Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Tributo à memória

Por lgarcia em 16/10/2002 na edição 194

SERRA DAS ALMAS

Luis Egypto

O Guerreiro do Yaco ? memórias e lendas de Zé Rufino, de Calazans Fernandes, primeiro volume da trilogia Serra das Almas, 318 pp., Fundação José Augusto, Natal (RN), 2002

Francisco Calazans Fernandes, 73 anos, começou no jornalismo em 1948, destacou-se como repórter investigativo nas principais publicações brasileiras, ganhou um Prêmio Esso e enveredou, a partir do início dos anos 1960, pelos caminhos da gestão educacional. Foi secretário de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte entre 1962 e 1963 e dirigiu, de 1975 a 1992, o Departamento de Educação da Fundação Roberto Marinho. Ali elaborou a proposta de ações educativas da Fundação, produziu e implantou ? em 210 emissoras de TV e 2.500 de rádio ? uma programação sistêmica constituída de 1.695 programas diários de telecursos, no total de 424 horas, que mais tarde reuniu em 40 títulos de fundamentação pedagógica destinados à pré-escola, primeiro e segundo graus, capacitação de professores, técnicos de nível médio e orientação de pais e mães.

Seu fascínio pela teleducação, conceito cuja aplicação foi pioneiro no Brasil, não esmaeceu em Calazans Fernandes a ligação telúrica com a região da Tromba do Elefante, no interior do Rio Grande do Norte, sobretudo com a Serra das Almas, à sombra da qual nasceu de pais descendentes da quinta geração do cristão-novo português e sesmeiro Matias Fernandes Ribeiro, que instalou-se naquelas bandas em 1742.

Num misto de grande reportagem e estudo etnográfico, o jornalista lança
agora O Guerreiro do Yaco, primeiro volume da trilogia Serra
das Almas
. Nesta e na página seguinte, dois textos introdutórios
do livro de Calazans Fernandes.

 

SERRA DAS ALMAS

Humberto Pereira (*)

Calazans Fernandes saiu da redação com uma pauta promissora. Poderia trazer uma reportagem especial, um furo memorável. Era 1955. O destino, a floresta amazônica onde teria sido encontrado um tenente do Exército, desaparecido desde a década de 30.

A floresta escura e úmida é o primeiro ambiente deste livro. A massa verde e densa encerra muitos mistérios, muitas riquezas, quem sabe tesouros? Por isso é palco da cobiça, de violência, de aventuras e mesmo de guerra como aconteceu no Acre. A floresta é também devoradora de homens como lembra o autor ao percorrer, de litorina, os trilhos da sinistra ferrovia Madeira-Mamoré.

A notícia do reaparecimento do tenente era falsa, frustrando uma busca que durou semanas no meio da mata. Mas o repórter esbarra em outros fatos relevantes, como os claros indícios da matança de índios que persistia em meio à disputa pelo leite dos seringais. E mais ainda. Nos momentos de solidão, acocorado na beira dos igarapés, evoca a figura de um velho parente que passara por essas mesmas matas, que guerreara e conquistara territórios imensos, tornando-se uma espécie de duque dos seringais do Rio Yaco. Seu nome, Childerico II. Teria ele também combatido índios, bolivianos e peruanos?

As indagações de 1955 tornaram-se o embrião deste livro que esperou pacientemente pela maturidade do repórter e só agora vem a público.

Childerico, já velho e doente, voltou para sua terra, o sertão do Rio Grande do Norte. Foi aí, em 1938, que Calazans Fernandes, menino, o viu chegar com pompas e regalias montado num cavalo pintado.

É também para este outro universo que o autor conduz sua narrativa. O sertão seco, claro, esturricado, o oposto da floresta. Um lugar igualmente misterioso mas onde as coisas desconhecidas ficam, por assim dizer, expostas à luz do sol.

Nestes confins do Rio Grande do Norte, Zé Rufino, o pai do autor, guarda num baú as histórias que recolheu durante toda uma vida, inclusive as fabulosas referências à saga de Childerico II no Acre. O baú dá conta de tudo, das guerrilhas do cangaço, das brigas seculares de famílias, das guerras em defesa da honra, das secas. No baú do pai o autor busca também as pequenas histórias do povo pobre, das comunidades fechadas por casamentos consanguíneos, dos artesãos e saltimbancos. Como na selva, no baú de Zé Rufino também tem um tesouro povoando a memória e o imaginário do povo. É a mina de ouro Cabelo-Não-Tem, na Serra das Almas. A mina é real assim como os nomes das famílias Fernandes, Maia, Queiroz, Pimenta, Pinto, Moreira, Oliveira…

Se os lugares são nitidamente delimitados (floresta úmida e semi-árido) os tempos da narrativa não têm nenhum compromisso com a linearidade. O exemplo mais expressivo dessa liberdade temporal está na perturbadora estrela de David esculpida na tampa do baú. Nas pesquisas históricas que fundamentam vários trechos do livro (nisso Calazans teve a mão de sua filha historiadora Antônia Terra) o autor vai lá atrás resgatar as origens judaicas da sua e de quase todas as famílias que colonizaram a Tromba do Elefante e os demais “sertões” do Nordeste.

É difícil rotular este livro. É relato de repórter como anda tão em moda? É história? Ficção? Seriam memórias? Ou um ensaio sociológico disfarçado de romance?

Na verdade é um pouco de tudo e nisso está sua riqueza. A angustiante escuridão da selva clama pela claridade do sertão. Neste cenário, que de resto ocupa a maior parte do livro, o leitor vai se envolver num ambiente de deliciosos topônimos onde a realidade convive com lendas, com medos, com “as almas” que sempre povoaram o fadário sertanejo.

(*) Editor do Globo Rural

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