Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Trabalho e responsabilidade social

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

MÍDIA E EDUCAÇÃO

Ana Lagoa (*)

Uma das numerosas contradições dos nossos tempos é a dificuldade que temos em discutir com clareza e responsabilidade social três conceitos que são o eixo da nossa sobrevivência: educação, trabalho e emprego. Por isso lamentamos sempre que o caderno Educação, Trabalho & Emprego do Jornal do Brasil tenha deixado de sair depois de dois anos de intenso mergulho na zona cinzenta desse eixo conceitual.

O caderno, que na verdade era a entrevista que se fazia com empresários, educadores e pesquisadores, nasceu de uma necessidade, de um mal-estar gerado pela presença cada vez maior, nas bancas de jornais e livrarias, de publicações que seguiam dois rumos:

** O profissionalizante: dando a entender que tudo na vida se resumiria à escolha de uma profissão e o total investimento nela, durante alguns anos, e depois a estabilidade até o dia da aposentadoria;

** O competitivo: que resumia a vida a uma insana e perene corrida atrás de diplomas e microdiplomas que nos colocaria na crista da onda, capazes de competir e vencer desde que soubéssemos usar dezenas de softwares, falássemos três línguas (por enquanto!), tivéssemos sempre na ponta da língua métodos aprendidos em sofisticados cursos de como ser um executivo de sucesso e ganhar muito dinheiro.

O viés de classe dessa abordagem ? sobretudo em suplementos de jornais, revistas segmentadas e manuais técnicos ? é evidente. Mas, além desse pecado original, o encaminhamento que a questão recebe ? pelo menos na face que chega ao grande público ansioso por respostas ? acaba gerando uma sensação de impotência e desesperança, tanto naqueles que estão diante do vestibular ou do primeiro emprego (eu preferiria dizer trabalho) como no profissional em meio ou final de carreira (se é que ainda podemos nos limitar ao conceito de carreira).

Havia claramente um espaço de responsabilidade social da mídia a ser preenchido com uma reflexão aparentemente singela: o que se espera da educação (leia-se aqui formação, e não escolástica) no Terceiro Milênio numa sociedade globalizada, pedagogizada, competitiva e individualista, que concentra bens, serviços e ? principalmente ? informação e conhecimento nas mãos de alguns poucos e abre os ralos da exclusão, mesmo que pague alto preço por isso?

É fácil perceber que a proposta que levamos ao Jornal do Brasil estava além, muito além, dos paradigmas que vinham sendo adotados. Felizmente, o então diretor de redação, Sr. Noenio Espinola, entendeu o conceito do que se queria fazer e, em vez de um pequeno espaço de colocação de idéias ? uma coluna semanal, como havíamos proposto ? nos entregou em total confiança as páginas do então caderno Empregos, que publicava os tradicionais classificados.

Embora muitas vezes incompreendido na própria redação, entre colegas, o caderno ? com suas entrevistas plurais ? indagava a cada semana:

** Que educação temos?

** Que educação queremos?

** Para que tipo de sociedade?

** Para que trabalho?

No dia-a-dia de quem fazia as entrevistas estava colocada com clareza obstinada a questão do papel do jornalista diante dessas questões, considerando-se que esta categoria é responsável, sim e sempre, pela disseminação da informação e, conseqüentemente, por uma parcela razoável da formação das consciências. Para o jornalista realizava-se, paralelamente à faina diária de pautas e busca de nomes representativos das diversas tendências ideológicas, teóricas e políticas, o aprendizado do tema e o aprofundamento das questões:

** Seremos mesmo escravos da lógica do mercado?

** O que esperar do embate mercado versus realização pessoal?

** O que esperar do embate mercado versus qualidade de vida?

** Ou temos o direito de parar de reproduzir modelos só porque eles estão à mão?

Depois de dois anos de entrevistas publicadas todos os domingos, com exceção do Natal e do Carnaval, e de termos passado a tarefa a uma colega ? Eliane Bardanachvili ?, podemos dizer que aprendemos muito sobre o tema e ? eu, particularmente ? sobre os meandros da construção de representações sociais pelo jornalista. [A Multirio (Empresa Municipal de Multimeios) encampou a idéia desta discussão e, durante o ano de 2001, Eliane Bardanachvili apresentou o programa Educação e Trabalho no canal 3 da Net, e na Rede Bandeirantes em sinal aberto. As entrevistas fazem parte de um acervo de gravações e os conteúdos em texto estão disponíveis, com bio-bibliografia dos entrevistados, no site <www.multirio.rj.gov.br>. O caderno Educação, Trabalho e Emprego, infelizmente, desapareceu do site de pesquisa do JB Online.] Desse aprendizado podemos listar alguns pontos que merecem ser destacados:

1) A educação não forma o profissional. Forma o ser humano que será um trabalhador e trabalhará melhor e mais feliz quanto mais humanista, ampla e crítica for essa formação, quanto mais ele for capaz de se sentir sujeito da sua história, ouvindo-se e acreditando em sua ação como ser individual e social. A educação de que precisamos, portanto, é aquele humanista clássica, da qual nos afastamos primeiro por razões políticas ? nos anos de ditadura militar ? e depois pela ditadura do mercado que nos impôs a lógica do treinamento.

2) Não existe profissional do futuro, mas trabalhador de futuro. Aquele que teve, tem e deve continuar a ter acesso à informação e meios de formação humanista que lhe dêem estrutura para se apropriar das voláteis técnicas do nosso século.

3) A escola pública ? responsabilidade do Estado ? precisa rever para valer métodos de ensino e conteúdos, abordagens e seus acervo de idéias preconcebidas, sobretudo em relação ao jovem e, em especial, ao jovem pobre.

4) A escola particular, que atende à parte desta sociedade que detém os bens materiais, tecnológicos e culturais, também precisa passar pela mesmíssima transformação, pois ela forma aqueles que herdarão, mantidos os paradigmas de classe e de representatividade política, os papéis sociais que acabam tendo papel definidor do nosso futuro. E que neste momento, embora diante de janelas e portas abertas, também se constitui ? salvas sempre as exceções ? numa juventude desanimada, desesperançada, consumista, individualista, cética, muitas vezes agnóstica, quando não desonesta, competitiva e predadora, sem qualquer compromisso com seu país e seu tempo.

5) A sociedade organizada ? e são muitas e eficazes as possibilidades de organização do chamado Terceiro Setor ? precisa investir mais do que já investe na luta contra a exclusão tecnológica, além de todas as outras facetas da exclusão.

6) A mídia precisa abrir espaço para essa discussão, quebrando o paradigma da reprodução dos modelos de abordagem neoliberais. Precisa deixar para os arquivos os conceitos de educação e trabalho do século 19, calcados no positivismo e temperados pelo taylorismo do século 20, que servem para enganar e explorar aqueles que batem à porta da luta pela sobrevivência com dignidade e qualidade de vida. E que só têm sentido se quisermos mesmo continuar a desconstruir o planeta para ganhar muito dinheiro.

(*) Jornalista, assessora técnica da Multirio; este texto serviu de base para palestra na 6? Mostra PUC-Rio, sobre Trabalho e Responsabilidade Social, agosto/2002

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