Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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TT Catalão

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

TIM LOPES, ASSASSINADO

"A utopia sem autópsia", copyright Correio Brasilientes, 15/06/02

"Que país é este, que só se mobiliza para revirar cemitérios clandestinos e remexer covas rasas na busca de arcadas dentárias e ossos? Que país é este, que só luta quando há luto – e a morte precisa ser célebre para ser celebrada. A morte anônima do gado-massa, povo disforme, cai na vala comum da indiferença: sem nome, sem rosto, sem pranto, sem peso ou valor no grande velório das hipocrisias que só choram enquanto há cobertura de mídia.

Que país é este da comoção retardada? Capaz de fazer uma tragédia virar espetáculo em nome de uma indignação circunstancial, sem raiz no comportamento com a mudança real da vida. A omissão cria redes de conivências. É cumulativa e desagregadora nos mínimos detalhes: tolera a morte da liberdade pela censura moral que cala, sem perceber que censura moral alimenta a censura terminal, a que mata. Aceita o corte intelectual que um dia legitimirá o corte na carne.

Em nenhum momento duvidamos da integridade de caráter e dignidade, em testemunho profissional e humano, do repórter Tim Lopes. Só é necessário aprofundar a questão: até onde vale esse tipo de jornalismo-denúncia superficial, que faz da imagem um circo sem maiores conseqüências na mudança? Oferece mais alimento para a curiosidade e a morbidez pública sem atuar na consciência. Excita a passageira sensação. Que passa e tudo continua. Que passa e logo se esquece. Como esquecemos o martírio do jornalista Herzog em 25 de outubro de 1975, indefeso, apenas por ter idéias, sem nenhuma arma, foi torturado e morto nos porões do Doi-Codi de SP sob pesado silêncio – sobrevivência pragmática? – de tantos que tinham o poder de iniciar o processo de democratização e que só entraram – tardiamente – na onda quando as ruas eram inevitáveis.

Jornalistas têm sido calados ou por demissões imorais, isolamentos técnicos e até, drasticamente, pela morte. Inúmeros foram executados, principalmente nos municípios distantes do país. Jornalistas que investigavam autoridades e podres do poder. Disputamos esta Copa do Outro Mundo dependentes e reféns. O complexo de especuladores internacionais está na raiz de todos os ?complexos do alemão? Terceiro Mundo: não nos dão chance de renascer.

A memória de Tim deverá ser resgatada no dia em que a utopia estará presente na vida, sem a autópsia da reverência post-mortem. Sem esse pranto oportunista de muitos que se omitiram na luta pela liberdade. Sem martírios. Jornalista não se cala, nem por mordaça, nem por bala. O resto é show mórbido. E polícia é polícia, bandido é bandido, jornalista é jornalista.

***

"Na mira do Tim", copyright Correio Braziliense, 8/06/02

"Cães farejadores tentam encontrar o repórter da Globo, que ousou entrar em favela carioca para registrar o abuso sexual de menores de um baile funk. Queremos Tim, vivo. E seguras condições de trabalho. E responsabilidade no uso de imagens. Denúncia-espetáculo é show. Reportagem é algo mais.

O testemunho do Tim enobrece a profissão pela coragem. Busca a notícia em territórios minados. Não teme excluídos das zonas de ocupação. Os sem-Estado. Guetos da marginalidade à revelia do Brasil oficial. Sem imunidades, Tim trabalha no instinto.

Na Bósnia, empresas treinavam repórteres como operadores de guerra. O Rio julga ?sob controle? o crime organizado: com uma polícia desaparelhada, desinformada, sem lynks entre operações de inteligência e estratégia. E muita corrupção.

Nesse front seguem repórteres

?armados? apenas de perigosa câmara escondida, pressionados a mais um furo fantástico, sob risco, meio ?policial-jornalista? para denúncias. Sem investigar, a imagem basta para compor a ?reportagem? do submundo?

Autoridades fingirão providências. Tim é peça do jornalismo

pitbull. Exposto. Brilhante.

Agora, cães farejadores o procuram. Nos anos 60 repórter de campo recebia a honrosa marca do perdigueiro. Focinho curto, faro aguçado, orelhas grandes e talento para a caça. De notícias. Astúcia para apurar, cercar, descobrir e revelar. Não só o sensacional, mas os fatores dos fatos. Hoje, a raça para o exercício da boa reportagem é a pitbull: estraçalha. Se apurar como um perdigueiro, ótimo. Manterá o valor da reportagem para não fazer da mídia um show achincalhador da notícia, mercadoria. Perdigueiro só, não dá. A competição agressiva, o império da imagem-espetáculo e a ditadura do furo exigem fúria. Tomara o prisioneiro de guerra Tim Lopes retorne. Tomara o uso discutível de bugigangas eletrônicas para obter informações fique para espiões. Riscos físicos de um jornalista, se ocorrerem, venham pelas suas idéias e nunca pela exposição em territórios ocupados, mesmo no cumprimento do sagrado dever de informar e não só denunciar para a sede do show da miséria. Volta, Tim!

"Quem matou Tim Lopes", copyright Correio Braziliense, 11/06/02

"Concordamos que, a esta altura, a ninguém é mais assegurado, como manda a Constituição, o direito de ir e vir livremente nas maiores cidades brasileiras. Por que então o jornalista Tim Lopes, da TV Globo, imaginou que poderia escapar ileso da incursão a uma favela carioca onde pretendia filmar às escondidas a exploração sexual de menores em baile promovido por uma organização criminosa?

Certamente Tim Lopes foi vítima do que o escritor colombiano Gabriel García Márquez definiu como ?uma paixão insaciável? pelo jornalismo. Pois ?ninguém que não a tenha vivido pode conceber, sequer, o que é essa palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo das primícias, a demolição moral do fracasso?. Só quem nasceu para isso ?poderá persistir num ofício tão incompreensível e voraz?.

Mas Tim Lopes não foi só vítima da paixão pelo ofício que o obrigava a arriscar a vida em nome do direito da sociedade à informação. A omissão do Estado, incapaz de garantir a segurança dos cidadãos, empunhou, sim, a espada que cortou Tim Lopes ao meio. Quem lhe aplicou o golpe fatal, contudo, foi um conceito de jornalismo que degrada o jornalismo e pode até matar jornalistas.

Não existe liberdade absoluta. Como não existe verdade absoluta. Os crentes enxergam Deus como uma verdade inquestionável; os ateus, como uma invenção das religiões para controlar os homens e impor-lhes certos limites. O direito de uma sociedade à livre informação é relativo, como de resto tudo é na vida. É descabido, pois, que empresas jornalísticas exponham a vida dos seus profissionais a riscos temerários.

Tim Lopes se expôs ao risco de morrer porque quis, porque foi autorizado por seus chefes a fazê-lo e também porque grassa cada vez mais por toda parte um tipo de jornalismo que não distingue entre o que interessa ao público e o que é de interesse público. Sobretudo na televisão, notícia e espetáculo se confundem. Empregam-se técnicas de show para construir ?a realidade?. E a fantasia que daí emerge garante audiência.

Era de interesse público a denúncia de que menores são explorados sexualmente por líderes do narcotráfico nas favelas do Rio. A forma de documentá-la, na medida em que poderia custar a vida do seu autor, é que foi errada e irresponsável. Tim Lopes muniu-se de uma minicâmara oculta, subiu sozinho o morro e acabou preso, cruelmente torturado e morto. Seu corpo foi incinerado em meio a pneus.

O que interessa ao público nem sempre é de interesse público. Infelizmente, estimular os baixos instintos do ser humano, por exemplo, interessa ao público ou a uma expressiva fatia do público. Aumenta as vendas de um jornal. E amplia a audiência de uma emissora de televisão. Mas proceder assim é condenável porque, em vez de contribuir para a elevação dos padrões morais da sociedade, o jornalismo os rebaixa.

Há ainda na tragédia protagonizada por Tim Lopes outro aspecto que cobra reflexão urgente e profunda da parte dos jornalistas e dos seus patrões. Porque sou jornalista e porque vivemos em uma democracia, estou liberado para me valer de qualquer recurso que assegure à sociedade o direito de tudo saber? Posso roubar documentos, mentir, gravar conversas sem autorização, violar leis?

Onde está escrito que disponho de tais prerrogativas? Quem me deu imunidade para rasgar códigos que regulam o comportamento das demais pessoas? Tenho dois filhos que estudam jornalismo. Uma vez formados, eles poderão enganar seus interlocutores para extrair informações e depois traí-los. Minha filha que se formará em Pedagogia, porém, deverá ensinar a seus futuros alunos que é errado mentir e trair.

A jornalista Janet Malcolm, autora do livro O Jornalista e o Assassino, escreveu palavras muito duras a respeito dos métodos que a maioria de nós utiliza na caça à informação:

– Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas.

– Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras (…)

Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do ?direito do público a saber?; os menos talentosos falam sobre a arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.

Se queremos ser mais respeitados e servir melhor ao público, teremos de repensar com seriedade os fundamentos do jornalismo. Seja para resgatarmos os que nos pareçam mais sadios e utópicos, seja para nos livrarmos de sua contrafação imposta pela realidade perversa de um mercado extremamente competitivo e predador.

Depois de uma vida dedicada, acima de tudo, a emprestar sua voz àqueles que não costumam ser ouvidos, o jornalista Tim Lopes pode afinal dormir em paz. Nós, pelo contrário. Temos de acordar."

"Tim e os outros", copyright Folha de S. Paulo, 16/06/02

"Pela pessoa , pelo profissional e pela atrocidade atordoante de que foi vítima, o repórter Tim Lopes justifica toda a emoção emergida do seu desaparecimento. Não se justifica, porém, o sentido dado a grande parte dessa emoção, criador de ficções perigosas como o surgimento de uma espécie de terror contra jornalistas, ameaças à liberdade de imprensa e risco para a democracia.

Em qualquer lugar do mundo, ameaçar a segurança de um foco de bandidagem sujeita a riscos, inclusive o de morte. Risco que não advém só da criminalidade instalada nas favelas, mas de vários outros gêneros de máfias, que podem ser de empreiteiros, de policiais (caso do ex-coronel e ex-deputado Hildebrando Paschoal, que matava com motosserra no Acre), de bicheiros, a do combustível adulterado e, tantas vezes, de políticos corruptos.

Terror contra jornalistas há na Colômbia, onde muitos têm sido caçados e mortos, ou pela guerrilha de esquerda, ou pela guerrilha direitista.

A liberdade de imprensa está reprimida, sim, mas não pela bandidagem favelada. Está sempre reprimida por muitos jornalistas e certos proprietários de mídia, com suas práticas diárias de deformação e sonegação de informações, por sujeição a interesses oficiais ou particulares, como por conveniências materiais diretas.

E de que fronteiras da democracia se trata, ao falar da criminalidade produzida nas favelas? Os direitos dos pobres em geral são mesmo aqueles conferidos pela Constituição?

Em sete anos e meio de um governo que se diz construtor de um grande futuro, o que foi feito para reduzir as fontes de onde brota, em quantidade crescente e cada vez mais letal, a criminalidade urbana? Nem aquilo a que se dedicou por tanto tempo, e com tantos sacrifícios para a população e o país, foi feito: bastou que meia dúzia de mafiosos financeiros e outros tantos políticos se lançassem no terrorismo eleitoreiro, já o governo teve que correr para se refugiar no colo do FMI e aumentar em monumentais US$ 10 bilhões a dívida com que deixa o Brasil sufocado.

Nada foi ou é feito para reduzir as fontes da criminalidade e, pior, é muito o que estimula seu crescimento e ferocidade. Duas manchetes internas, ambas dos últimos dias, nos dois jornais mais importantes de Rio e S.Paulo: ?Receita do comércio na década de 90 cresceu 60% e o salário caiu 22,5%? (Globo) e ?Indústria de SP demite mais do que contrata?. Dois pequenos e repetitivos adendos ao que se lê dia após dia, ano a ano, sobre a construção da realidade que Márcio Pochman assim resume, na mais recente das contribuiç&ototilde;es excelentes que vem dando para pensar-se o presente e o futuro: o Brasil é o segundo país do mundo em quantidade de desempregados.

Isso não decorre, é claro, da dimensão populacional, porque há países com população equivalente ou maior e nem por isso com 14 milhões de desempregados. À parte a gravidade do ponto de vista humanitário, quando se fala do desemprego e da consequente falta de perspectiva, mesmo que mínima, para a juventude pobre, o que se está exprimindo é a existência de uma condenação de muito dessa massa a um ambiente embrutecedor, em que tudo o que é humano vai se degradando até reduzir-se, no extremo já banal, à própria matéria e seu instinto, sem emoções, sentimento ou qualquer noção.

Cidades como Rio e S.Paulo estão transformadas em depósitos de pobres. Resultado de um processo. Diante do qual, tudo o que a mídia fez e faz são ondas de sensacionalismo. É a exploração mercantil-emocional de um ou outro episódio. As políticas e não-políticas geradoras da degradação ficam intocadas. Para rechear o sensacionalismo, a falsa defesa do interesse público escala um culpado, assim proporcionando a conveniente guarda a quem tenha real responsabilidade pela degradação social e pela omissão nas restrições à criminalidade. Agora mesmo, a Associação Paulista de Magistrados precisou publicar ?Nota de Repúdio? a um artigo em que os juízes de S.Paulo são acusados de melhorar seus vencimentos ?com gordas propinas pagas pelas quadrilhas?.

O sensacionalismo que se vale da tragédia de um jornalista sério como Tim Lopes é mais um momento típico da mídia brasileira em relação à criminalidade. Tão poucos dias depois do desaparecimento de Tim, um casal foi também preso, torturado e assassinado quando entregava uma cesta de café da manhã no dia dos namorados, nas cercanias de uma favela no subúrbio carioca ironicamente chamado Piedade. A jovem e marido que, guarda penitenciário, ocupava-se de um trabalho complementar, seriam menos humanos do que jornalistas? A tortura e morte de que padeceram seriam menos revoltantes? Sim, a julgar pela maneira muito discreta com que o caso foi tratado na mídia do Rio. Talvez para não desconcentrar a exploração do outro caso.

É fora das favelas que está a maior parcela da responsabilidade pelo aumento incontrolado da violência urbana. E, nesta parcela, grande parte não é gerada nas cidades mais presentes no noticiário, S.Paulo e Rio. Mas não só nelas o tempo se encurta para a ação e se estreitam as possibilidades de ainda reverter a criminalidade, antes que venha a provocar, então verdadeiramente, ameaça ao que aqui se chama democracia."

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