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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > O LIBERAL

Triste ineditismo

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

O LIBERAL

Lúcio Flávio Pinto (*)

Na edição de 6 de setembro, O Liberal, de Belém (PA), cometeu algo provavelmente inédito na história do jornalismo mundial: deu manchete de primeira página a um editorial. Sob o título "Basa tenta calar O Liberal", o jornal ocupou quase toda uma coluna vertical da capa, de alto abaixo, para acusar o Banco da Amazônia (Basa) de retaliá-lo. Naquele mesmo dia, o Diário do Pará e a Gazeta Mercantil estavam publicando a íntegra do balanço financeiro da instituição, em três páginas, enquanto a O Liberal fora destinado apenas um resumo, de meia página.

O jornal estaria sendo punido por haver publicado matéria, um mês antes, sobre a sanção que o Tribunal de Contas da União aplicou à diretoria do Basa. Por considerar de "risco elevado e baixa garantia de retorno" um empréstimo de 4,4 milhões de reais concedidos pelo banco para a construção de um hotel de selva em Guajará-Mirim, na fronteira de Rondônia com a Bolívia, o TCU multou os cinco diretores, num total de 52,5 mil reais. Os argumentos dos punidos não foram aceitos pelo ministro-relator do TCU, Benjamin Zymler, que manteve a caracterização das irregularidades e a multa. Houve recurso administrativo dos diretores do Basa, ainda pendente de decisão.

O editorial de O Liberal diz que o jornal tentou inutilmente ouvir os diretores enquadrados pelo TCU, mas nenhum deles quis se manifestar. O jornal registrou que uma beneficiária do empréstimo, Olgarina Saldanha, sócia no controle do hotel Pakaas Palafitas Lodge, é casada com Paulo Cordeiro Saldanha, que foi diretor do Basa (e não presidente, como afirma o editorial) e hoje está aposentado. O Liberal manteve a cobertura do assunto, mesmo enfrentando o silêncio do banco.

"O tratamento editorial dado ao caso culmina agora com a retaliação do Basa ao O Liberal", sentenciou o jornal. Por retaliação, entendeu a atitude da diretoria de só programar meia página de anúncio para a folha da família Maiorana, enquanto dava três páginas para outros dois jornais, um local, de menor circulação, e outro nacional. "O princípio da publicidade, que exige a veiculação de peças contábeis e de atos do Poder Público no jornal de maior circulação na área foi desrespeitado", vociferou O Liberal.

Não exatamente. A lei exige que o material legal de instituições públicas ou sociedades anônimas seja divulgado em publicação de grande circulação, não necessariamente de maior circulação. O Basa pode não ter seguido os melhores padrões de marketing, mas não contrariou nenhum dispositivo legal ao publicar a íntegra do seu balanço no Diário do Pará e não em O Liberal. Essa suposta retaliação também não se caracterizou como um boicote: afinal, mesmo resumido, o balanço também saiu na folha dos Maiorana.

Fora da agenda, fora do mundo

Os veículos do grupo continuaram recebendo outras peças publicitárias. Foi mantido até mesmo o patrocínio do banco ao último telejornal noturno da TV Liberal, no qual, aliás, foi lido o editorial atacando o patrocinador. O Basa foi parceiro da empresa até o fim do projeto Criança Vida, que patrocinou UTI neonatal na Santa Casa de Misericórdia (com pagamento integral das veiculações publicitárias na rede do grupo).

Como, então, trombetear, com despropositado exagero, a tentativa de amordaçamento editorial? Reagindo a um fato inexistente ou superestimado, o jornal prometeu continuar cumprindo o item 3 do Código de Ética da Associação Nacional de Jornais, que lhe impõe apurar e publicar "a verdade dos fatos de interesse público, não admitindo que sobre eles prevaleçam quaisquer interesses".

Nesse caso, o jornal podia ter complementado a denúncia sobre o projeto de hotel de selva em Rondônia com a revelação de que o vice-presidente das Organizações Romulo Maiorana também é controlador de empreendimento semelhante no Estado do Amazonas, que recebeu incentivos fiscais da Sudam e está sob investigação de desvio do dinheiro liberado, como outras dezenas de projetos semelhantes, todos eles apontados seguidamente por O Liberal como tendo desviado recursos públicos para o patrimônio pessoal do ex-senador Jader Barbalho, o político mais influente na Sudam nos últimos anos.

O Liberal não deu inusitada manchete de primeira página ao seu editorial por estar sendo impedido de dizer a verdade, matéria-prima que costuma ser maltratada em suas páginas. Foi porque não ganhou o dinheiro que julga, por direito quase divino, ser obrigação do anunciante lhe pagar. Isso não é assunto editorial, mas matéria comercial. Devia ser tratada em outro lugar e de outra forma, ao menos para que o jornal, dando-se ao respeito, respeitasse o seu leitor.

Ah, sim: O Liberal não deu uma linha sequer sobre o conteúdo do balanço da maior instituição regional de crédito, que constitui relevante assunto jornalístico. Nem mais voltou a tratar da operação irregular de empréstimo em favor da empresa rondoniense de turismo. Parece até que para os Maiorana o que sai de suas agendas desaparece do mundo. D?après moi le déluge, diria Romulo Maiorana II, se pudesse saber o que estaria dizendo nessa difícil língua de seu circunstancial antecessor, um tal de Luís 14, o rei-sol.

(*) Jornalista em Belém (PA), editor do Jornal Pessoal

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