Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURAS DA VEJA

Tribunal em policromia

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

LEITURAS DA VEJA

Lúcio Flávio Pinto (*)

A revista Veja está fazendo o jornalismo brasileiro retroceder décadas. Nela, ou os repórteres todos se transformaram em editorialistas, ou então estão permitindo que os editores transformem suas reportagens em editoriais. A informação se tornou secundária diante da hegemonia dos adjetivos. O relato tem sido soterrado pelo julgamento, a avaliação factual pelo panfleto. Ao final de sua leitura, o leitor sai carregado de etiquetas e epítetos, mas não muito capaz de argumentar. Veja se transformou no tribunal dos Civita. O saudável exercício da opinião resvalou para a quase aberta delação.

Cito como exemplo um trecho da principal matéria da seção Economia e Negócios da edição n? 1.803 (21/5/03, “A trincheira de Lessa”, págs. 98-99). A propósito da iniciativa do BNDES de promover um curso de pós-graduação em desenvolvimento e econômico e social para os seus técnicos, ministrado por professores originários da famosa Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), à frente a economia Maria da Conceição Tavares, proclama o repórter Ronaldo França (ou proclama-se sob sua assinatura):


“É surpreendente que uma instituição governamental da importância estratégica do BNDES gaste dinheiro na formação de seus quadros para recheá-los com uma visão econômica solitária e defasada, porque intervencionista e em descompasso com a estabilidade fiscal. Em última instância, o BNDES está se preparando para funcionar em desacordo com a visão econômica hegemônica no Planalto”.


Não satisfeito com essa sentença, que poderia (mal comparando) ornar as páginas do velho Pravda ou do Granma, ou servir a locuções na Rádio de Pequim ou da Albânia, acrescenta o repórter-juiz:


“Essa é uma teoria que remonta aos Estados Unidos e à Europa da década de 30, quando foi usada com bons resultados, mas em outro contexto. Hoje não se aplicaria ao Brasil, onde a chave do sucesso é manter a confiança na estabilidade fiscal”.


Como caranguejo

Cada oração exigiria uma demonstração. O conjunto de frases condensa (e suprime) um manual inteiro de economia, além de livros sobre conjunturas históricas. Podia caber, entre aspas, na boca de fontes ouvidas pela revista. Não no texto do repórter, que dispara flechas como um Zeus descompromissado. Em vez de fornecer informações aos seus leitores, torna-se porta-voz não credenciado do governo (ou do seu centro hegemônico), vestindo aquela surrada e mal-afamada roupa do áulico, sempre mais realista do que o rei.

Além de tudo, há supina ignorância da parte do Mefisto. No dia 18/5, no vale do Tennessee ? e, por extensão, os Estados Unidos, que para Ronaldo são exemplo apenas remissivo em matéria desse tipo de teoria econômica ?, houve comemoração pelos 70 anos de um Belzebu, na visão do repórter escolástico de Veja. Foi o aniversário do TVA, autarquia criada durante o New Deal de Franklin Delano Rososevelt com a versatilidade de uma empresa privada, que revolucionou os 100 mil quilômetros quadrados dos sete estados banhados pelo grande rio, que, graças à Autoridade do Vale do Tennessee (a tradução da sigla), se tornou plenamente navegável e proporcionou melhoria de vida para seus habitantes.

O TVA continua vivo e ativo, o intervencionismo estatal de que resultou continua atual, Quem caminha como caranguejo (senão como anta) é a revista Veja.

(*) Jornalista, editor do Jornal Pessoal, de Belém (PA)

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