Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Tática diversionista

Por lgarcia em 20/11/1999 na edição 79

 

Rosa Nívea Pedroso (*)

O Programa do Ratinho, do SBT, produz um discurso destinado às massas (bem neste sentido, pois esse público não é concebido como cidadão) tecido e entrelaçado na comunicação sensacionalizada, nas pulsões do inconsciente, na punição dos miseráveis e no eros des(in)vestido de libido [veja remissões abaixo].

A representação do povo é cruelmente verdadeira. E sendo cruelmente verdadeira autoriza simbolicamente a construção do Superego Ratinho como a personagem mediática capaz de banir do programa, punir no programa, vigiar pelo programa de televisão os deserdados da nação brasileira. A condição de deserção dos participantes do programa é a condição real das populações periféricas ali representadas. Condições essas transformadas em não-riqueza, não-beleza e não-saúde. Pobre, feio e doente constituem as condições de representação. O discurso é constituído por uma linguagem clichê que aponta para a necessária repressão das pulsões de vida-e-morte. O Super-Ratinho é capaz de punir e infrigir a Lei. Ele é a Lei.

O entrelaçamento lingüístico dos enunciados construídos pelo apresentador Carlos Roberto Massa (O Ratinho? Quem representa quem? Ratinho ou Carlos?) referem-se aos campos semânticos dos significados de morte, violência e perversões.

Morte no sentido de também estar fora da existência das instâncias institucionais dominantes. O não-acesso ao mundo das riquezas. Ao mundo encantado que a publicidade oferece nos intervalos. O não-acesso ao mundo do Outro.

Criatividade perversa

Violência no sentido de manter a sobrevivência das condições culturais reais das populações representadas. Nada se transforma no universo televisivo do Super-Ratinho. Tudo é clichê. A sobrevivência do universo simbólico representado é reenergizada no extravasamento das emoções represadas dos participantes. Super-Ratinho (Herói Pós-Moderno da Mídia Índice de Audiência) rege a orquestra do circo/arena das neuroses urbanas pós-industrializadas.

Perversões no sentido do eros pervertido, não-eros. A pulsão de sobrevivência erotizada perversamente na exploração dos índices-clichês do comportamento desviante dos participantes.

Eis alguns traços do discurso de um programa de televisão cujo processo de enunciação/inspiração se assemelha à concepção do filme O exterminador do futuro. A versão televisiva brasileira se apresenta radicalmente mais criativa, pois figura nas páginas da imprensa como mais perversa que as versões similares na televisão-mãe americana. Eis quando o id se torna espetáculo real e simbólico, construindo o futuro imaginário do Brasil, século 21.

(*) Professora adjunta do Curso de Jornalismo do Departamento de Comunicação da UFRGS

 

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