Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > CÂMERA OCULTA

Transparência, teoria e prática 

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

CÂMERA OCULTA

Claudio Julio Tognolli (*)

Vozes e vozes, inclusive na edição passada deste Observatório, têm imprecado contra a câmera oculta desde o caso Tim Lopes. A maioria abjura da fé nessa câmera, pelo atalho da crítica que emprega o colofão das vulgatas da ética. O que não se discute, até agora, e citando uma frase do professor Bernardo Kucinski, é que o jornalismo, como a medicina, dispõe de uma ética conseqüencial: que se faça de tudo, em termos da consciência de cada um, para que a consequência última seja atingida ? seja a salvação do paciente ou o exercício da cidadania e oxigenação de processos de interesse público.

É assim que a cabeça de Tim Lopes deve ser entendida: um obcecado pela informação de interesse público, mesmo que isso tenha-lhe custado a vida ? como tem custado, e Hollywood é pródiga nesses roteiros, a médicos e bombeiros. A câmera oculta, portanto, é hoje tão indispensável para o jornalista quanto telescópio foi para Galileu Galilei e o microscópio para Antonie van Leeuwenhoek.

A discussão sobre a câmera oculta é uma unanimidade no mundo: deve ser empregada. Vejamos o caso do repórter Mario Aguilera, do Canal 7 do Chile. Há cinco anos o procurou o dono de uma fábrica de sapatos. Estava sendo extorquido por uma fiscal trabalhista. Ela queria dinheiro para não denunciá-lo por falsas violações de leis trabalhistas na fábrica. E também para não contar às autoridades que ele era um imigrante ilegal, sujeito a ser expulso do Chile. Aguilera arma o flagrante com a câmera oculta. Pega a fiscal com a mão na massa, recebendo os 300 mil pesos, ou cerca de 600 dólares. Até aí, pauta cumprida. Mas o repórter Mario Aguilera foi mais fundo e, com a câmera habitual, manejada por outro profissional, abordou a fiscal num restaurante lotado. Queria saber, na frente de todos, porque ela exigira o dinheiro. Uma cena constrangedora, alcunhada no Chile de "entrevista emboscada". A direção do Canal 7 pediu um parecer ao Conselho de Ética dos jornalistas chilenos. Um dos membros, Miguel Gonzallez, disse: "Nós não os criticamos por terem usado a câmera oculta; nós os criticamos porque eles então seguiram essa pessoa até um restaurante, confrontaram a pessoa diante das câmeras expondo-a ao público; eles não deram à pessoa a oportunidade de conhecer as acusações contra ela e de obter ajuda profissional para se defender".

Em 1999 este observador obteve uma fita em que o jogador Edmundo, após um comercial, contava à frente da câmera como a empresa Nike havia supostamente escalado a Seleção Brasileira para fatídica final com a França. Edmundo não autorizara, é óbvio, a divulgação da fita. Eis um episódio em que a câmera oficial fez as vezes de oculta. A questão era: deve-se divulgar? Sim. E a fita rendeu reportagens na Rádio Jovem Pan, Notícias Populares e Folha de S. Paulo ? além de ter gerado a CPI da Nike. O repórter foi pelo caminho dos argumentos de Kucinski: o assunto era de interesse público, então a ética deveria ser conseqüencial. E foi. Da mesma forma pensou o procurador Luiz Francisco Fernandes de Souza ao ter gravado, no gabinete da Procuradoria da República em Brasília, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães contando detalhes da violação do painel eletrônico de votações do Senado. ACM não autorizara a gravação nem sabia que a fita iria ser divulgada. Pouco importa: se é informação de interesse público, como diria Sam Zagoria, ex-ombudsman do Washington Post, "you must publish, publish, publish".

Os que criticam a câmera oculta, além de irem contra um poderoso instrumento de investigação jornalística, desconhecem que a transparência das circunstâncias e do corpo é o zeitgeist, o espírito de época de nosso mundo. Há 50 anos o filósofo Theodor Adorno já escrevera Das moderne ist wirklich unmodern geworden, o moderno ficou fora de moda. E, como veremos, nesse nosso mundo supostamente pós-moderno a transparência é a moeda sonante.

Da Teoria

Uma das tantas "novidades" vendidas hoje pela mídia postula que vivemos num mundo essencialmente transparente, seja a transparência dos corpos, seja a transparência das circunstâncias.

Comecemos pelo corpo. Quando falamos de corpos, referimos as notícias de jornal dando conta de que as novas descobertas da biotecnologia estão encontrando os "defeitos" que carregamos na nossa genética. O corpo nunca foi tão transparente, algo que não fora previsto nem pelo criador do Panoptikon, o arquiteto inglês Jeremy Bentham, tampouco pelo Michel Foucault de Vigiar e Punir. Agora, "tudo o que somos", vindicam os jornais, pode ser atestado pela resposta final que é o "graal" da biotecnologia.

De acordo com as contra-argumentações de Richard Lewontin, geneticista de Harvard, deve-se enfocar ao se vender, na mídia, o corpo como "transparente , estamos incorrendo numa novíssima forma de ideologia. Isso porque, num mundo em que os "problemas" são detectados pelas aferições cada vez mais pessoais da produtividade, como o Isso 9004, a imprensa deixa de discutir as condições sociais, ou de trabalho, que levam às problemáticas abordadas nas manchetes. No século 19, por exemplo, o Times londrino satanizava em suas manchetes o Bacilo de Koch, sem discutir as condições sociais, paupérrimas, que levavam à contração da tuberculose [Lewontin, Richard, The doctrine of DNA, Penguin, USA, 1999, pág. 74].

Vejamos alguns números, obviamente não constantes das reportagens que satanizavam o Bacilo de Koch: no princípio do século 19 havia na Inglaterra apenas uma aglomeração com mais de cem mil habitantes, Londres. São 33 delas na véspera do século 20. O centro dos lanifícios, Leeds, passa de 53 mil habitantes, em 1801, para 123 mil em 1831 e 430 mil em 1900. No mesmo período, Birmigham passa de 73 mil habitantes para 200 mil e depois para 760 mil residentes. Ao dias de trabalho são de 16 horas. A carga semanal é de 64 horas. Trabalha-se na fábrica seis dias seguidos. A média de trabalhadores morando numa casa é de 26; os salários decaem de 16 shillings por semana, em 1821, para 6 shillings em 1830. Nesse grupo, a esperança de vida é inferior aos 40 anos. Contratam-se para o trabalho nos lanifícios crianças de quatro, nove e sete anos de idade [Ruffiè, Jacques, Traité du vivant, Librarie Arthéme Fayard, Paris, 1982 pág. 13]. É nesse quadro social que brota a tuberculose. Mas, para o Times, a culpa, como já dissemos, estava no Bacilo de Koch.

Para nós, cem anos depois, a forma pela qual se noticia tais problemáticas não mudou muito. Se, no século 19, o ator culpado era o Bacilo de Koch, hoje o culpado é o gene. "Somos sistemas abertos, e não sistemas fechados, como um computador. Condições de trabalho, sociais, psicológicas, alteram os genes. A resposta final não está nos genes", diz o geneticista Richard Lewontin. "A febre biotecnológica é a febre dos bilhões de dólares movimentados pelos laboratórios na venda de implementos para as experiências genéticas", afirma [op. cit., pág. 70].

Terry Eagleton nomeia 16 formas de ideologia. Entre elas, "um corpo de idéias característico de um determinado grupo ou classe social", "comunicação sistematicamente distorcida" e "oclusão semiótica" [Eagleton, Terry, Ideology, an introduction, Verso, London, 1991 pág. 15]. A nosso ver, tratamos de uma singular distorção quando analisamos as manchetes sobre biotecnologia: ao lê-las, ficamos convencidos de que a genética é a solução final. Analisei 1.608 reportagens de jornal, entre 1994 e 2001, e apenas meio por cento do corpus trazia críticas à "resposta final" da biotecnologia.Vejamos alguns exemplos de como, no mundo da transparência biotecnológica, os problemas estão nos genes, a partir das manchetes. Vejamos que não só o homem, mas todo o corpo vivo, sucumbe à "resposta final":

  1. Laboratórios identificam gene ligado à esquizofrenia [Folha de S. Paulo, 24/10/00, pág A8]
  2. Cientistas descobrem mais um gene ligado ao apetite[FSP, 20/9/00, pág. A17]
  3. Pesquisadores brasileiros mapeiam núcleos cerebrais responsáveis pelo aprendizado do canto em beija-flores [FSP, 10/8/00, pág. A19]
  4. Diferenciação entre destros e canhotos pode estar nos genes, diz pesquisador [FSP, 17/5/00, pág. A16]
  5. Mutação em gene pode causar suicídio [FSP, 29/1/00, pág. A14]
  6. Gene ajuda a determinar monogamia em roedores [FSP, 18/8/99, pág. A8]
  7. Gene regula ciclo biológico de 24 horas, diz pesquisa [FSP, 28/11/97, pág. A15]
  8. Gene regula pés e genitais, diz estudo [FSP, 7/11/97, pág. A15]
  9. Pesquisador revela gene da inteligência [FSP, 4/11/97, pág A16]
  10. Cegueira pode ser genética [FSP, 19/9/97, pág. A15]
  11. Estudo liga comportamento social ao gene [FSP, 12/6/97, pág. A16]

A transparência da circunstância

Agora voltemos à outra transparência, a das circunstâncias. Três grandes casos que abalaram a mídia nos últimos cinco anos vieram da transparência das câmeras. Os policiais que extorquiam moradores na Favela Naval, em São Paulo, foram condenados graças à câmera oculta de um cinegrafista amador, que capturou as cenas, escondido, e forneceu as fitas às redes Globo e Bandeirantes de televisão.

Em dezembro de 1999, mais um caso clamoroso: o promotor José Carlos Blat, do Ministério Público de São Paulo, permite que uma equipe da TV Globo filme a extorsão praticada por fiscais da Prefeitura contra a comerciante Patrícia Soraia dos Santos. O caso vira a questão da Máfia dos Fiscais. No início de 2001, o procurador Luiz Francisco de Souza Fernandes, do Ministério Público Federal, em Brasília, esconde um gravador no gabinete do órgão e grava uma conversa com o senador Antonio Carlos Magalhães ?em que este conta detalhes de como havia sido violado o painel de votação secreta e eletrônica do senado.

O procurador entrega s fitas à revista IstoÉ e, em seis meses, os senadores Arruda e Magalhães são obrigados a renunciar em decorrência da "transparência" da conversa do gabinete. Para este ensaio, fomos procurar duas autoridades envolvidas em dois casos aqui citados, o da Favela Naval e o da Procuradoria. "Defendo que haja transparência em todo o prédio público, e o sinal dessa transparência deve ser as fitas. Temos o dever de gravar a as conversas de interesse público e torná-las transparentes ao contribuinte", avalia o procurador Luiz Francisco. "Costumo chamar o caso Favela Naval de o caso 501, porque existem 500 casos iguais, mas só este foi filmado", argumenta o coronel Hermes Bittencourt Cruz, ex-comandante da Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar e ex-diretor da Academia de Formação de Oficiais da PM , no Barro Branco, na zona norte de São Paulo.

A julgar os fatos, estaríamos vivendo num novo mundo, em que nada escapa à transparência do sinal eletrônico. Vamos mostrar que essa tendência, em ver o transparente como sinal dos novos tempos, não é tão nova assim.

Pós-modernidade e transparência

A imprensa tem tentado, exaustivamente, e em busca de uma suposta neutralidade ou imparcialidade, absorver todas as formas de representação do real ? inclusive a crítica a ela mesma (como os painéis dos leitores, ombusdsman ou ouvidor). Nesse sentido, chegamos ao ponto: as notícias sobre biotecnologia, ao darem a idéia da transparência total dos segredos da criação da vida, vão justamente ao encontro de um postulado finissecular pela transparência da vida e de todas as instâncias sociais. Na Guerra do Golfo, em 1990, mais espetacularmente, os mísseis Maverick apontados contra os alvos militares iraquianos mostravam, pela rede CNN, todos os últimos instantes do inimigo sendo destruído, graças às micro-câmeras instaladas nos mísseis. A guerra virava a vídeoguerra, como chegou a manchetar a revista Veja.

O sistema de vigilância de presídios, tão propagado por Jeremy Bentham, ganha uma dimensão que se alastra para todas as instâncias, da guerra aos reality shows como a Casa dos Artistas, do Sistema Brasileiro de Televisão, e o Big Brother, exibido com tanto sucesso na Europa e transplantado para o Brasil pela Rede Globo de Televisão. Os sistemas de vigilância, que tornam os condomínios transparentes(até os elevadores e garagens) estão presentes em todo o prédio de classe média.

Nada mais natural do que afirmar que a imprensa e os corpos entram na dimensão dessa transparência onipresente. Ou, como afirma Ciro Marcondes Filho, "a ideologia da transparência é, assim, a resposta atualizada do jornalismo aos novos tempos de "visibilidade total". Não importa mais a concepção política que eu tenho, a ideologia, minhas idéias subversivas ou os meus planos de revolução. Tudo isso é neutralizado pela informação gratuita, volumosa, massacrante, na qual qualquer um pode falar o que quiser, sem prejudicar ninguém. Importa que cada um possa ser "radiografado", porte um chip com todos os seus dados, sua história e sua inserção social e econômica. Nessa cruzada pela "limpeza dos obstáculos à verificação", a bandeira do jornalismo ? sua última ? é pela conformidade de todos ao regime da transparência, pelo fim do segredo e da alteridade" [Marcondes Filho, Ciro, Jornalismo, a saga dos cães perdidos, Edusp, São Paulo, 1999, pág. 112]

Jean Baudrillard sugere que, na sociedade burguesa e moderna, do espetáculo, era prevista a diferença entre o espaço público e o privado, entre o individual e o coletivo. Era o que chamava de sociedade cênica [Rouanet, Sérgio Paulo, As razões do Iluminismo, Cia. das Letras, São Paulo, 1985, pág. 229]

O fenômeno da transparência é atribuído à sociedade Pós-Moderna. No livro O mundo pós-moderno aponto que, entre estas tendências, até a economia, nacional e localizada, fica transparente ? e o capital nacional vira transnacional. As antigas barreiras de "nação" sucumbem à transparência do capital especulativo e, num apertar de botões de computador, mercados momentaneamente "desinteressantes" têm seu capital transferido para outros países. É implodida, portanto exposta à nudez, a antiga economia nacional. Barreiras são quebradas pela rede de transferência virtual dos valores [Arbex Jr., José e Tognolli, Claudio Julio, O mundo Pós-moderno, Scipione, São Paulo, 1997, pág. 32].

Sabemos que já há mais de 40 anos Adorno escreveu "das moderne ist wirklich unmodern geworden" (o moderno ficou fora de moda), o que se atribui à sua antevisão de um mundo pós-moderno [op. cit., pág. 229]. Mas foi na década de 30 que o termo pós-moderno foi empregado pela primeira vez, num artigo de Federico de Onís, em que usava o vocábulo postmodernismo, numa antologia de poetas de língua espanhola publicado em Madri em 1934 . No oitavo volume de seu Study of Story, publicado em 1954, Arnold Toynbee chamava a época iniciada com a guerra franco-prussiana de "idade pós-moderna. E, em 4 de novembro de 1952, dia em que Dwight Eisenhower foi eleito presidente, o Charles Olson elaborou um manifesto cujo final referia o tempo que corria como "pós-moderno, pós-humanista, pós-histórico" [Anderson, Perry, The origins of Postmodernity, Verso, London, 1998, pág. 13].

Nessa sociedade pós-moderna, em que tudo é transparência, refere Baudrillard, o cênico virou obscênico. "O êxtase da comunicação tornou impossíveis essas suposições de indivíduo autônomo, soberano" [Kumar, Krishnan, Da sociedade Pós-Industrial à Pós-Moderna, Zahar, Rio de Janeiro, 1997, pág. 137]. Em Baudrillard, o indivíduo não é mais "um ator ou dramaturgo,mas um terminal de redes múltiplas" [idem]. No seu pensamento, acabou a individualidade, em que nos perdemos e nos dissolvemos "em informação e comunicação".

Nesse cânon, na sociedade pós-moderna a total transparência "induz a um estado de terror próprio do esquizofrênico: proximidade grande demais de tudo, a promiscuidade suja de tudo que toca, investe e penetra sem resistência, sem nenhum halo de proteção privada, nem mesmo seu próprio corpo para protegê-lo mais" [ibidem]. E avança assim:


"O que o caracteriza é menos a perda do real, os anos-luz de afastamento do real, o pathos da distância e a separação radical, como de diz habitualmente, mas, muito pelo contrário, a proximidade absoluta, a instantaneidade total das coisas, o sentimento de que não há defesa, não há nenhum abrigo. É o fim da vida interior e da intimidade, a exposição excessiva e a transparência do mundo que o atravessa sem encontrar obstáculo. Ele não pode mais criar os limites de seu próprio ser, não pode mais brincar ou representar, não pode mais produzir a si mesmo como espelho. Ele é nesse momento apenas uma tela nua, um centro de comutação para todas as redes de influência" [ibidem].


Vejamos a arquitetura presente na maioria dos prédios pós-modernos: as bancadas e muros foram transformadas em vidro. Lembremos que, a partir de 1945, com o chamado international style na arquitetura, a função era o sinônimo de beleza. Para Adolf Loos e toda a escola Bauhaus, por exemplo, a beleza resulta da função ?form follows function [op. cit, pág. 250].

Vejamos as obras de Robert Venturi, Píer Paolo Portoghesi e Christopher Jencks, para falar o mínimo: a beleza consiste na transparência. Estamos a nosso ver, portanto, vivendo um zeitgeist, um espírito de época pelo qual a transparência é a mais-valia. Com a conseqüente transparência dos corpos, da regulamentação da produtividade do trabalho pelas análises individuais, como os Isos 9004, por exemplo, a imprensa faz um ajuste de contas com aquilo que ela veio propugnando e aplicando sobretudo a partir do uso das novas tecnologias de imagem, a partir dos anos 90: agora a transparência não revela mais o que as pessoas estão fazendo, revela o que elas seriam ou podem vir a ser ou fazer de acordo com as tendências a serem apontadas pelos mapeamentos genéticos.

Como pudemos ver em nossa análise de conteúdo, quando se noticia o achado dos "genes" estamos a todo o momento empregando nas manchetes o termo "isolado o gene". No mundo da transparência pós-moderna, os fenômenos especulares e de nudez nos revelam nada mais do que a imprensa tem propagado para todas as instâncias: o ser total e a total transparência, mensurável, exposta a seus detalhes e tendências.

É óbvio que, como acabamos de ver, a arquitetura reflete toda uma tendência tecnológica de época. Lembremo-nos que Dante Alighieri, por exemplo, chega à salvação na Divina Comédia, junto de Beatriz, sempre pela metáfora da luz ?bem na época em que a ciência se ocupava da luminosidade, como veremos mais à frente. A mirabile visione que é Beatriz está magnificada pela luz (lume Che nel ciel s informa):


O imaginativa che ne rube

talvolta si fuor, ch om non s accorge

perchè dintorno suonin Mille tube,

chi move te, se l senso non ti porge?

Moveti lume che nel ciel s informa

per sè o per voler che giù lo scorge

(Purg., XVII,13-18)

[Klein, Robert, A forma e o Inteligível, Edusp, São Paulo, 1998, pág. 52]


 Tais versos foram escritos quando Witelo fazia suas descobertas em ótica. E, hoje, com a transparência das câmeras, dos ambientes e dos corpos, um novo espírito de época, um novo zeitgeist se impõe: o de que nada resiste à verdade da câmera ou da prospecção biotecnológica. Tratamos de um discurso clivado: aceitar a transparência como um espírito de época que a tudo responde é curvar-se ante a mais nova forma de ideologia: a da resposta final e "mais verdadeira", porque transparente.

Saturação ou ideologia?

Como já vimos, para o geneticista de Harvard Richard Lewontin o processo é iminentemente ideológico, já que as corporações de biotecnologia , sobretudo nos EUA, estariam auferindo bilhões e bilhões de dólares nas vendas de implementos de laboratório.

Mas como situar a imprensa nesse processo? O jornalista Leão Serva, diretor de jornalismo do portal iG, ex-secretário de redação da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde, ex-diretor da revista Placar e do semanário Lance!, acredita que o processo não seja tão ideológico assim. Para Serva, a pressa na produção ns notícias é o grande agente desse processo. "Esse conjunto de informações provoca uma espécie de paroxismo da desinformação-informada e da deformação, no qual milhares de informações diariamente se sobrepõem umas às outras no suporte da comunicação, no meio em si e também ou mais gravemente na mente do receptor, em sua compreensão do mundo. Trata-se de uma saturação: os fatos se submetem uns ao paradigma dos outros, sem distinção" [Serva, Leão, Jornalismo e desinformação, Editora Senac, São Paulo, 2001, pág. 77].

Ele cita levantamento feito psicólogo David Lewis para a agência bretã Reuters para justificar em números sua tese da saturação. Lewis aponta que mais informações têm sido produzidas nos últimos 30 anos do que nos 5 mil anos anteriores. Uma edição de dia de semana do New York Times contém mais informações do que tudo aquilo que um homem médio do século 15 ficou sabendo em toda a sua vida. Por esses dados, sabemos que o NYT chega a ter aos domingos 1,5 mil páginas, cerca de 2 milhões de linhas tipográficas, mais de 12 milhões de palavras e 5,5 quilos de papel. "Em um ano, o americano médio terá lido ou preenchido 3 mil avisos de formulários, lido 100 jornais e 36 revistas, assistido a 2.463 horas de televisão, ouvido 730 horas de rádio, comprado 20 discos, falado ao telefone quase 61 horas, lido três livros e gasto incontáveis horas trocando informações em conversas" [idem, pág 76].

Se em seu livro Jornalismo e Desinformação o jornalista Leão Serva analisa que o processo é mais de saturação de informações do que propriamente ideológico, vemos o mesmo cânon em Showrnalismo, a notícia como espetáculo, do José Arbex Jr., ex-correpondente da Folha de S. Paulo em Moscou e Nova York e ex-editor de assuntos internacionais do mesmo matutino. Arbex pontua que "para as megacorporações da mídia, a defesa da ordem econômica globalizada ultrapassa a questão ideológica. Tornou-se uma medida de sobrevivência, já que apenas um um sistema internacional que permitiu a desregulamentação e a privatização dos veículos de comunicação na maior parte dos países pode garantir a própria existência das grandes corporações transnacionais" [Arbex Jr., José Showrnalismo, a notícia como espetáculo, Casa Amarela, São Paulo, pág. 100].

Arbex nos traz um estudo feito pelo professor Jeremy Turstall, da City University de Londres, para quem a mídia, em qualquer país, tende a ser "americana, da mesma forma que o espaguete é italiano e o críquete é britânico" [idem].

Vejamos o numerário fornecido por Tunstall:


"Entre 1984 e 1998, o volume de filmes, programas televisivos e videoteipes exportados dos Estados Unidos para a Europa cresceu 22% com receita média anual de US$ 561 milhões. Das 130 mil horas de programas veiculados na Europa., somente 25 mil eram de produções européias. Mais da metade da programação provinha dos EUA, assim como 60% dos filmes exibidos. De 1987 a 1991, Hollywood dobrou as vendas de filmes e seriados de TV para o exterior, evoluindo o faturamento de US$ 1,1 bilhão para US$ 2,2 bilhões.

No mesmo período, as gravadoras norte-americanas duplicaram as suas exportações, num total de US$ 419 milhões em 1991. Na virada para a década de 1990, a CNN International, a MTV e ESPN já eram distribuídas em vários continentes. A CNN ?que ao entrar no ar em 1 de junho de 1980 alcançava 1,7 milhão de lares norte-americanos conectados por cabo ?chegou a 70 milhões de casas nos EUA e a 91 países, em 1991, na seqüência do êxito de sua cobertura ao vivo, via satélite, da Guerra do Golfo. Em 1991 os EUA respondiam por 77% da programação das TVs latino-americanas, exportando 150 mil horas de filmes, seriados, desenhos animados, esportes e variedades" [idem, pág. 99].


Ambivalência

Vimos aqui que, por um lado, a transparência das circunstâncias, como no caso dos escândalos flagrados por fitas ou câmeras ocultas, é vindicado pelas autoridades envolvidas como a undécima arma da democracia contra a corrupção. No outro, a transparência do corpo, vendida como é pelas notícias, ganha, para geneticistas como Lewontin, o estatuto de pura ideologia escondida sob o manto novidadeiro do fenômeno chamado pós-moderno.

Seja pelo processo de saturação de informações das matrizes internacionais, seja pelo ideológico, uma certeza nos surge:a transparência, na mídia, é um fenômeno ambivalente. É sob o signo da ambivalência, pois, que o pesquisador de comunicação deve tentar compreendê-la. Ou, como referiu Zygmunt Bauman:


"A ambivalência, possibilidade de conferir a um objeto ou evento mais de uma categoria, é uma desordem específica da linguagem, uma falha da função nomeadora (segregadora) que a linguagem deve desempenhar. O principal sintoma de desordem é o agudo desconforto que sentimos quando somos incapazes de ler adequadamente a situação e optar entre as alternativas…a situação torna-se ambivalente quando os instrumentos lingüísticos de estruturação se mostram inadequados; ou a situação não pertence a qualquer das classes lingusticamente discriminadas ou recai em várias classes ao mesmo tempo. Nenhum dos padrões aprendidos poderia ser adequado numa situação ambivalente ?ou mais de um padrão poderia ser aplicado; seja qual for o caso, o resultado é uma sensação de indecisão, de irresolução e, portanto, de perda de controle" [Bauman, Zygmunt, Modernidade e Ambivalência, Zahar, Rio de Janeiro, 1999, pág. 10].


Eis o porquê de tantas vozes se insurgirem contra a transparência, sobretudo a das câmeras ocultas: é um signo muito novo para ser entendido de chofre.

(*) Repórter especial da Rádio Jovem Pan, professor de jornalismo das Fiam (SP) e da ECA-USP

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