Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Três pelo preço de quatro

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

PESQUISAS & INTERPRETAÇÃO

Vera Silva(*)

Há coisas que não compreendo na maneira de agir da imprensa. Uma delas é fazer um auê em torno de um assunto e depois "largar de mão" como se os fatos da vida fossem compartimentados.

Há algum tempo fez-se um grande espalhafato com a diminuição da metragem do papel higiênico de 40 para 30 metros. O governo obrigou os mercados a informarem isto nas gôndolas e ficou tudo por isso mesmo. Os avisos continuam nas gôndolas, os pacotes que continham 160 metros de papel higiênico hoje contêm 120 metros, ou seja, estamos pagando três pelo preço de quatro.

O mesmo aconteceu com as toalhas de papel (de 140 para 120 metros), com o iogurte desnatado (de 200 para 185 gramas) e outros menos votados. O mais engraçado ("seria cômico se não fosse trágico") é que os fabricantes de papel higiênico, para manterem o tamanho da embalagem, afrouxaram tanto o enrolamento que os miolos estão praticamente se soltando dos rolos! Ah, já ia me esquecendo, o governo não os obrigou a mudar a embalagem para caracterizar a diminuição do conteúdo.

A imprensa esqueceu o assunto e tudo ficou como antes no quartel de abrantes, como se diz.

Essa prática é incompreensível e preocupante, porque é usada em todas as situações. Veja as eleições, por exemplo. As empresas de pesquisa eleitoral fornecem os dados, não sei se com ou sem gráficos, e a imprensa os analisa literalmente. Publica gráficos artisticamente trabalhados, mas estatisticamente errados, permitindo avaliações equivocadas, apressadas e, quem sabe, mal-intencionadas.

A análise das últimas pesquisas, propaladas com satisfação pela maior parte da mídia, mostram que Ciro Gomes entrou na disputa e que o percentual de Lula diminuiu, mas o comportamento do eleitorado não é analisado nem as reais possibilidades de eleição dos candidatos.

Acompanhe-me nesta análise.

A Tabela I mostra os dados numéricos de nove momentos de pesquisa. A primeira análise mostra que 15% dos eleitores não vota nos quatro candidatos pesquisados e que Ciro Gomes ocupou a posição de Serra e vice-versa. Garotinho corre em faixa própria, isoladamente, sem chance, uma vez que seus eleitores parecem votar nele porque ele está na disputa; mas não tem representatividade nacional.

Tabela I: Primeiro Turno

Nomes

10 e 13

27 e 28

19 e 20

12 e 13

18 e 19

29 e 30

22 e 23

2 e 3

13 e 15

Lula

32

32

39

42

42

40

38

39

34

Serra

24

23

19

17

16

20

21

17

16

Garotinho

15

16

16

15

14

13

11

12

11

Ciro

11

10

12

12

12

9

16

18

24

o/ns/b-n

18

19

14

14

16

18

14

14

15

Total

100

100

100

100

100

100

100

100

100

Fonte: Correio Braziliense, 18/7/2002.

Os dados acima, quando colocados no Gráfico I, mostram que, enquanto durou o Roseana fica-Roseana sai, o eleitor confuso oscilou entre os quatro candidatos, sobrando alguns votos para Lula. Lembro que escrevi sobre isto, reclamando das análises erradas que estavam sendo feitas de Lula como herdeiro destes votos. Mas as análises continuam a ser feitas com o mesmo descuido e com a mesma falta de curiosidade quanto ao que os resultados realmente expressam.

Gráfico I: Estimativa do primeiro turno

O que representariam então estes dados? Lula, que está onde sempre esteve, detém em torno de 32% dos votos; os não-votantes são 15% e os demais 51% vão eleger o presidente. Veja a Tabela II e o Gráfico II.

Tabela II: Votos de Lula

Nomes

10 e 13

27 e28

19 e 20

12 e 13

18 e 19

29 e 30

22 e23

2 e 3

13 e 15

Lula

32

32

39

42

42

40

38

39

34

C+S+G

50

49

47

44

42

42

48

47

51

O/NS/B-N

18

19

14

14

16

18

14

14

15

Total

100

100

100

100

100

100

100

100

100

Assim, toda a propalada subida de Lula nas pesquisas era fruto de má análise de dados da imprensa, que encampou o que os institutos de pesquisa quiseram vender, inclusive o aumento do Risco-Brasil. No Gráfico II pode-se ver claramente que as duas curvas nunca mostraram uma ascensão real de Lula. Nunca as curvas se cruzaram, indicando que isto ocorreu, nem a oscilação dos não-votantes indicava que isto ocorreria. Os eleitores esperavam alguém para substituir Roseana.

Gráfico II: Votos de Lula

Quando se comparam as simulações do segundo turno, como na Tabela III, este fato aparece claramente.

Tabela III: Simulação do segundo turno

Combinações

Lula

Ciro

Garotinho

Serra

O/NS/B-N

Total

Lula e Ciro

43

41

16

100

Lula e Garotinho

50

27

23

100

Lula e Serra

46

34

20

100

 

Os eleitores de Garotinho parecem considerar Lula uma boa opção substituta, enquanto os eleitores de Serra parecem optar por Ciro, mas os eleitores de Ciro parecem ficar perdidos e se distribuem caoticamente entre Lula e os demais candidatos, ou ficam sem optar.

Penso que podemos afirmar que o eleitor brasileiro hoje se divide em:

** Os que votam no PT, um partido que parece funcionar como tal, tem identidade, e cuja identidade é reconhecida pelo eleitor brasileiro;

** Os que não se identificam com o PT, nem com o governo, nem com os demais candidatos (eles são 15% dos eleitores!);

>** Os que votam em quem prometer mudar aquilo de que não gostam no atual governo. É um voto sem ideologia, sem proposta e sem análise ? voto de ocasião (eles são 51% do eleitorado!!!).

O Correio Braziliense comparou a equipe de Ciro com a de Collor. Esta comparação parece pertinente, porque Ciro está encarnando o salvador do povo do mesmo modo que Collor em 1989 e Roseana antes do escândalo do milhão. Ele promete o que o povo quer ouvir mas, ao contrário de Collor, está respaldado pelo histórico PCB (agora PPS) e pelo histórico PTB (agora PDT), embora faça um discurso liberal/capitalista. A imprensa, embora cobre de Lula coerência nas alianças, compromissos de manutenção do regime etc., não se lembra de cobrar o mesmo de Ciro. Não consigo imaginar Roberto Freire e Leonel Brizola no governo de Ciro aplicando o ideário psdebista/pefelista em total harmonia com os ditames do FMI. Mas parece que a imprensa brasileira consegue! Afinal a classe média pensa que o S do PSDB significa "socialista"!

Lula não parece ter nenhuma chance de vencer no segundo turno. Toda esta encenação via imprensa, mercado de capitais etc. é para enganar bobo ou, como escreveu Platão, para enganar o "homem democrático" que deseja riquezas. Ciro encarna melhor o papel de Robin Hood do que Serra e Garotinho.

(*) Psicóloga

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