Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Truffaut, o amor e os sinais de trânsito

Por lgarcia em 20/08/2000 na edição 96

Carlos Vogt

Você já assistiu ao filme A Mulher do Lado (La Femme D’À Côté), de François Truffaut? Não? Então, vá!

Realizado em 1981, é o último filme do grande mestre francês, que morreria, logo depois, no auge da maturidade de sua produção, e cuja obra está sendo exibida no Top Cine 2, em São Paulo.

A Mulher do Lado é uma obra prima na filmografia do cineasta, marcada, entre outras coisas, pelo tema recorrente do amor dividido, dramaticamente representado pelo famoso triângulo amoroso e apaixonadamente cruel(?), pela juventude das personagens envolvidas.

No elenco, nada menos que Fanny Ardant, então casada com Truffaut, "o homem que amava as mulheres", magnífica na beleza e na fragilidade ciclotímica de Mathilde, e Gerard Depardieu, pesado, mas também ciclotímico, no papel do instrutor de pilotagem de barcaças (peniches), Bernard.

Mathilde e Bernard amaram-se apaixonadamente na juventude. E porque a paixão arde e apaga, queima e congela em amor e ódio, em atração e repulsa, o encontro dos dois amantes, anos depois, já casados com outrem, terá a fatalidade que o destino reserva a quem ousa transgredir as normas da prudência que o afastamento e a distância impõe como condição de sobrevivência para amantes apaixonados.

Tanto isso é verdade que a narradora da história no filme é Madame Jouve, personagem mais madura, gerente de um clube de tênis freqüentado pela sociedade local, nos arredores de Grenoble e que, ironicamente, tem uma perna mecânica, o que a impossibilita para o jogo, mas a inscreve na galeria das personagens vitimadas pelo amor de juventude.

Madame Jouve, abandonada, quando jovem, pelo noivo que a deixou por outra e partiu para a Nova Caledônia, tenta suicidar-se, atirando-se do alto do edifício em que morava. É salva por um toldo de vidro de uma loja que suaviza sua queda, mas não impede que tenha de ter uma das pernas amputada. Moral da estória: se o amor não mata, mutila.

Num determinado momento da narrativa, ela recebe um telegrama, fica transtornada, recusa-se a revelar o que a abala e parte, depois de muitos anos, para Paris, por três dias. É nesse espaço de tempo que vem visitá-la a sua antiga paixão e causa de seu sofrimento. Ele não a encontra e este desencontro prudente é fruto da sabedoria dos que conhecem o amor e os seus contrários: já que não sucumbiram à sua sanha, aprenderam a manter o curso de suas vidas orientado pelo manual de sobrevivência a todo ardor. Reencontrar-se seria fatal. Essa, a lição da parábola de Madame Jouve.

Doce mistério

O contraponto a esta prudente reserva e distanciamento é a entrega patológica que envolve Mathilde e Bernard. Oscilando entre a excitação e a depressão, vivem, no reencontro, horas furtivas de prazer e dor. Deixam-se, impotentes para a tragédia final, mas ardorosos para a paixão arrasadora, levar pelas alternâncias ciclotímicas dos sentimentos, que tentaram evitar pela fuga um do outro, mas que, juntos, não conseguem suportar separados, e, separados, não podem admitir, senão juntos.

Mathide atira em Bernard em pleno ato de amor, no cenário noturno da casa vazia em que ela foi morar com o marido, Philippe, ao lado da casa em que o antigo namorado e amante morava com a esposa, Arlette. Em seguida, o corpo do amante morto sobre seu corpo, aponta a arma para a própria cabeça e se mata.

É claro que tudo isso não é para ser contado com a crueza de um resumo; é para ser visto, mostrado com a finura das imagens e a densidade psicológica dos tempos do amor impossível.

Desculpe-me, pois, pela revelação do desfecho, mas que, assim revelado, não rouba, contudo, o impacto da cena que guarda, em sua consistente beleza, o instante velado do doce mistério do amor e mostra, para sempre, a sua cruel e eterna finitude.

Triângulos

O filme é, em sua tecitura dramática, uma constelação de triângulos, cuja geometria desenha as tensões dos sentimentos e dos valores das personagens em oposição. E, é claro, a estrela mais densa dessas contrariedades é a que brilha na relação entre Mathilde e Bernard.

Depois do desfecho da ação, Madame Jouve reaparece como narradora para fechar a estória, com aquilo que, tecnicamente, pode ser caracterizado como uma coda. Enquanto ela tece o fecho, cenas mostram a polícia que chega, na manhãzinha do dia seguinte, ao local do tragédia, para as providências ritualizadas de praxe.

À informação que fornece para o espectador sobre o sepultamento separado dos corpos dos amantes infelizes, Madame Jouve acrescenta o comentário implícito de que nem mesmo na morte puderam ficar juntos e arma, então, como comentário final, a geometria definitiva da impossibilidade da paixão amorosa. Diz que, mesmo sabendo que não lhe perguntariam e tampouco o adotariam, o epitáfio que ela escreveria para os dois seria: "nem com você, nem sem você" (ni avec toi, ni sans toi). E o filme termina nesse triângulo de oposições que estrutura todas as demais que dramaticamente os constituem e no qual o leitor há muito já terá reconhecido o jogo de contrários que apresentamos no artigo "Por trás da linguagem do conhecimento científico" aqui mesmo no Observatório da Imprensa [veja remissão abaixo].

Não pretendo, de modo algum, sequer sugerir que o filme se reduz a isso e que, consequentemente, se justifica por ilustrar uma estrutura intelectual geradora de conceitos e valores universais. A universalidade do filme se deve à particularização estética da história que conta e da estrutura dramática e das imagens sensíveis da existência que mostra. Do lado dos conceitos, que sensibiliza pela particularidade das vidas que narra e pela riqueza das imagens que torna sensíveis, pode se ver, contudo, o mesmo compasso ternário e o mesmo ritmo alternado que subjaz à trivialidade dos sinais de trânsito: verde/vermelho/ amarelo; siga/não siga/nem pare, nem siga; com você/sem você/nem com você, nem sem você.

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Por trás da linguagem do conhecimento científico – Carlos Vogt

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