas por meio de espetáculo banal e informação audiovisual despolitizante. Imprensa, por outro lado, é o velho nome para "olho público" da cidadania, sobrevivente como uma espécie de reserva de sentido humanista para a mídia. Essa reserva, com força de paradigma nos Estados Unidos, não deixa de alimentar mitologias em regiões periféricas do mundo.

Velha imprensa

Tim Lopes era prioritariamente repórter investigativo, isto é, um representante do "olho público", virtual herói da velha imprensa. Ato contínuo à notícia de seu assassinato, comentaristas enxergaram no crime uma tentativa de intimidar ou cercear a imprensa. Na realidade, porém, é a própria mídia, em seu feitio hiperindustrial e espetacular, que silencia a velha imprensa. Jornalismo investigativo só adquire sentido pleno quando suas revelações repercutem transitivamente na sociedade política (Estado e seus aparatos) e na sociedade civil, da qual a imprensa costumava ser, em termos gramscianos, um intelectual orgânico. Repercussão transitiva é aquela que leva a uma ação transformadora.

Ora, se a investigação não afeta seriamente Estado, sociedade civil e a própria imprensa (como no caso Watergate, por exemplo), seu resultado periga converter-se em mero espetáculo audiovisual, em algo que certamente provocará um certo frisson nos telespectadores de um final de noite de domingo, mas que não passará no fundo de um lance estético-televisivo. Reduzido à estética de um espetáculo, o jornalismo investigativo perde sentido político-social.

Desta maneira, sem que disso bem nos apercebamos, os anacronismos se acumulam ao redor de uma ação individualmente corajosa, eventualmente heróica. O repórter age e arrisca-se motivado por ideais e mitos da velha imprensa, no entanto cada vez mais indesejada pelo industrialismo da mídia. A busca de uma verdade social pelo jornalismo investigativo é, para a mídia, um anacronismo, porque seus interesses publicitários costumam mostrar-se incompatíveis com a exposição total das raízes de males como a virulência das drogas e a violência de seu tráfico. Ao mesmo tempo, entretanto, os profissionais da mídia precisam do espetáculo da investigação. Aí então, o jornalista é incentivado e abandonado a seu próprio mito e risco individuais.

Ódio puro e simples

Mais e mais anacronismos: da parte da Justiça, é mais do que evidente a impotência dos poderes reais de contenção da criminalidade emergente. O assassino de Tim Lopes tinha sido antes preso e solto porque o próprio aparelho repressivo estaria contribuindo, por inação e manobras processuais, para procrastinar as audiências judiciárias. Por outro lado, as prisões atuais são os centros irradiadores das decisões do comando do tráfico de drogas.

Da parte do Executivo e do Legislativo, a única coisa categórica é a perplexidade. Atravessados pela corrupção e pela impossibilidade de tomar politicamente decisões concretas, governantes e legisladores atrapalham-se na ciranda dos planos inexeqüíveis e das palavras vazias. O discurso anacrônico do velho État-gendarme liberal, redecorado pelas tintas do Estado-biquíni neoliberal, refrata-se na realidade do Estado paralelo dos ilegalismos ?uma realidade mais real do que as identidades fantasmáticas da velha ordem. E traficantes irmanados chegaram a anunciar que justiçariam, eles próprios, o matador de Tim Lopes, por crime de exagero: atraiu para o tráfico uma atenção pública indevida.

Em seu martírio, em sua morte, o repórter Tim Lopes estava desesperadamente só. Não tinha por trás de si um sistema político-social comprometido com a vitalidade do socius humano, mas uma ordem anacrônica, entregue a uma experiência nova do desespero. Para essa ordem, a monstruosidade do traficante e da droga termina sendo um álibi negativo, a partir da qual se aferem as qualidades positivas do sistema. Enxergar apenas este lado pode levar-nos a esquecer a maré montante de um novo tipo de violência, análoga ao bestialismo do mercado, em que a ausência de finalidades e o desprezo absoluto pelo outro ser humano resultam num status quo impiedoso e cruel.

No fundo, sempre houve álibis dessa natureza. A novidade de agora é que as ditas qualidades do sistema dominante são cada vez mais palavras sem referência histórica, símbolos sem coisa concreta, imagens sem vigor ético-político. Pode-se dizer qualquer coisa, exibir qualquer atrocidade, desde que se esteja no mercado. A morte de Tim Lopes já estava prefigurada numa desses raps ("proibidões" é o termo próprio) que incitam ao ódio puro e simples ou num desses filmes de TV em que o fio da espada é moeda corrente. Com ou sem traficantes malucos, a investigação de Tim Lopes correria sempre riscos de praxe, mas também o risco de uma, hoje, talvez inútil paixão jornalística.

(*) Professores da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e jornalistas.

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