Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > BBC & THE NEW YORK TIMES

Tropeços e lições dos barões da mídia

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

BBC & THE NEW YORK TIMES

Arnaldo Dines, de Nova York

Para alguns críticos de mídia, o universo consiste apenas de extremos. É branco ou preto, oito ou oitenta, tudo ou nada. É um universo de verdades absolutas, onde barões da informação são condenados sumariamente ao purgatório, enquanto as estatais de mídia são elevadas ao paraíso. É um universo de julgamentos perpétuos, com a imprensa americana na defensiva por representar o comercialismo, e a imprensa européia na ofensiva por exemplificar o idealismo.

Infelizmente para estes críticos ? e felizmente para nós outros, meros mortais ? a realidade é bem mais complexa, como demonstram as últimas desventuras de dois dos mais importantes meios de comunicação do mundo anglo-saxão.

Representando as ex-colônias, aparece o irreverente The New York Times. Representando o Reino Unido, a solene BBC. Ambos são os órgãos de imprensa com maior influência política e cultural em seus respectivos países. Ambos passaram recentemente por escândalos jornalísticos traumáticos. Mas as similaridades acabam aí.

Enquanto a direção do New York Times instituiu uma investigação imediata após a revelação de seus deslizes jornalísticos no já conhecido episódio envolvendo o repórter Jayson Blair, a direção da BBC se protegeu sob um manto imperial de infalibilidade. Enquanto o New York Times assumiu a culpa publicamente em suas próprias páginas, inclusive com a posterior mudança do comando editorial, a BBC só faltou culpar a família real pelos erros de suas reportagens.

Foi necessária a força de uma avalanche de evidências apresentadas em uma comissão de inquérito governamental para a BBC começar a admitir timidamente sua vergonha. Em uma declaração solta aqui e outra ali, os diretores da BBC tentam agora afrouxar a corda do próprio pescoço, aceitando a versão de que o seu repórter Andrew Gilligan realmente distorceu as declarações de David Kelly, um cientista do Ministério da Defesa britânico, a respeito de um estudo divulgado pelo governo sobre as supostas armas do Iraque.

Império estatal

Antes, a comissão de diretores da BBC (conhecida como "board of governors") havia divulgado uma declaração formal defendendo veementemente tanto as alegações de Gilligan, como os procedimentos editoriais que permitiram a divulgação da reportagem sem maiores questionamentos. Sabe-se agora que os diretores optaram por silenciar suas dúvidas, pressionados pelo presidente da corporação, Gavyn Davies, que por sua vez, estava engajado em uma batalha política contra o ex-secretário de imprensa e porta-voz do governo, Alastair Campbell, alvo central dos ataques de Gilligan.

Um dos resultados da arrogância da BBC foi o trágico suicídio de David Kelly. Mas para entender a razão desta arrogância é necessário invocar novamente uma comparação com o New York Times, uma empresa cuja integridade jornalística é essencialmente o seu maior produto comercial. Se esta integridade for manchada, como foi, a circulação e o faturamento podem ser afetados, e conseqüentemente, causar uma oscilação negativa no desempenho das ações da empresa-mãe na bolsa de valores de Nova York.

Sejam quais forem as razões morais do jornal para a admissão pública de suas falhas, a pressão dos acionistas foi instrumento fundamental ao menos para a mudança da cúpula editorial. Já para uma corporação estatal como a BBC, estas incertezas não existem. O seu faturamento está garantido por verbas governamentais, além de uma taxa extra por canais de televisão, cobrada diretamente de cada um dos súditos da rainha. E seus programas de rádio e televisão não dependem de números de audiência para se manterem no ar.

A questão que se coloca, então, é a quem cabe a função de avaliar o desempenho da BBC. Que a diretoria é independente do governo, é inegável. Mas é inegável também a presença de uma cultura nociva de autopromoção e preservação desta diretoria. Prova disto é a coordenação nada sutil dos ataques da BBC e do partido conservador contra o governo trabalhista de Tony Blair.

Um exemplo paralelo e ilustrativo é a situação de Silvio Berlusconi, na Itália. Quando era apenas o mais poderoso barão de mídia do país, ele ainda estava sob uma certa dose de controle público, já que suas empresas privadas viviam ? e vivem ? sob a dependência de verbas dos anunciantes. Mas, como primeiro-ministro, com autoridade sobre a estatal RAI, ele foi literalmente promovido de barão à condição de um "César" da mídia. Ou seja: diante do atual gigantismo do seu império estatal, deve ter muita gente agora com saudades dos tempos em que denunciavam apenas o monopólio Berlusconi.

Cores primárias

A conclusão, por mais paradoxal que seja, é que, embriagada por tanto poder e impunidade, a BBC como um todo se transformou em uma caricatura estatal de Berlusconi.

Para alguns dos atordoados críticos de mídia, essas situações devem estar causando uma forte dor de cabeça. Como justificar a transformação da outrora liberal BBC em um comissariado stalinista de informação? Como explicar o banho de integridade do jornalismo empresarial americano, simbolizado pelo New York Times, sobre o jornalismo estatal europeu da BBC? E finalmente, como racionalizar as convicções dogmáticas desses críticos perante um público inerentemente pragmático?

Quando essas questões forem finalmente abordadas, será a hora dos nossos críticos de mídia expandirem o seu vocabulário e sua paleta de cores, seja para esboçarem alguns elogios subliminais aos barões de mídia, ou para incluir o cinza entre o branco e o preto.

O fato é que na nova realidade dos velhos barões, Rupert Murdoch até que soa bem sensato quando entoa o slogan "Fair and Balanced" (justo e equilibrado) da sua Fox News, especialmente em comparação ao jornalismo militante da BBC. E quanto a analogia com as cores, tanto o diretor-geral da BBC Greg Dyke como o diretor de notícias, Richard Sambrook, haviam justificado a imprecisão do estilo jornalístico do repórter Andrew Gilligan como "um em que ele reporta em cores primárias, ou fortes, e não em tons de cinza". Um argumento que somente a aparentemente daltônica diretoria da BBC poderia aceitar cegamente.

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